A freira Inspirações do Claustro · Capítulo 18 de 38
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A freira

Crescei e multiplicai-vos. PALAVRA DE DEUS. Eu jovem freira, bem triste choro Aqui cozida co'a cruz de Deus. Aqui sozinha, ninguém não sabe Dos meus desejos, dos males meus. Qual no deserto se praz a rola, Cuidam que a freira seja feliz. E a pobre freira, dentro da cela, Ninguém não sabe que se maldiz. Enquanto a vida não se desdobra, E apenas rompe, róseo botão, A freira insonte prateia de astros, Povoa de anjos sua soidão. Uma palavra que ela profere É sempre um ente que ela criou. Uma florzinha que colhe acaso É uma amiga que ela encontrou. Conversa à noite co'a estrela vésper, Ama o opaco de seu clarão. E sente chamas que julga dores, E o peito aperta co'a nívea mão. Ela não sabe que a estrela vésper Influi nas almas lascivo ardor: Que, não sem causa, no tempo antigo, A estrela vésper chamou-se — Amor. A estrela vésper produz nas virgens Estranho incêndio, vulcão fatal: Quer seja freira — do Cristo filha, Quer seja antiga pagã vestal. A estrela vésper... Fugi, meninas, Fugi dos raios do seu candor. A estrella vésper influe volúpia, A estrela vésper chama-se — Amor. E a casta freira, co'a mão na face, Por longas horas demora ali. E os tredos raios da estrela vésper Ela inocente recebe em si. E quando o sino tocou matinas, Ela tremeu de seu fragor. E a pobre moça — da vez primeira — Das rezas quase sentia horror. E os olhos dela ficaram meigos, Como quem sofre doce pesar. Não mais pulavam, delfins nas ondas, E mal podiam brando oscilar. E os lábios dela — cravina há pouco — Não mais vestiam carmínea cor. E só nas faces lhe assomam rosas, Mas não são rosas de almo pudor. Então a freira em vão se abraça, Em vão se coze co'a cruz de Deus. Então a freira procura em tudo A causa, o alívio dos males seus. Mas ela o sabe. Não é o Cristo De que ela espera algum sinal. O Cristo deu-nos remido o mundo: E o bem que há nele supera o mal. O mundo, o mundo... eu freira aflita Eu vejo o mundo... como é gentil! Ah! eu preciso dessa palavra Que arrasta os homens aos mil e aos mil! Palavra imensa, divina e santa, Que inspira aos homens tanto labor! Palavra fértil, fecunda e grande, Mistério, influxo, talvez, de amor! Porém as velhas, que me aconselham, E que se dizem cheias de Deus, Clamam — não cessam — clamam que o mundo É todo feito de vãos ateus. Mas ah! quem sente chamas no peito Por uma bela palavra só: Quem à porfia corre por ela, Rompendo globos de grosso pó: Quem verte prantos na mão do pobre, Que a Deus e à sorte reproches dá: Quem trava o braço de outrem, que passa, Temendo o abismo, que vê mais lá: Quem toma ao seio mulher, que firme No seio dele deixa o pudor: Quem entre beijos lhe ensina aos lábios Caudais palavras de áureo licor: Ah! não, não pode — como elas dizem — Ser insensível, ser vão ateu. O ateu não sente, não verte prantos. O amor não entra no peito seu. O mundo, o mundo... eu freira aflita, Eu vejo o mundo... como é gentil! Não, não lhe enxergo aberto o abismo. Tu mentes, mentes, alma senil! Sim: velhas santas, velhas ufanas, Que vos dizeis cheias de Deus, Não! — este mundo que Deus remiu Não é composto de vãos ateus. O mundo, o mundo... eu freira aflita, Eu vejo o mundo... como é gentil! Mas eu fechada na estéril cela Existo preza num ócio vil! Aos mornos raios da estrela vésper Minha inocência toda perdi. Inteiras noites de acerba cisma Eu, néscia amante, passei ali. A estrela vésper tem certos raios Que traiçoeiros voltam p'ra lá. Fugi, meninas, da estrela vésper, Temei dos gostos que ela vos dá. Há certos raios da estrela vésper Que são vampiros de argêntea cor: De nossos lábios — com vítreos beijos — Extraem, sugam todo o rubor. Aos mornos raios da estrela vésper Minha inocência toda perdi. Mas a inocência, que sai da infância, Ai! não se perde somente alli! A estrella vésper, amphora solta, Bóia de prata em mar de anil, Clama incansável — Amai, donzelas, — E as fibras lavra flama subtil. Então lá dentro da aflita virgem Salta um desejo, ferve um pesar. Tenta um alívio, acha uma angustia, Linfa em brasido, vulcão no mar. Mas a inocência que a moça imola No altar sagrado de um peito igual, Malta o desejo, forma o remanso, Oferta um gozo sempre real. Quando a virgínea cor se esvaece, Murcho o carmíneo, róseo botão, A estrela vésper que fez o estrago, A estrela vésper não basta não. O mundo, o mundo... eu freira aflita, Eu vejo o mundo... como é gentil! Não, não lhe enxergo aberto o abismo, Não lhe deparo vulcões aos mil. O mundo, o mundo... só nele eu posso Achar a parte a quem faltei. Eu devo, eu devo pagar ao homem Esse pedaço que lhe arranquei. Seu coração — nobre fragmento — Sente um vazio, que há de doer. Mesmo sua alma geme incompleta. Quase roubei-lhe todo o seu ser. O paraninfo — anjo o mais belo, — Anjo das núpcias, feito por Deus, Por Deus guiado, conduz as virgens Para os pedaços que são mais seus. Leva-me oh anjo, — que é tempo: — eu quero Achar a parte â quem faltei. Eu devo, eu elevo pagar ao homem Esse pedaço que lhe arranquei. Ao mundo, ao mundo... Leva-me, oh anjo. Abre estas azas: vou sobre ti. Interno impulso me diz, meu anjo, Que não vás longe, — que basta ali. Minha sanguínea cor se esvaece, Perdi as rosas de almo pudor. A estrela vésper — com vítreos beijos — Sugou-me aos lábios todo o rubor. Leva-me, oh anjo. Tenho no peito Que me trasborda — vasta porção. A estrela vésper que fez-me o estrago, Nem cruz, nem claustros, não bastam não.

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