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Estudos Brasileiros (1877-1885)

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Estudos Brasileiros (1877-1885)

Capítulo 1 · Estudos Brasileiros (1877-1885)

Prefácio

os paizes de alta cultura e consoante vida intellectual, como Allemanha, França ou Inglaterra, as collecções de artigos de gazetas ou estudos de revistas entram hoje consideravelmente na producção espiritual. Mais justificado, parece, deve ser semelhante maneira de publicação em paiz como o nosso onde embryonaria a vida intellectual não pode constituir profissão ou ao menos aturado emprego, condições materiaes ao meu vêr indispensaveis aos trabalhos de largofolego,e quando muito dá logar ás publicações de occasião que mais tarde o seu autor, em geral por uma innocente e desculpavel illusão, julga dignas de colligidas em livro. Dadas as condições geraes da nossa sociedade apenas excepcionalmente poderemos tentar estudos de conjuncto e publicar volumes de uma vez feitos.

Seanossahistorialitterariaquizessedesceraminuciosidades bio-bibliographicas, quiçá importantissimas, viria talvez a reconhecer que os poucos d'esses livros entre nós publicados, exceptuados os productos da appellidada litteratura amena ou didascalica, o foram por sujeitos abastados e dados ás lettras, ou por funccionarios bem remunerados pelo Estado ou que, emfim, se viram em condição privilegiadaparafazel-o. Em qualquer d'estes casos, estão os Srs. Visconde de Porto Seguro, Pereira da Silva, Norberto Silva, Candido Mendes, Raiol, Couto deMagalhães, Caetano da Silva e outros. Não sendo a litteratura entre nós senão umpassatempo, como para nossos avós era o dar e glozar mottes em escolhida assembléa, ou ainda hoje advinhar charadas de pós o chá de familia, não ha quem não direi possa d'ella exclusivamente viver mas siquer com ella ajudar a vida, conforme praticamente sediz.

A não serem os traductores, parodiadores ouque nome tenham dos vaudevilles francezes do Rio de Janeiro e ali tambem arranjadores de revistas do anno, gente que não sei se é possivel contar na litteratura nacional, ignoro que haja n'este paiz alguma pessoa para a qual as lettras sejam outra cousa que não um porventura consolador desenfado a occupações accaso menos bem queridas, porém mais praticamente uteis. Não é comtaes elementos que se podempublicar livros, que não achariam ainda a mais parca remuneração do tempo e trabalho n'elles dispendidos. Ficamos, então, reduzidos a escrever nos jornaes diarios pois nem revistas ou periodicos litterarios temos, e aquelles crêem ainda favorecer-nos publicando gratis a nossa prosa que ao depois, quando se nos depara alguma rara facilidade-reparem que não digo felicidade--ajuntamos em um máo volume, previamente convencidos de irmos fazer um máo negocio. Tal é a condição material da nossa litteratura, e me persuado que hoje em dia a condição material de uma litteratura affecta profundamente o seu desenvolvimento e os seus productos.

Por isso a Critica quando houver de julgar-nos, a nós despremiados escriptores brazileiros, deveria ter sempre em vista este ponto de relatividade. É batido este thema, sei-o, e souforçado a vencer algum pejo para volver a elle; mas que fazer sinão tomar por nossa conta o clama, clama ne cesses?... Em um paiz de leguleios, na terra classica da ignorancia governamental, onde ministros de Estado, como o tem soberanamente provado em famosos episodios parlamentares, nem grammatica ao menos sabem, assoberbado pela preoccupação exclusiva não da politica como arte séria de governo mas como meio exclusivo de poder, politica sem ideal, sem nobreza, sem moral, com sacrificio de quaesquer interesses nacionaes que não sejam os immediatos do partido-o que ha a esperar para a vidaintellectual da nação? A instrucção publica, seu alicerce natural, é apenas uma alinea obrigada da falla do throno ou um thema rhetorico dos programmas ministeriaes.

