Universo da obra
Universo da obra
Canto I Canta-me, Musa, o homem de muitos recursos, que tanto
vagou, depois de destruir a sagrada cidadela de Troia;
viu as cidades de muitos homens e conheceu-lhes a mente,
e muito sofreu no mar, em seu íntimo, dores,
[5] lutando por sua vida e pelo retorno dos companheiros.
Mas nem assim salvou os companheiros, embora o desejasse;
pois eles pereceram por sua própria insensatez,
tolos, que devoraram as vacas de Hélio, filho de Hipérion;
e ele lhes tirou o dia do retorno.
[10] De algum ponto desses feitos, deusa, filha de Zeus, conta também a nós.
Então todos os outros, quantos fugiram à abrupta ruína,
estavam em casa, salvos da guerra e do mar;
só ele, desejoso do retorno e da esposa,
a veneranda ninfa Calipso, divina entre as deusas, retinha
[15] em cavernas escavadas, ansiando fazê-lo seu marido.
Mas quando, no girar dos anos, chegou o ano
em que os deuses lhe haviam fiado voltar para casa,
a Ítaca, nem mesmo ali ficaria livre de provações
em meio aos seus queridos. Todos os deuses se compadeciam dele,
[20] exceto Poseidon, que sem descanso se enfurecia
contra Odisseu, semelhante a um deus, antes que alcançasse sua terra.
Mas ele fora visitar os etíopes, que habitam longe,
os etíopes, divididos em dois, os mais remotos dos homens,
uns ao poente de Hipérion, outros ao nascente,
[25] para receber uma hecatombe de touros e carneiros.
Ali se deleitava, sentado ao banquete; os outros deuses
estavam reunidos no palácio de Zeus Olímpio.
Entre eles começou a falar o pai dos homens e dos deuses;
pois no coração se lembrou do irrepreensível Egisto,
[30] a quem Orestes, filho de Agamêmnon, de longe afamado, matou.
Recordando-o, dirigiu estas palavras aos imortais:
“Ah, como agora os mortais culpam os deuses!
Dizem que de nós lhes vêm os males, mas eles próprios,
por sua insensatez, sofrem dores além do que lhes cabe.
[35] Assim Egisto, além do que lhe cabia, tomou por esposa
a mulher legítima do Atrida e o matou quando regressou,
sabendo da abrupta ruína, pois nós o prevenimos,
enviando Hermes, o vigilante Argifonte,
para que não o matasse nem cortejasse sua esposa;
[40] pois de Orestes viria a vingança do Atrida,
quando chegasse à juventude e desejasse sua terra.
Assim lhe falou Hermes, pensando em seu bem, mas não persuadiu
o coração de Egisto; agora ele pagou tudo de uma vez.”
A ele respondeu então a deusa Atena de olhos glaucos:
[45] “Ó nosso pai, filho de Cronos, supremo entre os soberanos,
com justiça ele jaz na ruína que lhe cabia;
assim pereça qualquer outro que pratique tais atos.
Mas meu coração se consome por Odisseu, o sagaz,
pelo infeliz que há tanto sofre longe dos seus
[50] numa ilha cercada pelo mar, onde está o umbigo do mar.
É uma ilha coberta de árvores; nela habita uma deusa,
filha de Atlas, o de pensamentos funestos, que conhece
as profundezas de todo o mar e sustenta ele próprio
as longas colunas que mantêm separados terra e céu.
[55] A filha dele retém o infeliz, que chora,
e sempre, com palavras suaves e sedutoras,
procura encantá-lo para que se esqueça de Ítaca; mas Odisseu,
desejando contemplar ao menos a fumaça que se ergue
de sua terra, anseia morrer. E teu coração
[60] não se comove, Olímpio? Não foi Odisseu
quem junto às naus argivas te agradava, oferecendo sacrifícios
na vasta Troia? Por que tanto te iraste contra ele, Zeus?”
