Universo da obra
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O Brasil, cuja importância aumentava de dia em dia pela sua população e pelas vantagens que ofereciam as suas copiosas minas e ricos produtos, permanecia ainda inteiramente dependente dos caprichos de Portugal, pigmeu insuflado de suas glórias passadas, conservando a vaidosa pretensão de continuar a reprimir o gigante, que a duas mil léguas parecia dormitar sob a pressão de suas pesadas cadeias! A longa resignação de seus filhos, quase sempre preteridos quando em concorrência com os da metrópole na distribuição de suas graças, sempre submetidos ao despotismo, que invadia e devorava o mesmo campo da ciência, tal como o do conde de Resende, perseguidor atroz daqueles que, como nosso ilustre moralista marquês de Maricá,79 se distinguiam nos trabalhos da inteligência, deixava Portugal laborar naquele erro, que tão fatal tinha de ser à sua prosperidade. Sabe-se que nenhuma academia nem escola regular possuía a nossa terra até os princípios do presente século, onde os seus filhos, explorando com vantagem as ciências a que se dedicavam, pudessem obter um título que os distinguisse no mundo científico e literário. Não somente para esse fim, como para terem conhecimentos exatos, até dos estudos preliminares, eram eles obrigados a ir em longínqua distância à metrópole. Se era isso uma medida política do seu governo, a nós não compete venti-lá-lo. Queremos somente concluir que nesse estado nenhum recurso podia o Brasil oferecer à mulher que desejasse cultivar a sua inteligência. Embalde tentaria ela instruir-se em qualquer outra coisa, a não ser nas ocupações materiais da vida doméstica, porquanto as lições que recebiam algumas meninas, nas casas intituladas escolas – onde, sentadas por terra em pequenas esteiras ou toscos estrados, abrindo de vez em quando, sobre a almofada de renda ou de costura, que faziam com rigorosa tarefa, errados manuscritos, a cartilha do padre Inácio, que lhes iam materialmente explicando – eram tão mal dirigidas, e por vezes tão perniciosas, que tendiam antes a estreitar, do que a dilatar-lhes o espírito, a viciá-lo, antes do que enobrecê-lo.
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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