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Capítulo 23 · Opúsculo Humanitário

XXIII

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A sede de ouro, a ambição de domínio ou o caráter despótico dos que anelavam por um vasto teatro para nele representarem suas cenas, por vezes mais bárbaras que as dos próprios selvagens, atraíam então ao Brasil, com algumas exceções, os colonos, donatários, governadores, capitães generais e vice-reis. Conferia-se quase sempre (cremos que mais por ignorância do que por cálculo) a execução da lei, no interior, a homens brutais ou sanguinários que, arvorados da autoridade de capitão-mor, decidiam a seu livre arbítrio (como tivemos a infelicidade de testemunhar ainda em nossos dias na província de Pernambuco) da vida de honestos cidadãos, de virtuosos pais de família, que caíam em seu desagrado. O nobre coração do príncipe regente D. Pedro se havia bem compenetrado desta verdade, quando disse em seu Manifesto, de 6 de agosto de 1822: “Quando, por um acaso, se apresentara pela primeira vez esta rica e vasta região brasílica aos olhos do venturoso Cabral, logo a avareza e o proselitismo, móveis dos descobrimentos e colônias modernas, se apoderaram dela por meio de conquista, e 76 Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo (1810-1877), António Feliciano de Castilho, 1º visconde de Castilho (1800-1875) e João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799-1854). 77 Pe. Manuel da Nóbrega (1517-1570) e Pe. José de Anchieta (1534-1597). 78 D. Pedro I (1798-1834), primeiro imperador do Brasil. leis de sangue, ditadas por paixões e sórdidos interesses, firmaram a tirania portuguesa. [...] E porquanto a ambição do poder e a sede de ouro são sempre insaciáveis e sem freio, não se esqueceu Portugal de mandar continuamente bachás desapiedados, magistrados corruptos e enxames de agentes fiscais de toda a espécie, que no delírio de suas paixões e avareza despedaçavam os laços da moral assim pública como doméstica, etc.” Bem se vê, pois, que de tais homens não podia provir vantagem alguma para o progresso das ideias, e por conseguinte da educação da mulher. Saber habilmente manejar os bilros, com que faziam grosseiras rendas, girar o fuso para reduzir o algodão ao grosso fio, pegar na agulha sem o conhecimento dos delicados trabalhos que dela se podem obter, conhecer o ponto da calda para as diferentes compotas e doces secos, laborar a lançadeira do tear, bambolear a pequena urupema e a fina peneira para preparar depois as massas, colorir as escamas dos peixes, ou adaptar as variegadas penas dos lindos pássaros tropicais à simetria das flores, que fabricavam com umas e outras, etc., tais eram geralmente as ocupações que revelavam o talento da jovem Brasileira. As excelentes qualidades que se perpetuavam, muita vez, em algumas famílias patriarcais, atraindo-lhes a estima geral, permaneciam, entretanto, como o diamante não lapidado, ocultando o seu verdadeiro brilho.

Opúsculo Humanitário

Sinopse

Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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