A ela, em resposta, disse Zeus, ajuntador de nuvens:
“Minha filha, que palavra te escapou da cerca dos dentes!
[65] Como eu poderia esquecer o divino Odisseu,
que supera os mortais em entendimento e, mais que todos, ofereceu sacrifícios
aos deuses imortais, senhores do vasto céu?
Mas Poseidon, senhor da terra, permanece sempre enfurecido
por causa do Ciclope a quem Odisseu cegou,
[70] Polifemo, semelhante a um deus, o mais poderoso
entre todos os Ciclopes. Gerou-o a ninfa Toosa,
filha de Fórcis, senhor do mar infecundo,
depois de se unir a Poseidon em cavernas escavadas.
Desde então Poseidon, abalador da terra, não mata
[75] Odisseu, mas o faz vagar longe da terra paterna.
Vamos, porém, pensemos todos juntos
em seu retorno, para que ele venha. Poseidon há de abandonar
sua ira, pois não poderá, sozinho, contra todos
os deuses imortais, contender à revelia deles.”
[80] A ele respondeu então a deusa Atena de olhos glaucos:
“Ó nosso pai, filho de Cronos, supremo entre os soberanos,
se isto agora agrada aos deuses bem-aventurados,
que Odisseu, muito prudente, retorne a sua casa,
enviemos Hermes, o mensageiro Argifonte,
[85] à ilha de Ogígia, para que depressa
comunique à ninfa de belas tranças a decisão infalível:
o retorno de Odisseu, de coração perseverante, para que ele parta.
Eu, por minha vez, irei a Ítaca, para estimular
ainda mais seu filho e infundir-lhe ardor no íntimo,
[90] para que convoque à assembleia os aqueus de longos cabelos
e proíba todos os pretendentes, que sem cessar
lhe abatem ovelhas em profusão e bois de chifres recurvos e passos lentos.
Depois o enviarei a Esparta e à arenosa Pilos,
para perguntar pelo retorno do pai amado, talvez ouça algo,
[95] e para que conquiste bom renome entre os homens.”
Assim dizendo, atou aos pés as belas sandálias,
ambrosiais e douradas, que a levavam sobre as águas
e sobre a terra sem limites, com os sopros do vento.
Tomou a forte lança, aguçada de bronze cortante,
[100] pesada, grande e robusta, com que abate fileiras de homens,
heróis contra quem se ira a filha de pai poderoso.
Lançou-se dos cumes do Olimpo
e parou na terra de Ítaca, diante da entrada de Odisseu,
sobre o limiar do pátio; na mão segurava a lança de bronze,
[105] com a aparência de um estrangeiro, Mentes, chefe dos táfios.
Ali encontrou os pretendentes arrogantes. Eles
entretinham o ânimo com o jogo de pedras diante das portas,
sentados nas peles dos bois que eles próprios haviam abatido;
e os arautos e servidores diligentes
[110] misturavam para eles, nas crateras, vinho e água;
outros, com esponjas de muitos poros, limpavam
as mesas e as colocavam diante deles, enquanto outros repartiam muita carne.
Telêmaco, semelhante a um deus, foi o primeiro a vê-la,
pois estava sentado entre os pretendentes, aflito no coração,
[115] imaginando em seu íntimo o nobre pai, que talvez viesse
e espalhasse aqueles pretendentes pelos salões,
recuperasse sua honra e reinasse em sua própria casa.
Pensando nisso, sentado entre os pretendentes, avistou Atena.
Foi direto à entrada, indignado no íntimo
[120] por deixar um estrangeiro tanto tempo parado à porta; aproximou-se,
tomou-lhe a mão direita e recebeu a lança de bronze,
e, falando, dirigiu-lhe palavras aladas:
“Salve, estrangeiro! Serás acolhido entre nós; depois,
quando tiveres comido, dirás do que precisas.”
