Universo da obra
Universo da obra
Já vimos a dissolução ou inércia em que caíram os povos que mais têm desprezado ou mal dirigido a educação da mulher; e continua-se entretanto a olhar essa artéria vital da morigeração dos povos, senão com a mesma incúria revoltante de outrora, sem o firme propósito de incluir a reforma de sua educação nos importantes melhoramentos que ocupam atualmente os Brasileiros. Aqueles, que se contentam de caminhar vagarosamente quando as locomotivas transpõem o espaço com incrível velocidade, poderão dizer-nos que, há muitos anos, possui o Brasil estabelecimentos pagos pelo governo para instrução primária das meninas. Sabe-se a época em que esses informes estabelecimentos começaram de aparecer entre nós sob o nome de escolas régias. Eram porém sumamente raros; e quanto às habilitações intelectuais das professoras que os dirigiam, podem ser aquilatadas pelas que apresentam as de hoje no simples interrogatório, a que se chama entre nós exame público pelo qual passam as pretendentes às cadeiras de ensino primário em nossa terra. Se ainda vemos a maior parte desses lugares preenchidos por mulheres cuja principal habilitação consiste no patronato dos que as admitem nele, hoje que se vai crendo finalmente que as meninas devem aprender alguma coisa mais além dos trabalhos materiais, qual não seria a ignorância das mestras primitivas, a quem se confiava a tarefa de instruir o sexo? Daí o descrédito em que caíram as escolas públicas de instrução elementar, frequentadas somente, ainda hoje, por meninas a cujos pais falecem os meios de as mandar às escolas particulares, posto que, em geral, as diretoras destas não sejam mais capazes de corresponder à sua expectativa Mas ao menos estas se esforçam por adquirir uma reputação, de que depende o progresso de seus estabelecimentos, enquanto que as outras, certas do ordenado que percebem, sem embargo do número de alunas, não curam de aumentar essa reputação, que julgam além disso ter bem firmado perante o ilustrado auditório que assistiu a seus exames. Falai a algumas dessas professoras sobre o exame, que as fez julgar superiores às candidatas em concorrência, e vereis com que fatuidade atribuem o seu triunfo ao grande estudo a que se deram das matérias exigidas pelos austeros examinadores. Esquecidas das proteções a que recorreram, as Bachellery, Ste. Claire, Lahaye etc. de nossa terra ostentam tudo quanto podem ostentar as examinandas do Hotel de Ville e da Sorbonne, menos a sua instrução. Com efeito não pudemos deixar de corar pela nossa instrução pública, quando quisemos estabelecer um ponto de comparação entre os exames de nossas professoras e os, a que assistimos naqueles lugares, das mulheres que se propõem a exercer o magistério na França. E pois, como esperar que aquelas, a quem faltava sólida instrução das disciplinas que tinham de ensinar, pudessem preencher o fim para o qual o governo as nomeara, e apresentar, como deviam do ensino primário, um resultado capaz de servir de base a estudos mais elevados? Mas devemos admirar-nos disso, quando grande parte dos professores do mesmo ensino se achava em idênticas circunstâncias? Não vemos nós ainda alunos, que passam para estudos superiores, escreverem com péssima ortografia, estropeando as regras da gramática e cometendo erros de dicção, que fariam rir os alunos das escolas primárias dos países onde o estudo da língua materna é considerado como primeiro na escala dos conhecimentos humanos? O desleixo, em que continuava assim o ensino público, estava porém de acordo com os princípios da metrópole, que regia ainda então o Brasil. Era natural que as suas mulheres participassem de sua sorte, e com ele aguardassem um melhor futuro, confiados uma e outra nos inexauríveis recursos que lhe prodigalizara a natureza, e 91 Nomes de educadoras francesas, entre elas Joséphine Bachellery (1803-1872), autora de Lettres sur l’éducation des femmes (1848), entre outras obras. 92 Place de l’Hôtel-de-Ville é o Paço Municipal de Paris, que abriga as instituições governamentais municipais; Sorbonne é a Universidade de Paris, considerada uma das melhores do mundo, originada no Colégio de Sorbonne e fundado no século XIII. no amor de seus filhos, desenvolvido sob a influência da brilhante aurora de progresso, que se levantou para o presente século. Passemos a considerar se a sua expectativa tem sido ou não iludida.
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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