Universo da obra
Universo da obra
Há pouco mais ou menos doze anos, vimos com satisfação, posto que corando pela incúria do nosso clero, um padre francês dar em uma das igrejas desta capital a primeira instrução de catecismo, preparando com solicitude a infância para um ato que, quando bem compreendido, tão salutares bens derrama em seus tenros corações. Quisemos para logo ali conduzir nossas filhas, mas aguardamos que os brasileiros, tão imitadores do estrangeiro, deste copiassem uma das mais edificantes práticas, que deveria ser também a nossa, desde que o Brasil é nação católica. Pensamos que os nossos párocos, impelidos por tal incentivo, dessem, enfim, como lhes cumpria, em suas respectivas paróquias, o digno espetáculo do bom pastor instruindo suas ovelhas, ocupando-se principalmente da educação religiosa da infância. Iludida foi, porém, a nossa expectativa; algum tempo depois, sacrificando mesquinhas considerações de mal-entendida nacionalidade ao bem espiritual de nossos filhos, conduzimo-los a participarem das explicações dadas pelo religioso Fournier, sucessor do reverendo Guillaume. Folgamos de ver que muitas famílias brasileiras e algumas diretoras de colégio levavam suas filhas e educandas a ouvirem aquelas instruções; mas bem depressa apercebemo-nos, com pesar, de que muitos espectadores do solene ato da primeira comunhão concorriam a ele com o mesmo pensamento que leva a nossa mocidade às festas de igreja, onde infelizmente pouca reverência se guarda, em geral! Daí as seguintes linhas publicadas, em 1851, na Revue des deux mondes: “Un des principaux centres de la vie sociale au Brésil, ce sont les églises. Avant de franchir le seuil d’une maison brésilienne, entrez dans l’un des nombreux temples de Rio de Janeiro au moment d’une cérémonie rèligieuse, et déjá vous aurez saisi un des cotés originaux de cette population...”121 121 “Um dos principais centros da vida social no Brasil é a igreja. Antes de entrar no seio de uma casa brasileira, entrai num dos numerosos templos do Rio de Janeiro no momento de uma cerimônia On peut voir les femmes échanger de longs et doux regards avec les jeunes gens, qui passent et repassent, ou s’arretent même pour mieux continuer ce jeu pendant toute la durée de l’office!!” Lemos estas linhas em Paris, quando, com mais indulgência, analisamos outras repreensíveis faltas dos franceses, mais dignas de censura desse escritor, pois que são cometidas por um velho povo que tantos séculos conta de civilização! Não obstante reconhecermos que uma parte dos brasileiros merece aquela censura, todavia muito nos revoltou ela, porquanto a nacionalidade de um coração patriótico nunca tão altamente se revela como quando sente ele, em país estrangeiro, ferir ou humilhar o seu próprio país. Os erros da pátria são como os de nossos filhos; queremos nós mesmos censurá-los e puni-los, mas não podemos sofrer vê-los estigmatizados por estranhos, a quem nada devem. Não podemos, porém, com justiça, exprobrar a nossa mocidade de pouco religiosa, quando ela vê por toda a parte em nossa terra alguns padres não somente descuidosos de fazer-lhe sentir os sublimes preceitos do Homem Deus, mas ainda darem-lhe tristes exemplos de uma conduta desregrada e criminosa! Como pretender que um clérigo, que tem calcado aos pés os deveres impostos ao seu santo ministério, consiga, falando do alto de um púlpito ou no confessionário, moralizar os que o têm visto entregar-se a toda a sorte de prazeres mundanos?! Entretanto não há província do Brasil, freguesia quiçá, onde alguns desses homens, trajando as vestes sacerdotais, não tenha dado esse espetáculo; e, o que mais é para censurar entre um povo cristão, são eles tolerados no exercício do digno ministério que profanam! Não pretendemos delatar aqui as faltas do nosso clero, mas visto que tratamos da educação no Brasil, impossível nos era deixar de fazer menção de uma das causas capitais, que indubitavelmente concorrem para que ela se não desenvolva, escudada nos santos prin religiosa, e, logo capturareis uma das facetas originais dessa população. Pode se ver mulheres trocando longos e doces olhares com rapazes, que vão e vêm, ou param para melhor continuar este jogo durante todo o ofício!!” cípios da religião, primeiro sustentáculo das nações, e o meio mais profícuo de tornar os homens melhores.
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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