[125] Assim dizendo, foi à frente, e Palas Atena o seguiu.
Quando entraram na elevada casa,
ele levou a lança e a encostou a uma alta coluna,
dentro do bem-polido suporte de lanças, onde muitas outras
lanças de Odisseu, de coração perseverante, estavam guardadas.
[130] Conduziu-a a um trono, fez com que se sentasse e estendeu sob ela
um belo e lavrado tecido; havia um escabelo para os pés.
Perto colocou para si uma cadeira ornamentada, afastada dos outros
pretendentes, para que o estrangeiro, incomodado pelo tumulto,
não perdesse o gosto da refeição em meio aos insolentes,
[135] e também para interrogá-lo sobre o pai ausente.
Uma serva trouxe água numa bela jarra de ouro
e a derramou sobre uma bacia de prata
para que lavassem as mãos; ao lado dispôs uma mesa polida.
A respeitável despenseira trouxe e serviu pão,
[140] e pôs muitos alimentos, oferecendo de bom grado o que havia.
O trinchador ergueu e colocou diante deles travessas
com carnes de toda espécie, e junto pôs taças de ouro;
um arauto passava frequentemente, servindo-lhes vinho.
Entraram então os pretendentes arrogantes. Em seguida,
[145] sentaram-se em ordem, nas cadeiras e nos tronos.
Os arautos lhes verteram água sobre as mãos,
as servas trouxeram pão em cestos,
e os rapazes encheram até a borda as crateras de bebida.
Eles estenderam as mãos aos alimentos servidos.
[150] Depois que afastaram o desejo de bebida e comida,
os pretendentes voltaram o pensamento a outras coisas:
canto e dança, pois são o encanto do banquete.
O arauto pôs nas mãos de Fêmio a belíssima cítara,
pois ele cantava entre os pretendentes por obrigação.
[155] Então, dedilhando-a, preludiou um belo canto.
Telêmaco falou a Atena de olhos glaucos,
inclinando a cabeça para perto, para que os outros não ouvissem:
“Caro estrangeiro, ficarás ofendido com o que vou dizer?
A estes só importam tais coisas, cítara e canto,
[160] sem custo, pois devoram impunemente a riqueza alheia,
a de um homem cujos ossos brancos talvez apodreçam sob a chuva,
jazendo em terra firme, ou sejam rolados pelas ondas do mar.
Se o vissem voltar a Ítaca,
todos desejariam ter pés mais ligeiros,
[165] em vez de serem mais ricos em ouro e vestes.
Mas ele pereceu de modo terrível, e para nós não há
consolo, ainda que algum dos homens sobre a terra
diga que ele voltará; perdeu-se o dia de seu retorno.
Vamos, porém, diz-me isto e conta-me com exatidão:
[170] quem és entre os homens e de onde vens? Onde ficam tua cidade e teus pais?
Em que espécie de nau chegaste? Como os marinheiros
te trouxeram a Ítaca? Quem afirmavam ser?
Pois não creio que tenhas chegado até aqui a pé.
E conta-me também isto com verdade, para que eu saiba bem:
[175] é a primeira vez que vens, ou és um hóspede
herdado de meu pai? Muitos outros homens vieram
a nossa casa, pois também ele convivia com muitos.”
A ele respondeu então a deusa Atena de olhos glaucos:
“Pois eu te contarei tudo com plena exatidão.
[180] Digo-me Mentes, filho do sagaz Anquíalo,
e reino sobre os táfios amantes do remo.
Cheguei agora com minha nau e meus companheiros,
navegando pelo mar cor de vinho rumo a homens de outra língua,
a Temesa em busca de bronze; levo ferro reluzente.
[185] Minha nau está ancorada longe da cidade, junto ao campo,
no porto de Reitro, sob o Néion coberto de bosques.
