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Capítulo 50 · Opúsculo Humanitário

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Em vez dos jogos de exercício, dos passeios campestres e de pequenos agradáveis trabalhos de uma utilidade real para a infância, acostumam-na em indolente languidez, que a faz por vezes contrair males precoces, a depender inteiramente, ainda nas coisas mais fáceis, do auxílio das escravas, sem as quais a mulher brasileira assim habituada nada pode nem sabe fazer. Não se adverte, que a virtude e o saber são os únicos bens indefectíveis; que somente eles podem acompanhar o indivíduo através dos vórtices morais, que aluem os palácios e os mesmos tronos, reduzindo à miséria os mais orgulhosos senhores de opulentas fortunas. Muitos pais no meio dessa opulência, nas cidades, ou em suas fazendas e engenhos, onde alguns vivem à guisa de verdadeiros baxás, fazem alarde de rodear suas filhas, cujo espírito deixam em completo ócio, do prestígio frívolo da grandeza material, grandeza que bem vezes lhes sufoca até o sentimento de sua natureza, julgando-se de uma raça privilegiada, superior a todos os seus semelhantes sujeitos às eventualidades da fortuna. Quando esses colossos de vaidade desabam da altura a que os elevara a pura matéria, confundem-se no mundo das inteligências com o pó levantado pelo tufão que passa, pondo em evidência toda a sua nulidade, e todo o horror de sua situação. Prescindindo de outros muitos, a história da França moderna apresenta inúmeros exemplos da nenhuma estabilidade dessa opulência, que ensoberbece e desvaira muitas famílias, quando só deveriam ver nela um meio de tornarem-se melhores, consolando a indigência e cooperando para o engrandecimento da pátria. A nobreza francesa sob o antigo regime, educando suas filhas nos princípios aristocráticos que tanto a distinguiam, julgava bastante acrescentar ao conhecimento de sua ilustre linhagem e dos feitos d’armas dos seus varões, o ensino superficial de algumas prendas adaptadas ao brilho de seu nascimento, então primazia indisputável nos direitos ao poder e à gloria, apesar dos vícios e dos crimes, que o haviam muita vez manchado. O verdadeiro soberano das nações, o povo, esse vulto indelineável como lhe chama o sábio A. Herculano, abriu a cratera de sua reconcentrada cólera; e em pouco as grandes fidalgas, que haviam escapado à mão do algoz atrozmente descarregada sobre a linda cabeça de sua virtuosa e infeliz rainha, fugiam espavoridas ocultando o nome cujo prestígio as embriagara, ou definhavam de miséria e de dor nas águas furtadas de Paris, e algumas, baldas de uma instrução sólida, serviram de damas de companhia, de aias de crianças nas casas de famílias burguesas, tão desdenhadas outrora por elas! A lição havia sido tremenda, não podia deixar de aproveitar-lhes. Desde então a nobreza compreendeu que não devia limitar a instrução de suas filhas ao conhecimento das etiquetas do grande mundo e ao da enumeração de seus títulos, que de nada valem, nem utilizam nas crises que dissipam as ilusões de um nome herdado, de uma gloria factícia. Hoje são elas educadas em princípios mais conformes à humanidade, e procuram adquirir sólidos conhecimentos no gênero de instrução a que se dedicam, sendo quase toda a nobreza de acordo em amestrar a mocidade ao trabalho, do qual lhe deu exemplo a própria rainha Amélia até o dia de sua precipitada fuga pelos subterrâneos das Tulherias. Se as mulheres da alta aristocracia das nações cultas, cercadas da prestigiosa nobreza de tantos séculos, sustentada por fortunas colossais e pelos grandes feitos de muitos de seus maiores, compreenderam, enfim, que o trabalho é a única égide invulnerável assim nos grandes terremotos sociais, como na agressão dos vícios em todas as classes da sociedade, como podem as nossas conterrâneas, cujo orgulho não tem por base nenhuma daquelas vantagens, desprezar o trabalho e passar todo o seu tempo ocupadas de frivolidades, afetando muitas uma delicadeza que lhes não permite mesmo, sem comprometer sua saúde, suportar os descuidos ou o serviço mal feito das mucamas?! É na verdade para lastimar ver algumas de nossas meninas, possuindo aliás os necessários elementos para tornarem-se excelentes mães de famílias, e mulheres notáveis, entregues ao torpor de uma má educação, dormirem até alto dia, levantarem-se maquinalmente e vagarem pelo meio da família em completo desalinho, sem uma ideia do nobre fim para que foram criadas, sem um estímulo para as práticas e a ordem que as deviam conduzir a ele! Se Helvécio, que diz ser o ócio necessário para o desenvolvimento da inteligência, tivesse razão, por certo que as mulheres das outras nações não poderiam levar a palma às nossas, que se acham nas melhores condições, conforme ele, para tal desenvolvimento. Mas nem sempre os espíritos filosóficos veem a verdade onde ela está. Mme. de Staël em vez do ócio julgava ser a melancolia necessário incentivo para obter-se o mesmo resultado, e houve uma época na França em que a melancolia e languidez passou por moda. Os povos ainda os mais ilustrados têm também suas fraquezas; esta foi uma das mais ridículas daquele, entre o qual felizmente certos escritores tomaram a peito banir das sociedades a representação de uma farsa, quando o gênio mais ou menos desenvolvido de seus atores a ia por demais generalizando.

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Sinopse

Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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