Aprimaria acha-se na desorganisação mais completa, no estado mais lastimavel que é possivel conceber, e a metaphysica constitucional entregando-a, por um mal entendido espirito de descentralisação, ao cuidado das provincias cujas populações além de, em maioria ¹ Afrase é do Sr. Sylvio Roméro. ao menos, carecerem de competencia, por via de regra indifferentes, condemnou-a a improficuidade. A secundaria a um tempo sobrecarregada e deficiente, apezar das successivas e multiplas reformas que parecem apenas visar o interesse de certos livreiros da Côrte e especuladores d'essa vergonha da nossa litteratura pedagogica chamada os pontos, com o estabelecimento dos exames nas provincias principalmente, caío em uma degradação tal que a menos de reformas radicaes e effectivas torna-secomo está uma ameaça para o futuro intellectual do paiz.

A superior, limitada ás especialidades praticas da medicina, da jurisprudencia e da engenharia e, de commum, feita sem bons estudos preparatorios, é, ainda assim, e não obstante a superabundancia de máos resultados comprovados pela copia de insignificativos diplomas que distribue, aquella que, não tendo em conta sinão as tres referidas especialidades, se acha em melhor situação. A industrial não existe. A artistica envolve-se ainda para nós nas sombras do mytho. Aprofissional escapa até agora á esphera da nossa actividade politica. Não possuimos uma só escola superior de litteratura ou de sciencias. Parece incrivel que não tenha- mos uma cadeira superior de lingua e litteratura nacional, nem tão pouco da nossa historia. ¹ Este paiz que vae caminho de 20 milhões de habitantes, de uma população homogenea, que tem a pretenção á hegemonia da America do Sul apenas possúe como estudos superiores os cursos especiaes apontados.

Ás sciencias naturaes em suas multiplas categorias evastacomplexidade, aos variadissimos ramos da actividade mental da humanidade hodierna, a anthropologia e a linguistica, a historia das religiões e a philologia, as linguas orientaes do grupo indoeuropeu ou do grupo semitico, as linguas romanicas, a ethnologia, a paleographia, a philosophia, as litteraturas antigas e modernas, emfim a todo esse formidavel trabalho intellectual que se faz á roda de nós, nós permanecemos praticamente extranhos. E n'este ponto não é só áquem da Europa que nos achamos, o que não seria talvez grande vergonha, 1 NoCollegio de Pedro II que parece ser a unica fundação séria de estudos secundarios do paiz, a cadeira de litteratura nacional, faz parte da de rhetorica e litteratura portugueza, e a historia do Brazil, é apenas elementarmente ensinada. ΧΙ mas dos Estados Unidos, da Republica Argentina e do Chile, o que é triste. No ultimo romance do Sr. Eça de Queiroz, Os Maias, ha um pequenoepisodio deperfeitaapplicação ao Brazil.

É aquelle em que o Ega obriga os seus interlocutores, entre os quaes está um ex e futuro ministro a reconhecerem que nada obstante os tão apregoados talentos de quantos se immiscuiam no governo portuguez eram todos concordes em affirmar que Portugal era, na frase petulante do boulevardier do Chiado, uma choldra. No Brazil-bom filho de Portugal, pois não degenerou-reproduz-se o mesmo phenomeno de demopsychologia. A par de uma enorme tendencia á diffamação, tão caracteristica das sociedades mal educadas, floresce o opposto pendor ao encomio exagerado, ao excessivo e desmarcado elogio,julgamentos ambos superficiaes de gente preguiçosa e desleixada, sem a necessaria cultura ou o necessario senso moral para se impor a reflexão que exige qualquer especie dejuizo. Se houveramos de aceitar o que por ahi se affirma, creio não haveria no mundo paiz mais rico de capacidades de toda a sorte do que o nosso.

Em se tratando de qualquer dos nossos homens publicos, deputado, senador ou ministro, bacharel apenas saido das Academias, onde mal aprendeu a estudar, ou um dos numerosos doutores que estão quasi a formar a maioria da população, mofino versejador ou fraco plumitivo, que, a menos que não acudam a detractal-o, se não ouçam as frases consagradas: é um talento, é muito habil,-é uma capacidade, intelligencia de primeira ordem.-O jornalismo indigena perdeu já a noção do que significam os termos eminente, illustre, illustrado e quejandos qualificativos. Em vez de raciocinar-se, faz-se a critica dos individuos com exclamações e adjectivos, o que, certo, é infinitamente mais facil. Pois apezar d'esta plethora de talentos, illustrações, capacidades de toda ordem e casta, concordamos todos em que este é um baixo-imperio, uma nação estragada antes de amadurecida, um povo precocemente decadente, uma choldra para resumir com o Ega.