Afirmamos ser hóspedes hereditários um do outro,
desde o princípio, como saberás se fores perguntar
ao velho herói Laertes, que, dizem, já não vem
[190] à cidade, mas sofre longe, no campo,
com uma velha serva, que lhe serve comida e bebida
quando o cansaço lhe domina os membros,
ao arrastar-se pela encosta da vinha.
Vim agora, pois diziam que teu pai estava em sua terra;
[195] mas os deuses, ao que parece, lhe impedem o caminho.
O divino Odisseu ainda não morreu sobre a terra,
mas permanece vivo em algum lugar do vasto mar,
retido numa ilha cercada pelas águas, e homens cruéis
e selvagens o detêm contra a vontade.
[200] Agora te profetizarei como os imortais
põem isto em meu coração e como penso que se cumprirá,
embora não seja adivinho nem conheça com clareza o voo das aves.
Não ficará por muito tempo longe da querida terra paterna,
nem mesmo se grilhões de ferro o retiverem;
[205] imaginará como retornar, pois é engenhoso.
Mas vamos, diz-me isto e conta-me com exatidão:
és de fato filho do próprio Odisseu, já tão crescido?
Tua cabeça e teus belos olhos se parecem espantosamente
com os dele, pois muitas vezes convivemos,
[210] antes que ele embarcasse para Troia, para onde também outros,
os melhores dos argivos, partiram em naus côncavas;
desde então, nem eu vi Odisseu, nem ele me viu.”
Ao que o sensato Telêmaco respondeu:
“Então eu te direi, estrangeiro, com plena exatidão.
[215] Minha mãe afirma que sou filho dele; eu, porém,
não sei, pois homem algum reconheceu por si mesmo o próprio nascimento.
Antes eu fosse filho de algum homem afortunado,
a quem a velhice alcançasse em meio aos próprios bens.
Mas daquele que se tornou o mais desditoso dos homens mortais,
[220] desse dizem que nasci, já que me perguntas.”
A ele respondeu então a deusa Atena de olhos glaucos:
“Os deuses não deixaram tua linhagem sem nome no futuro,
pois Penélope gerou um filho como tu.
Mas vamos, diz-me isto e conta-me com exatidão:
[225] que banquete, que reunião é esta? Que necessidade tens disso?
É uma festa ou um casamento? Pois isto não é refeição comunitária.
Eles me parecem banquetear-se com insolência desmedida
por toda a casa. Indignaria qualquer homem sensato
ver tantas vergonhas, se viesse para o meio deles.”
[230] Ao que o sensato Telêmaco respondeu:
“Estrangeiro, já que me perguntas e procuras saber estas coisas,
esta casa deveria ter sido rica e irrepreensível
enquanto aquele homem ainda vivia entre seu povo.
Mas agora os deuses quiseram de outro modo, tramando males,
[235] e o fizeram desaparecer como nenhum outro
entre os homens. Eu não me afligiria assim, mesmo que tivesse morrido,
se houvesse tombado entre os companheiros na terra dos troianos,
ou nos braços dos seus, depois de concluir a guerra.
Então todos os aqueus lhe teriam erguido um túmulo,
[240] e ele teria conquistado grande glória para o filho no futuro.
Mas agora as Harpias o arrebataram sem glória;
partiu invisível, sem notícia, e me deixou dores e lamentos.
E não é apenas por ele que me lastimo e suspiro,
pois os deuses ainda me prepararam outros males e sofrimentos.
[245] Todos os nobres que dominam nas ilhas,
em Dulíquio, Same e na arborizada Zacinto,
e todos os que governam na áspera Ítaca,
todos cortejam minha mãe e arruínam a casa.
Ela nem recusa o odioso casamento nem consegue
[250] levá-lo a termo; e eles consomem, comendo,
minha casa. Em breve hão de destruir também a mim.”
Indignada, Palas Atena dirigiu-lhe a palavra:
“Ah, como necessitas do ausente Odisseu
para lançar as mãos sobre os pretendentes desavergonhados!
