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Capítulo 57 · Opúsculo Humanitário

LVII

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Os fatais abusos cometidos por uma parte do nosso clero e o mau sistema dessa educação doméstica, principalmente, têm sido e continuarão a ser, se uma regeneradora época não brilhar para nós, a causa primordial do atraso de nossa civilização, a fonte de todos esses vícios que infestam a nossa sociedade, pervertendo tão frequentemente o caráter natural de um povo como é o brasileiro, dócil, modesto e generoso. Os mesmos viajantes ilustrados, que se têm dado ao estudo do caráter dos brasileiros, fazem-lhes esta justiça, indicando de passagem as causas que todos conhecemos, de nossas mais salientes faltas. O conde de Castelnau, depois de tecer justos encômios à nossa hospitalidade, diz: “Le Brésilien est bien loin d’avoir le caractere dur qu’on lui prète solvente en Europe, car c’est certainement le plus indulgent, etc.”123 “Le désoeuvrement. Le manque de moyens d’ètude et la plaie de l’esclavage ont eu la plus fâcheuse influence sur l’ètat des moeurs en ce pays, et le clergé, loin de suivre le bel exemple qui lui est présenté par celui d’Europe, n’est que trop souvent le prémier á donner l’exemple de la débauche et du désordre.”124 “Avant mon départ de Rio, un des chefs de l’église me disait avec un peu d’exagération sans doute: Vous trouverez ici un clergé, mais pas de prêtres.”125 Esta franqueza agrada por ser a expressão da verdade, mas não pode, ao mesmo tempo, deixar de revoltar quando parte de um vigário que, em vez de se esforçar para que ela marche na santa via pres François Louis Nompar de Caumont LaPorte, conde de Castelnau (1810-1880), naturalista inglês, cruzou a América do Sul entre 1843 e 1847. 123 “O brasileiro está bem longe de possuir o caráter firme a ele frequentemente atribuído na Europa, pois é, certamente, o mais indulgente, etc. 124 “A desocupação, a falta de meios para o estudo e a praga da escravidão tiveram a mais lamentável influência sobre os costumes nesse país; e o clero, longe de seguir o bom exemplo que lhe é apresentado por aquele da Europa, é, muitas vezes, o primeiro a dar o exemplo da dissolução e da desordem.” 125 “Antes de minha partida do Rio, um dos chefes da igreja comentava comigo, com certo exagero, sem dúvida: Encontrareis aqui um clero, mas não padres.” crita pelo seu grande fundador, se apraz em ridicularizá-la perante um estrangeiro! É também ao desleixo de tais vigários que se deve a desordem e o desrespeito tão censuráveis que reinam nos nossos templos, principalmente nas ocasiões de certas festas mais concorridas. Se eles soubessem impor o devido respeito nessas solenidades, qual seria a pessoa, por mais irreligiosa, que ousasse afrontá-lo! Mas, pelo contrário, deixam inteiramente a todos, que não são ali levados pelo espírito de verdadeira religião, a liberdade de conversarem sobre qualquer assunto que seja e portarem-se com irreverência no santo recinto. Custa-nos a confessar que antes de irmos à Inglaterra, não havíamos sentido, ao entrar em um templo do Senhor, esse profundo recolhimento que inspira à alma religiosa os lugares consagrados ao seu Divino culto. Parece-nos ouvir de antemão grosseira e inepta censura de espíritos fracos ou parciais, que aliviam tudo pelas suas próprias impressões. Mas, longe de ofendermo-nos, perguntar-lhes-emos com a calma do filósofo e a paciência do cristão: Quando ides assistir às nossas festividades de igreja, o que é que aí vedes em geral praticarem os fiéis? Distinguis, por acaso, na fisionomia, na atitude da maior parte deles alguma coisa que vos prove irem ali somente orar? Podereis furtar-vos à verdade não confessando que esses grupos amontoados às portas de nossos templos e os que neles entram em tais ocasiões, parecem ir, antes, assistir a uma representação teatral, do que às cerimônias do santo sacrifício do Filho de Deus para resgatar o gênero humano? À fé que, se não tendes alguma vez feito parte desses falsos cristãos, concordareis de pronto conosco: e ainda quando assim fosse, vossa consciência apoiar-nos-á apesar vosso. E aconteceria isto se a maioria dos nossos padres imitasse os dignos exemplos daqueles que entre nós honram o seu ministério por suas virtudes e saber, fazendo tão altamente sobressair o nome brasileiro na glória que difundem sobre a pátria, a igreja e a humanidade? Por certo que não. O clero francês, o mais instruído do mundo católico, deveria ser para a desvairada parte do nosso o tipo pelo qual ela modelasse a sua conduta. Não nos era preciso as brilhantes conferências do eloquente Lacordaire, as do persuasivo e piedoso Ravignan, e de tantos outros que extasiam a alma do cristão, quando lhe fazem ouvir as edificantes verdades do Evangelho. Bastar-nos-ia que todos os nossos padres dessem-nos o espetáculo da piedade e verdadeira dedicação com que aqueles dignos prelados procuram edificar o povo e inocular na mocidade os princípios sólidos e fecundos de nossa santa fé... Mas temos já assaz indicado as causas primárias que retardam o conveniente desenvolvimento da educação e dos progressos intelectuais de nossas mulheres civilizadas; cumpramos agora uma santa missão consagrando algumas páginas àquelas, que tendo inegável direito às graças dos usurpadores do seu território, foram, e são ainda em geral tratadas por eles com o mais rude desprezo. Falamos das que chamam caboclas, dessa interessante e infeliz porção da humanidade que se tem de mais em mais entranhado em nossas florestas, ou vive aqui e ali decimada em mesquinhas e desorganizadas aldeias!

Opúsculo Humanitário

Sinopse

Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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