Universo da obra
Universo da obra
Sempre divergimos dos que preferem a educação pública à particular, para as meninas principalmente. Não desconhecemos a vantagem da tão preconizada emulação das classes como incentivo necessário aos progressos dos estudos; mas como pouca diferença haja aparentemente da emulação à inveja, e mais pouca atenção ainda se tenha em fazer os discípulos discriminarem aquela virtude deste vício, muita vez confundidos em certos espíritos, não quiséramos expor as nossas meninas às fatais consequências de uma paixão, que tem por mais de uma vez funestado a existência da mulher. Poucas diretoras sabem inspirar a emulação a suas alunas, conduzindo-as com esclarecida prudência pelo declive perigoso das raias da inveja, de sorte a garanti-las de resvalarem em seus funestos domínios; porém, mais poucas são, ainda, as discípulas capazes de compenetrar-se da utilidade de uma, e das tristes consequências da outra, sujeitas como elas se acham às duas tão opostas atmosferas em que respiram a família e o colégio. “A emulação, diz um escritor moralista, é uma paixão nobre e generosa, que só tem por objeto a virtude; assim, não tende ela a rebaixar os outros, nem a desmerecê-los; sem querer que sejam menos estimáveis, exprobra-nos o intervalo que medeia entre eles e nós; se é suscetível de mau humor, falo-nos sentir somente, sem rancor aos que nos excedem. A inveja, pelo contrário, é uma paixão baixa e ignóbil, que, por seu amargor, corrompe a virtude: desejando manchar o lustre das boas ações com um sopro peçonhento, a inveja aspira subir para ver os outros inferiores. A primeira é uma filha do céu e um resto da grandeza para que nascera o homem; a outra, um fruto do inferno e do demônio, que se perdeu a si por ela, servindo-se desse veneno contagioso para perder o primeiro homem”. E pois, como além de temermos esta arriscada alternativa, estamos intimamente convencidos de que nenhuma diretora poderá fazer de nossa filha aquilo que nós poderíamos conseguir fazer, decidimo-nos pela educação feita, sob o teto paternal, pelas mães em condições apropriadas. Para o que desejaríamos proporcionar a todas conhecimentos, aptidão e gosto para preencherem elas mesmas, como deveriam, a honrosa e sublime missão de preceptoras de suas filhas. Uma mãe bem-educada e suficientemente instruída para dirigir a educação de sua filha obterá sempre maiores vantagens, aplicando-se com terna solicitude a inspirar-lhe como emulação o sentimento da própria dignidade, que qualquer diretora não conseguiria obter de suas educandas. Para provar esta asserção bastaria a experiência de duas meninas de idênticos recursos intelectuais, submetidas uma aos cuidados de sua mãe, mulher de bons costumes e nas condições que acima apontamos, dando-se a possibilidade de conservá-la sempre sob suas vistas; outra sob a direção de uma preceptora (supomos também com iguais habilitações), de comum com grande número de companheiras, imitando ou sobressaindo a todas na aplicação dos estudos. Aos 18 anos estas duas jovens poderão ser perfeitamente instruídas, mas não igualmente educadas e possuindo o mesmo grau de simpleza. A primeira será a esquisita delicada flor da estufa, desabrochando as suas lindas pétalas de uma corola não tocada por impuros insetos, esparzindo o precioso aroma da inocência e da candura; a segunda, a flor dos jardins, exposta ao contato de malignos insetos e às variações da atmosfera que lhe tiram por vezes o aroma, quando ela conserva ainda o brilhantismo de suas cores. Uma tal experiência seria, porém, quase impossível fazer-se entre o povo, em que a mulher não é ainda o que deve ser – a primeira educadora de seus filhos –, a mais útil amiga do homem. Enquanto, pois, ela não atingir esse estado em que esperamos vê-la um dia colocada, é de vigorosa necessidade para os pais recorrerem aos colégios cujas diretoras sejam reconhecidas por seu zelo e dedicação ao ensino. Ali, ao menos, a menina gozará de duas vantagens: a de seguir os estudos em horas para isso reguladas e a de não se achar tão em contato com os escravos, cláusula essencialmente necessária para o bom resultado da educação. Já que tocamos em uma das causas capitais da pouca morigeração de nossa mocidade, desenvolvamo-la de pronto, com o laconismo a que nos obriga o título deste escrito.
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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