[255] Quem dera ele viesse agora e parasse às portas da frente da casa,
com elmo, escudo e duas lanças,
tal como era quando o vi pela primeira vez
em nossa casa, bebendo e alegrando-se,
ao regressar de Éfira, vindo de Ilo, filho de Mérmero.
[260] Pois Odisseu também fora até lá em sua nau veloz,
à procura de um veneno mortífero, para que pudesse
untar suas flechas de ponta de bronze; mas Ilo
não lho deu, pois temia os deuses eternos.
Meu pai, porém, lho deu, porque muito o estimava.
[265] Se Odisseu, tal como era, se encontrasse com os pretendentes,
todos teriam vida breve e bodas amargas.
Mas essas coisas repousam nos joelhos dos deuses:
se, ao regressar, ele se vingará ou não
em seus próprios salões. A ti aconselho que reflitas
[270] sobre como expulsar os pretendentes da casa.
Vamos, escuta agora e presta atenção às minhas palavras.
Amanhã, convoca à assembleia os heróis aqueus,
expõe tudo diante deles, e que os deuses sejam testemunhas.
Ordena aos pretendentes que se dispersem, cada qual para sua casa;
[275] quanto a tua mãe, se o coração a impele a casar-se,
que volte ao palácio de seu poderoso pai.
Eles prepararão o casamento e providenciarão os presentes nupciais,
muitos, como convém acompanhar uma filha querida.
A ti mesmo darei um prudente conselho, se me obedeceres:
[280] equipa a melhor nau com vinte remadores
e parte em busca de notícias do pai há tanto ausente,
se algum mortal te disser algo, ou se ouvires a voz
que vem de Zeus e mais que tudo leva renome aos homens.
Vai primeiro a Pilos e interroga o divino Nestor;
[285] de lá, segue para Esparta, até o louro Menelau,
pois ele foi o último a voltar dos aqueus de couraças de bronze.
Se ouvires que teu pai vive e está a caminho de volta,
ainda que consumido pela espera, poderás suportar mais um ano.
Mas, se ouvires que morreu e já não existe,
[290] regressa então à querida terra paterna,
ergue-lhe um túmulo e oferece-lhe dons fúnebres,
muitos, como convém, e entrega tua mãe a um marido.
Depois que tiveres concluído e realizado tudo isso,
pensa então, em tua mente e em teu coração,
[295] em como matar os pretendentes dentro dos teus salões,
pela astúcia ou abertamente. Já não deves
entregar-te a infantilidades, pois não tens mais essa idade.
Ou não ouviste que glória alcançou o divino Orestes
entre todos os homens, depois de matar o assassino do pai,
[300] o ardiloso Egisto, que lhe matara o pai ilustre?
Também tu, meu caro, pois te vejo belo e alto,
sê valente, para que as gerações futuras falem bem de ti.
Quanto a mim, descerei agora até a nau veloz
e aos companheiros, que decerto se impacientam muito à minha espera.
[305] Cuida tu dessas coisas e presta atenção às minhas palavras.”
Ao que o sensato Telêmaco respondeu:
“Estrangeiro, falas assim pensando em meu bem,
como um pai a seu filho, e jamais me esquecerei disso.
Mas vamos, fica agora, embora estejas ansioso pela viagem,
[310] para que, depois de te banhares e alegrares o coração,
partas para a nau levando um presente, contente no íntimo,
precioso e muito belo, que será para ti uma lembrança
minha, como dão os hóspedes queridos uns aos outros.”
A ele respondeu então a deusa Atena de olhos glaucos:
[315] “Não me retenhas agora, pois anseio seguir caminho.
O presente que teu coração te ordenar dar-me,
entrega quando eu voltar, para que o leve para casa;
escolhe um bem belo, e receberás outro de valor equivalente.”
