Canto fúnebre Inspirações do Claustro · Capítulo 33 de 38
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Canto fúnebre

Recitado na ocasião de sepultar-se o cadáver do meu amigo Luiz da França Rebouças a 16 de Abril de 1853 A alma foi feita para viajar no céu. YOUNG. Oh! porque não? — porque não posso agora Chorar-lhe a morte? — Que poder tão forte Há aí que pare a um coração de amigo No derramar as emoções que o partem? Que mão há aí tão férrea que comprima Tam dentro em mim meus sentimentos de homem? Quem manda à idéia que não pense angustias, Quem manda ao peito que não sofra mágoas, Quem manda à voz que não se expanda em queixas, Quem manda ao pranto que não corra em fios? Oh! porque não? — porque este gosto extremo Em lhe chorar a morte hão de tolher-me? Oh! porque não! — Hei de chorar-lhe a morte, Bem como outrora lhe cantava a vida. Reminiscência atroz! que vário quadro Vens a meus olhos destampar agora! Como os anéis de uma cadeia extensa, Presos, cozidos, encarnados, firmes, Os meus dias estão co'os dias dele. Um só minuto dessa vida instável Que vivo ainda, não correu na terra Sem um minuto dessa vida inócua Que ele viveu, — e que findou tão cedo! Entre ele e mim era partida a vida: Meia vida perdi co'a morte dele. Se adulto apenas, eu olhei ao mundo, E achei-o infame, e escarneci-lhe as pompas, E co'alma feita a um cepticismo inato Descri do amor que os homens divinizam, — Não descri da amizade! — Ele provou-ma Ele foi meu amigo! — oh nome augusto, Que sabe os homens remontar aos anjos! Quem sabe ser amigo em si resume As virtudes do céu e os bens divinos. Ele foi meu amigo — único e último — Que tinha uma alma conformada à minha. Era-lhe brasa o coração fervente: Assimilava a si minhas angustias, E, como o fogo, as consumia lento, E as minhas sensações purificava. Ele sabia compreender profundo O coração fosfórico do vate. Ele era vate!—Em floridos poemas, Em suaves canções, em ternas liras Correu seu estro merencório ou lindo. Corria agora sossegado e triste, Como um regato em áridos desertos: Corria agora mais travesso e alegre, Como um barquinho velejando esbelto. Nos áureos fastos da poesia pátria Há de seu nome se inscrever eterno. Desse-lhe Deus mais dias de existência, — Fora seu nome o sol para os mais astros! Reminiscência atroz! que vário quadro Tu vieste pintar ante meus olhos? Que vale uma lembrança, uma saudade? Ele morreu!... a sua glória é morta! Oh! que eu não possa lhe chorar a morte, Bem como outrora lhe cantava a vida! Ah! não devo chorar. Além dos mundos Eu vejo o céu, vejo o infinito, o imenso: É o trono sem fim do Deus Eterno: E a Deus lá em cima vão juntar-se os justos. É lá que a vida parará perpétua, É lá que os tempos, sem correr, imóveis, Não sucedem-se mais, — são sempre eternos. Lá — ele, o justo, o virtuoso, o amigo A vida que de Deus tomou, nascendo, Foi a Deus entregá-la, e unir-se a ele. Não chorarei: — que essa terrena vida É um crisol que as sensações apura, Para chegar a Deus mais casto o espírito. Não chorarei: — que a ocasião da morte É o degrau mais alto para o Eterno. Antes devo pedir ao céu que apresse Meu momento também. Quero ir bem cedo A Deus e a ele unificar-me eterno.

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