Universo da obra
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Copiemos antes de tudo a educação que naqueles países se dá à mocidade; imitemos principalmente os ingleses no respeito à religião e à lei; os alemães no hábito de pensar e no empenho de elevarem-se acima de todos os povos pelo estudo e pela reflexão; os franceses em seu espírito inventor e em suas generosas inspirações civilizadoras: a todos no gosto pelo trabalho e no desejo sempre progressivo de engrandecerem-se por seu engenho e atividade. atinge a população até à sua origem, seria necessária uma revolução completa nos costumes do país; mas enquanto a escravidão subsistir, será inútil indicar as causas do mal etc. etc.” 106 Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire (1779-1853), botânico e naturalista francês. Quando vemos naquelas nações tomarem-se todos os dias novas medidas para se melhorar mais a educação de sua mocidade, a qual tão inferior se acha e se achará talvez por séculos ainda a nossa, o coração se nos contrai no peito ao contemplarmos o nosso Brasil tão rico, tão grandiosamente excedendo a todas as nações do mundo em recursos naturais, precisando lutar ainda no século XIX com grandes dificuldades para oferecer às suas mulheres uma tênue parte da instrução, que as classes mais baixas daqueles países da Europa e dos Estados Unidos podem facilmente obter! Não é, porém, a falta de erudição que mais devemos lamentar, ela poderá desaparecer mais tarde; a luz brilha nas trevas, e para logo as trevas deixam de existir. A ignorância de nossas mulheres poderá ser um dia substituída por conhecimentos que as tornem dignas de renome. Mas o mesmo não acontecerá a respeito da viciada educação, que como incêndio vai lavrando pelo centro das famílias e deixando-lhes consideráveis vestígios, que nenhuma instrução conseguirá apagar. O espírito pode enriquecer-se de belos e úteis conhecimentos em todas as idades antes da decrepitude. Voltaire aprendeu a música no último período de sua vida longa de 84 anos. Muitas grandes inteligências cujos preciosos legados a humanidade desfruta, atingiram, como Rousseau, a idade adulta sem as profundas luzes que fazem hoje a nossa admiração. Só a educação para produzir salutares efeitos deve acompanhar o indivíduo desde a infância. Nas condições pois, já mencionadas, em que se acham as nossas meninas, impossível lhes será adquirirem o hábito das boas práticas, cujo todo constitui a base de uma completa educação; porquanto grande parte das mães, longe de se esforçarem por diminuir os prejudiciais efeitos de tais condições, lhes vão por seu turno inculcando princípios demasiadamente arriscados para elas no futuro. Aquelas, que melhor que ninguém podiam inspirar-lhes sentimentos simples e benignos, são quase sempre as primeiras em dar-lhes, uma o espetáculo de sua iracúndia, outra o de deleixo, ou de um luxo ruinoso, que levam as famílias à miséria e à dissolução; está o de certas teorias levianas, tidas como inocentes, mas de tão graves consequências para a mulher, que lá se está formando nesse pequeno ser compilador atento, chamado: menina. Outras ainda têm a indiscrição de deixar suas filhas aperceberem-se de suas desinteligências domésticas. Quem há aí que não tenha visto certas mães, esquecidas do que devem a si mesmas e à moral de seus filhos, patentearem a estes, bem vezes com desabrida imprudência, os seus desgostos reais, ou indiscretos ciúmes? Algumas cometem até a imperdoável falha de inspirar-lhe antipatia por aquele que lhes deu o ser, a fim de os atrair melhor a sua causa. Nada por certo é mais prejudicial a educação das filhas do que as repetições dessas cenas domésticas, natural ou artificiosamente representadas pelas mães, manifestando o resfriamento dos deveres impostos pela sociedade, e mantidos pelo bom senso e pela religião no seio das famílias pensadoras, compenetradas do empenho de firmarem o venturoso porvir dos tenros seres, que se vão modulando pelos exemplos daquela, cuja voz mais império tem sobre seus corações. Uma mãe é então o quadro mais eloquente, para lhes servir de norma em sua conduta futura, o modelo que devem primeiro copiar; se esse modelo não é perfeito, como poderá a menina apresentar uma cópia perfeita?
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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