Assim dizendo, Atena de olhos glaucos partiu,
[320] e voou para o alto como uma ave. No íntimo dele
infundiu ardor e coragem, e lhe trouxe à lembrança o pai
ainda mais que antes. Ele compreendeu em seu espírito
e se maravilhou no coração, pois julgou que fosse uma deusa.
Logo o homem semelhante a um deus se dirigiu aos pretendentes.
[325] O aedo muito afamado cantava para eles, que, em silêncio,
estavam sentados ouvindo. Ele cantava o funesto retorno dos aqueus,
que Palas Atena lhes impusera ao saírem de Troia.
Do aposento superior ouviu com atenção o canto inspirado
a filha de Icário, a prudente Penélope.
[330] Ela desceu a alta escada de sua casa,
não sozinha, pois duas servas a acompanhavam.
Quando a divina entre as mulheres chegou aos pretendentes,
parou junto ao pilar do teto solidamente construído,
sustentando diante das faces o véu brilhante;
[335] uma fiel serva ficou de cada lado.
Então, chorando, dirigiu-se ao divino aedo:
“Fêmio, conheces muitos outros cantos que encantam os mortais,
feitos de homens e deuses celebrados pelos aedos.
Canta-lhes um desses, sentado aí, enquanto eles, em silêncio,
[340] bebem vinho; mas interrompe este canto
doloroso, que sempre me atormenta o coração no peito,
pois sobre mim caiu, mais que sobre todos, uma dor inesquecível.
É por tal cabeça que anseio, lembrando-me sempre
do homem cuja glória se espalha pela Hélade e pelo centro de Argos.”
[345] Ao que o sensato Telêmaco respondeu:
“Minha mãe, por que impedires o fiel aedo
de nos deleitar como o espírito o impele? Não são os aedos
os culpados, mas Zeus, que distribui
aos homens que comem pão, a cada qual, como deseja.
[350] Não se deve censurá-lo por cantar o destino funesto dos dânaos;
pois os homens celebram sobretudo o canto
que soa mais novo aos que o escutam.
Que teu coração e teu ânimo suportem ouvi-lo.
Odisseu não foi o único a perder o dia do retorno
[355] em Troia; muitos outros homens também pereceram.
Mas volta para casa e cuida dos teus próprios trabalhos,
do tear e da roca, e ordena às servas
que se ocupem de suas tarefas. A palavra caberá aos homens,
a todos, e sobretudo a mim, pois minha é a autoridade nesta casa.”
[360] Espantada, ela voltou para seus aposentos,
pois guardou no coração as palavras sensatas do filho.
Subindo ao quarto superior com as mulheres que a serviam,
chorou então por Odisseu, o marido querido, até que
Atena de olhos glaucos lhe verteu doce sono sobre as pálpebras.
[365] Os pretendentes fizeram alvoroço pelos salões sombrios,
e todos desejaram deitar-se junto a ela.
O sensato Telêmaco começou então a falar-lhes:
“Pretendentes de minha mãe, homens de insolência desmedida,
por ora, banqueteemo-nos e alegremo-nos, sem tumulto,
[370] pois é belo ouvir um aedo
como este, cuja voz se assemelha à dos deuses.
Ao amanhecer, iremos todos à assembleia
e ali vos direi claramente o que tenho a dizer:
saí de meus salões e cuidai de outros banquetes,
[375] consumindo vossos próprios bens e alternando-vos pelas casas.
Mas, se vos parece melhor e mais vantajoso
arruinar impunemente a riqueza de um único homem,
devorai-a. Eu invocarei os deuses eternos,
para que Zeus um dia conceda que tais atos sejam retribuídos;
[380] e então perecereis dentro desta casa, sem que ninguém vos vingue.”
Assim falou. Todos eles, mordendo os lábios,
admiraram Telêmaco, que discursara com tanta coragem.
Antínoo, filho de Eupites, respondeu-lhe:
“Telêmaco, decerto os próprios deuses te ensinam
[385] a falar com altivez e a discursar com audácia.
