Universo da obra
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Quando o mesmo governo confessa, à vista de provas autênticas, ser por toda a parte do Brasil pouco lisonjeiro o quadro que apresenta o estado da instrução pública, devemos nós regozijarmo-nos da marcha progressiva de nossa civilização? Cometeríamos um grande ato de injustiça se, como aqueles seus apologistas, deslumbrados da perspectiva fosforicamente brilhante das reuniões de nossas capitais, entre as quais tanto sobressaem as desta Corte, foco da civilização brasileira, esquecêssemos as nossas meninas do interior das províncias, condenadas ainda à sorte de suas mães sob o regime colonial. Demais, sem precisar ir longe da capital do Império, não se vê ainda em algumas casas a mulher tal qual a descreveu Ferdinand Denis, quando viajou entre nós? Depois de falar dos melhoramentos da sociedade do Rio de Janeiro diz ele: “Si nous descendions de nouveau dans “l’intérieur des maisons brésiliennes, nous verrions qu’ au fond du sanctuaire de famille, à l’ombre des anciens penates, se conservent encore la plupart des vieilles coutumes. Là, on voit faire encore la sieste, pendant des heures, sans que l’activité toujours croissante des Européens change rien à cette coutume; là, les dames brésiliennes qui ont paru à l’église vêtues de nos modes françaises retrouvent le Costume brésilien...... Rarement assise, presque toujours accroupie sur les talons, la dame brésilienne fait de la dentelle, comme on en fabriquait au seizième siecle. Elle donne des férules à ses négresses, etc. etc.”99 Insistamos, portanto, em clamar energicamente contra a escassez de meios de educação, que assim expõe grande parte de nossas mulheres a merecer tão acre censura! 98 Jean-Ferdinand Denis (1798-1890), escritor e historiador francês especialista em História do Brasil. 99 “Se nos voltássemos ao interior das casas brasileiras, veríamos que, no fundo do santuário da família, à sombra dos antigos lares, a maior parte dos velhos costumes ainda permanece. Lá, ainda se pode fazer a sesta, durante horas, sem que a atividade sempre crescente dos europeus mude algo nesse costume; lá, as mulheres brasileiras que apareceram na igreja vestidas com nossas roupas francesas, retomam o vestuário brasileiro......... Raramente sentada, quase sempre agachada nos calcanhares, a brasileira faz rendas, como se fazia no século XVI. Ela bate com palmatória em suas negras, etc., etc.” A desproporção que demonstramos haver entre as escolas públicas de ensino primário apresenta-se mais considerável, ainda, nos estabelecimentos particulares de merecido renome, quer na Corte, quer fora dela. Não somente os que pertencem ao sexo são em muito menor número, mas também não oferecem geralmente um estudo regular do ensino secundário, ensino vedado, ainda hoje, às nossas meninas em estabelecimento público; e nos particulares nenhuma aula existe de alguns dos ramos das ciências naturais, cujo estudo tão agradável e útil seria às mulheres, que nascem, vivem e sentem no meio da nossa rica natureza tropical. Com grande prazer vamos vendo muitos dignos brasileiros, animados hoje do verdadeiro espírito de progresso, irem triunfando do indiferentismo e apatia de seus antepassados para se porem à frente do ensino da mocidade, em diversos pontos, principalmente desta província e da de Minas. Congratulamo-los por tão nobre empresa, e fazemos sinceros votos pelos prósperos resultados de sua louvável dedicação. Mas não podemos deixar de sofrer quando, enumerando esses novos estabelecimentos, nenhum encontramos pertencente ao sexo feminino! Nestas províncias, encontram já meios de instruir-se em diversos ramos do ensino os rapazes, que outrora iam com mais ou menos dificuldades procurá-lo longe de suas famílias; entretanto, as meninas, cujos pais por justas considerações não ousam aventurá-las em uma longa ausência de suas vistas, acham-se ainda privadas dessa vantagem! Os provincianos, mormente os que viveram algum tempo na parte mais ilustrada da Europa, deveriam desprezar destarte a educação da mulher? Alguns, possuindo grande fortuna, não poderiam em suas respectivas províncias obviar-lhe os males provenientes da falta de educação, atenuando, senão preenchendo em geral, a lacuna deixada pelo governo! Entregamos à consideração dos mais cordatos e amigos do progresso este expediente, aliás de tanto momento para as províncias a que se prezam de pertencer.
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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