Em meio do desalento geral e dafunda descrença que lavra não só os espiritos que o vento de scepticismo que sopra n'este fim de seculo tinha preparados, mas ainda o povo extranho aos embates do pensamento moderno, surge apregoando-se capaz de regenerar o paiz a idéa republicana. Problemas ha,politicos ou sociaes, sobre os quaes ninguem que tenha a honra de pegar uma penna, sinão distincta, honesta e convencida, póde evitar de dizer o que sente. D'esses era hontem a escravidão, é hoje o republicanismo. Que republicano venha a ser o governo do Brazil, é coisaqueme parece certa.A republica noBrazil, sobre encontrar a influencia poderosa do meio americano, tem, com Beckmann, no Maranhão, em 1684, com os pernambucanos em 1710, 1817 e 48, com os mineiros em 1789 e 842 antecedentes historicos.

A obra da unidade e integridade da patria, que aos olhos de todo pensador sério tornará benemerita á historia a monarchia brazileira, dado o desigual desenvolvimento das provincias, a geographia do paiz e um certo espirito separatista que nos infiltrou a organisação colonial portugueza, não sei si se poderá manter sem a federação. Pela geographia, pela historia, pela ethnographia, e ainda pelas tradições e sentimento intimo do povo, a federação parece ser a fórma definitiva-se definitivo ha alguma coisada patria brazileira. Tal federação, porém, não póde ser a sonhada pelo Sr. Joaquim Nabuco com mais sentimento do que intelligencia politica.

Essa federação monarchica com uma só monarchia, a fazer lem- brar o anedoctico edital prohibindo reuniões de mais de um, não ha quem a comprehenda no paiz, e se viesse a realisar-se em vez de sobrestar o advento darepublica, como se antolha ao generoso e brilhante paladino do terceiro reinado, ella viria antes preparar a genesis, em uma qualquer crise social impossivel de prever e dirigir, mas infallivel, de pequenos Estados que mais tarde nem a monarchia enfraquecida, nem talvez a republica quando viesse, poderia reunir sob a sua bandeira. Não sei si S. Paulo, por exemplo, com seu forte e aliás legitimo orgulho provinciano, seu grande sentimento individualista, tendo-se separado em qualquer momento da federação brazileira se resolveria a volver a ella, com sacrificio de sua hegemonia.

Assim dizendo, sempretenções asociologista, que m'as vedam a convicção da minha incompetencia e oreconhecimento da enormissima difficuldade detaes problemas, o meu sentir debrazileiroemummomento sem duvida critico da nossa evolução social, julgo haver sufficientemente indicado que nenhum preconceito politico offusca o meu juizo: de ser elle tosco resulta sómente o que de errado haja n'estes conceitos. Pois bem, forçosamente republicano, não por que acredite na efficacia e infallibilidade da republica na qual vejo apenas uma resultante e não um factor, uma formula na evolução governamental, mas não a fórma definitiva que ainda escapa ás nossas previsões, porém por julgal-a determinada pelas nossas circumstancias politicas e evolução historica, é, sinão com hostilidade, ao menos sem nenhuma sympathia que encaro o actual movimento republicano, fadado por ventura a não remoto triumpho.

Conforme dizia ha bem pouco em um dos seus opusculos o Centro Positivista Brazileiro,grupo escolhidissimo onde, o que é já raro, as mais austeras virtudes se alliam ao mais sério estudo-não são as leis sinão os costumes que fazem as republicas. Profundamente e justamente descrente dos nossos homens, eu vejo-os os mesmos n'este movimento. Elles ahi estão com a mesma educação e indole, representando, afóra o rotulo, os mesmos costumes publicos, possuindo as mesmas tendencias e aceitando d'aqui e d'acolá as mesmas allianças. Aqui entre nós um dos chefes escreveu que declarar-se republicano é como um baptismo que de tudo lava e o orgão officioso sinão official do partido ha dias convidava o chefe supremo do partido conservador, padre e senador do imperio, que por momentaneamente ven- cido n'uma d'estas mesquinhas luctas de politica de aldêa se lhe prefigurava despeitado, a declarar-se republicano.