Que o filho de Cronos jamais te faça rei em Ítaca cercada pelo mar,
embora isso te venha por herança paterna.”
Ao que o sensato Telêmaco respondeu:
“Antínoo, ficarás ofendido com o que vou dizer?
[390] Eu desejaria receber também isso, se Zeus mo concedesse.
Julgas que ser rei é o pior destino entre os homens?
Não é coisa má reinar: logo sua casa
se torna rica, e ele próprio, mais honrado.
Mas há muitos outros reis entre os aqueus
[395] na cercada de mar Ítaca, jovens e velhos;
algum deles poderá possuir o reino, já que morreu o divino Odisseu.
Eu, porém, serei senhor de nossa casa
e dos servos que o divino Odisseu conquistou para mim.”
Então Eurímaco, filho de Pólibo, respondeu-lhe:
[400] “Telêmaco, repousa nos joelhos dos deuses
quem há de reinar sobre os aqueus em Ítaca cercada pelo mar.
Que conserves teus bens e governes teus próprios salões.
Que jamais venha homem algum que, contra tua vontade e pela força,
te roube os bens, enquanto Ítaca continuar habitada.
[405] Mas desejo perguntar-te, excelente jovem, sobre o estrangeiro:
de onde vem esse homem? De que terra
afirma ser? Onde estão sua linhagem e o campo de seus pais?
Traz alguma notícia de teu pai a caminho de volta,
ou veio até aqui por alguma necessidade própria?
[410] Como se ergueu de súbito e partiu, sem esperar
que o conhecêssemos! Pelo rosto, não parecia homem vil.”
Ao que o sensato Telêmaco respondeu:
“Eurímaco, perdeu-se o retorno de meu pai.
Já não confio em notícia alguma, venha de onde vier,
[415] nem dou atenção às profecias que minha mãe
ouve de algum adivinho chamado ao palácio.
Este estrangeiro é hóspede hereditário de meu pai e vem de Tafos.
Afirma ser Mentes, filho do sagaz Anquíalo,
e reina sobre os táfios amantes do remo.”
[420] Assim falou Telêmaco, embora no íntimo reconhecesse a deusa imortal.
Eles, voltando-se para a dança e o canto encantador,
divertiram-se enquanto esperavam que chegasse a noite.
E, enquanto se alegravam, a noite negra caiu sobre eles;
então cada qual partiu para sua casa, a fim de dormir.
[425] Telêmaco foi ao aposento que, no belíssimo pátio,
fora construído no alto, em lugar de ampla vista.
Ali se deitou, revolvendo muitos pensamentos no íntimo.
Com ele seguia, levando tochas acesas, a fiel e experiente
Euricleia, filha de Ops, filho de Pisenor.
[430] Laertes a comprara outrora com os próprios bens,
quando ainda estava no começo da juventude, e dera por ela vinte bois.
No palácio, honrava-a como à esposa legítima,
mas jamais se uniu a ela no leito, pois evitava a ira da mulher.
Ela acompanhava Telêmaco com as tochas acesas, e era quem mais
[435] o amava entre as servas, pois o criara desde pequeno.
Abriu as portas do aposento solidamente construído.
Ele se sentou no leito e despiu a túnica macia,
colocando-a nas mãos da velha de prudentes conselhos.
Ela dobrou e alisou cuidadosamente a túnica,
[440] e a pendurou num gancho junto ao leito de cordas trançadas.
Depois saiu do aposento e puxou a porta pela argola
de prata, correndo o ferrolho com a correia.
Ali, durante toda a noite, coberto por um velo de ovelha,
ele meditou no íntimo sobre a viagem que Atena lhe indicara.
A viagem de Odisseu de volta a Ítaca, em tradução brasileira integral a partir do grego antigo, organizada nos vinte e quatro cantos do poema homérico. Edição Literunico vinculada ao texto original.
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