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Capítulo 41 · Opúsculo Humanitário

XLI

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Um prejuízo muita vez fatal à infância, um crime, diremos nós altamente, introduziu-se no Brasil, porque não é ele de origem brasileira; é o que leva as mães a negarem, por miseráveis considerações mundanas, seu seio aos seus recém-nascidos. Nada nos parece tão revoltante como ver uma mãe, sem causa justificada pela natureza, consentir que seu filho se alimente em seio estranho. Se Rousseau, com o seu Emílio, fez corar as mães francesas pelo esquecimento em que estavam desse primeiro dever da maternidade, em França, onde as amas têm mais ou menos alguma educação, e se distinguem pelo asseio; o que sentiriam as mães brasileiras, que bem compreendessem aquele livro, à vista de seus filhos pendentes do seio de míseras africanas, que passam, muita vez do açoite, na casa de correção ou nas dos próprios senhores, ao berço do inocente para oferecer-lhe seu leite? Entretanto, é esta a primeira lição preparada ao menino brasileiro, lição que bebe com esse leite impuro, e lhe vai com ele contaminando assim o físico como o moral. Antes mesmo de saber articular sons distintos, grande parte dos nossos meninos já se apercebe de ter naquela que lhe dá o alimento uma escrava submissa a seus caprichos. Antes de compreenderem o que é mandar e obedecer, eles sabem com gestos exercer o comando e exigir a obediência; o vocábulo imperioso – quero – é pronunciado de comum com os de mamã e papá. Estes têm quase sempre a imperdoável fraqueza de não somente ensinar-lhes aquele som vago para a pequena inteligência que o escuta e repete, mas ainda a de aplaudirem a sedutora graça com que o fazem, ensinando-lhes assim a contraírem o hábito da impertinência, e isto porque tais graças os divertem! É um erro muito vulgarizado, principalmente entre nós, supor que as crianças nada perdem nessa primeira idade vendo, ouvindo e imitando os maus exemplos praticados em torno delas. Não se advertindo que a educação, para ser perfeita, deve começar do berço, persiste-se em deixá-las, em plena liberdade, seguirem todas as suas fantasias sob o pretexto de não saberem elas ainda o que fazem. O sábio Fénélon, em seu livro, De l’Education des filles, falando desse primeiro período da infância diz: “ Ce premier âge qu’on abandonne à des femmes indiscrètes et quelquefois deréglées, est pourlant celui ou se font les impressions les plus profondes, et qui par consequent a un grand rapport à tout le reste de la vie.”101 “Avant que les enfants sachent entièrement parler, ou peut les préparer à l’instruction. On trouvera peut-être que j’en dis trop: mais on n’a qu’ à considérer ce que fail l’enfant qui ue parle pas encore: il apprend une langue qu’ il parlera bientôt plus exactement que les Savauts no sauraient parler les langues mortes, qu’ ils ont etudiées avec tant de travail dans l’àge le plus mur.”102 “O menino, diz ainda Santo Agostinho, entre seus gritos e seus brinquedos, nota a palavra que é sinal do objeto: e o faz ora considerando os movimentos dos corpos naturais, que tocam ou 100 François de Salignac de La Mothe Fénelon (1651-1715), educador francês, publicou a obra Da educação das meninas em 1687. 101 “Esta primeira idade, em que se abandonam [as crianças] a mulheres indiscretas e, por vezes, desreguladas, é, no entanto, aquela em que se fazem as impressões mais profundas e que, por conseguinte, tem uma grande relação com o resto da vida.” 102 “Antes que as crianças saibam falar completamente, podemos prepará-las para receber instruções. Pode parecer exagero, mas basta considerar o que faz a criança que ainda não fala: aprende uma língua que em breve falará com mais exatidão do que os sábios saberão falar as línguas mortas, que eles têm estudado com tanto trabalho na idade madura.” 103 Agostinho de Hipona (354-430), importante teólogo e filósofo dos primeiros séculos do Cristianismo. mostram os objetos de que se fala, ora sendo tocado pela frequente repetição da mesma palavra para significar o mesmo objeto. É certo que o temperamento do cérebro das crianças lhes dá uma admirável facilidade para a impressão de todas as imagens: mas que atenção de espírito não é preciso para discerni-las e para referi-las aos objetos? Não obstante ver-se, todos os dias, os atos dos nossos meninos comprovarem a justeza dessas observações, feitas por dois grandes órgãos das verdades cristãs, obstina-se, todavia, em fechar os olhos a tais atos, sem dúvida simples em seu começo, mas de tanto momento quando as ideias abrangem um certo espaço no mundo moral. Em piores condições que as do povo entre o qual escrevia Fénélon, acham-se os brasileiros. Entretanto, grande parte destes vê ainda, sem repugnância, seus filhos nos braços de desmoralizadas escravas, ou por elas acompanhadas, irem de uma a outra parte na habitação e fora dela. Quantas vezes temos tido occasião de ver e lamentar essas criaturazinhas impregnadas já do hálito contagioso das más companhias inutilizarem as profícuas lições de uma moral pura e fácil de seguir! Para essa desgraça muito concorrem as mães, que se achando no caso de moralizar suas filhas, em vez de retê-las, como devem, junto a si, habituando-as aos bons costumes, instruindo-as com ações e palavras edificantes, folgam de poder desembaraçar-se do aborrecimento causado pelo choro ou motim das crianças, encarregando as pretas de acalentá-las ou distraí-las.

Opúsculo Humanitário

Sinopse

Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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