Lemos os seus escriptores e ouvimos os seus conferencistas e ao cabo sómente occorre a todos os educados pelos graves pensadores desenganados das illusões da politica rhetorico-metaphysica a estafada exclamação de Hamlet: Words, words, words... Todas as safadas idéas e accessorios da eloquencia jacobina, todos os chavões, as frases feitas, as chapas, como ora dizemos, que desde a Convenção, por 1830 e 48 chegaram até nós mediante não os grandes e melhormente conceituados historiadores, mas os Lamartine, osVictor-Hugo ou os Luiz Blanc e seus repetidores portuguezes ou indigenas, exornam as arengas dos novos tribunos. Nenhum sentimento real e pratico das necessidades nacionaes, nenhuma comprehensão mais elevada e justa da historia ou das tradições patrias, nenhum conhecimento da moderna evolução do pensamento politico. Abalofa eloquenciade academicos. em festas litterarias. Os grandes palavrões. A metaphysica mais atrazada ao serviço de idéas que ingenuamente acreditam ultrapassar o seu tempo.

Como criterio sociologico a republica qual uma panacéa e o ideal dos governos, a soberania popular elevada, consoante a metaphysica democratica, a um principio tão infallivel como era para os monarchistas da velha escola o direito divino dos reis, o parlamentarismo como a fórma viva e perfeita em que para a felicidade das nações se encarna essa pretensa soberania, a innerrancia da multidão, a superioridade brutal do numero, tudo em summa que não ha hoje um pensador digno d'este nome, seja qual fôr a escola a que pertença, chame-se elle Aug. Comte ou H. Spencer, Bluntschili ou Fouillé, Laffitte ou Littré, Holtzendorff ou Molinari, Stuart Mill ou Lastarria, Renan ou Taine, que não tenha ao principio combatido e destruido e ao depois refugado como uma traparia só propria da preoccupação dos clubistas de Paris. Tudo isto, ao meu parecer ao menos, não promette uma republica muito intelligente nem sensivelmente diversa da monarchia actual. Dar-nos-á ella a liberdade que ora gosamos? Respeitará, como a monarchia tem respeitado, a livre expansão do pensamento?

Terá alguma consideração pelas cousas do espirito? O desordenado amor da igualdade que caracterisa as democracias latinas não augmentará ainda mais a supremacia das mediocridades? O futuro, bem cedo talvez, solverá estas questões. Obscuro cidadão d'este paiz, que préso como os que mais o querem, e fiado no justo conceito do excelso poeta da democracia tive uma boa intenção e francamente a disse. Dispensem-me de outros meritos, reconhecendo este. O mais util hoje seria abraçar sem restrições e lisongear sem continencia a opinião que vae vingar. Não obstante ser adverso a umas certas generalisações hoje em voga, creio firmemente que entre a vida intellectual e a vida politica de um povo ha estreitas relações.

No periodo que atravessa o Brazil-um estadio de formação que maisparecephase de decadenciado qual procurei dar com sinceridade e boa fé aimpressão pessoal que d'elle tenho, a litteratura, e emprego aqui esta expressão como synonymo do conjuncto de todas as manifestações de ordem intellectual traduzidas pela escripta, no dominio da sciencia, no dominio da arte ou no dominio das lettras, apenas existe. O movimento iniciado cerca de 73 e que procurei esboçar em trabalho que faz parte d'este li-

Estudos Brasileiros (1877-1885)

Sinopse

Leia gratuitamente Estudos Brasileiros (1877-1885), de José Veríssimo, obra crítica e ensaística em domínio público publicada em 1889. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 14 ensaios sobre literatura brasileira, cultura popular, história, política e formação nacional, capa nova no padrão Literunico, fonte DSpace/MJ validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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