Deixas-me Inspirações do Claustro · Capítulo 27 de 38
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Deixas-me

AO MEU AMIGO E COLEGA FRANKLIM AMÉRICO DE MENEZES DÓRIA Montserrate 29 de novembro de 1852. Estas alpestres rochas, que se apartam, Deixam vazia a insaciável vista: A dura ausência do prazer de vê-las A mente me contrista; Este sussurro das travessas vagas Causa saudades vividas e ternas: Por toda a vida — e além da morte — deixam Memórias quase eternas. Estes sofás de acolchoada relva Deixam no peito sensações de menos: Deixam a falta do prazer mais puro, Dos gostos mais amenos. Estas serenas brisas salitradas Frisando a face das cerúleas águas, Adormecem um pouco a dor no peito, Esquecem negras mágoas. Mas nada disso em meu ardente peito Tantos vulcões ateia de saudade, Como esta ausência necessária e dura Da dócil amizade. E tu, bardo feliz do sentimento, Gentil cantor das afecções suaves, — Doce, bem como o gorjear sonoro Das inocentes aves: Tu, que sabes cantar tão santos hinos, Como dos anjos as canções supernas, Deixas-me n'alma férvidas saudades, Saudades sempiternas. Deixas-me em mar de ansiedade infinda, Tímido nauta — duvidoso, incerto: Deixas-me n’alma o vácuo da existência, Deixas-me um vão deserto.

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