À profissão Inspirações do Claustro · Capítulo 28 de 38
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À profissão

De Frei João das Mercês Ramos — Entretanto o céu se levanta sereno e pomposo como para um dia de festa. CARLOS LACRETELLE Eu também antevi dourados dias Nesse dia fatal: Eu também, como tu, sonhei contente Uma ventura igual. Eu também ideei a linda imagem Da placidez da vida: Eu também desejei o claustro estéril, Gomo feliz guarida. Eu também me prostrei ao pé das aras Com júbilo indizível: Eu também declarei com forte acento O juramento horrível. Eu também afirmei que era bem fácil Esse voto imortal: Eu também prometi cumprir as juras Desse dia fatal. Mas eu não tive os dias de ventura Dos sonhos que sonhei: Mas eu não tive o plácido sossego Que tanto procurei. Tive mais tarde a reação rebelde Do sentimento interno. Tive o tormento dos cruéis remorsos Que me parece eterno. Tive as paixões que a solidão formava Crescendo-me no peito. Tive, em lugar das rosas que esperava, Espinhos no meu leito. Tive a calúnia tétrica vestida Por mãos a Deus sagradas. Tive a calúnia — que mais livre abrange Oh Deus! vossas moradas! ludimo-nos todos! — Concebemos Um paraíso eterno: E quando nele sôfregos tocamos, Achamos um inferno! Virgem formosa entre visão fantástica Que tão real parece! Mas quando a mão chega a tocá-la quase, Lá vai, lá se esvaece! Sonho da infância que nos traz aos lábios Um riso mais que doce: Mas uma voz, um som...— some-se o sonho, Como se nunca fosse. Tu filho da esperança! — tu juraste O que também juramos. Tu acreditas, inocente! — ainda O quanto acreditamos! Oh! que não sofra as dores que nos ferem Teu jovem coração! Que o futuro que esperas não se torne Terrível ilusão! Que sobre nós — os filhos da desgraça — Levantes um troféu: E que não aches, — como nós achamos — Inferno em vez de céu! 24 de outubro de 1852.

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