O remorso da inocente Inspirações do Claustro · Capítulo 4 de 38
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O remorso da inocente

À minha irmã Maria Augusta Alma de serafim, prenda do Eterno, Ai! quem te despenhou do céu à terra? I Pelo sinete do crime Não é que está desbotada. Não chora. Suspira apenas, Por seus ais entrecortada. Tristezinha corre os claustros, Tristezinha a suspirar, Vai junto à lousa das freiras Ajoelhar-se a rezar. Reza orações de finados, Reza a seu anjo da guarda: E da flor dos lábios dele Perdão aos erros aguarda. Não sabe o nome dos crimes, Ás paixões não dobra o dorso; Mas naquele peito ingênuo Mora inquieto um remorso! Como relíquias sagradas. Conserva os primores seus; Mas doe-lhe não ser ainda Toda, toda — só de Deus. II Ei-lo, o remorso da virgem, O remorso da inocência, Que, como a idéia do Eterno, Ameiga na consciência. Rezou, rezou fervorosa, Beijando seu relicário; Arfou, — qual luz matutina Tremendo no alampadário. E um sorriso descorado Descerrou-lhe lábio e lábio, Como o palor que desenha A fronte vasta do sábio. Beijou a laje da campa, — Da campa, que há de ser dela, E vai cismar merencória Na gelosia da cela. — Por simpleza arreceando Que algum fantasma não venha, A correr, aos ares dava Suas vestes de estamenha. Que as trevas do claustro e as tumbas Bafejam tremor sagrado; E as virgens sempre imaginam Erguer-se um morto a seu lado. III Cisma a virgem mansamente Em pensa mentos do céu, Mais cândida que as rolinhas, Mais cândida que seu véu. E cismava: — Ai! que eu não seja Já para Deus menos bela, Como a bonina que murcha Que eu arranco da capela! — E cismava: — Ai! que eu não tenha Um crime, sem eu saber! Qual será? — Ontem de noite Eu não pude adormecer! — E cismava: — Ai! que eu não seja Menos linda ao meu Senhor! Já hoje eu corri do claustro: Dos mortos tive temor...— E cismava: — Ai! que eu não seja Ré de um crime que eu não sei, Bem como o inseto escondido Na rosa que ontem cortei! — Ei-la, a cisma da donzela, Da filha da solidão; Ei-lo, o remorso que esconde Nas dobras do coração. IV O remorso do malvado É desespero e loucura, E a reminiscência dele O coração lhe tortura. Mas o remorso da virgem Lhe cala na consciência, Como a placidez do justo, Como a visão da inocência.

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