Mais um túmulo Inspirações do Claustro · Capítulo 38 de 38
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Mais um túmulo

Pelo falecimento do venerando ancião — Frei José de S. Bento Damásio, a 10 de setembro de 1854. I Mais um tumulo aberto! Amada lira, Tempera as cordas de tristeza e luto. Ah! não te esqueça teu dever funéreo! Nossa missão é esta. Internemos na pedra um ai, um carme, E alabastros de preces. Cantemos sempre os males que se findam No liminar da morte. Merece cantos uma dor que expira. Quem hoje desce à profundez do nada Foi infeliz, — foi monge. II Mas ah! que imagem me arrebata estranha A tétricos abismos! Quem és? — arcanjo ou fada? — As longas vestes Vítreas, tão de cristal, os ares quebram E refrangentes choques! Que cor, que face transparente, anílea, Qual índigo de louça! Que cor, que face, que platíneos olhos, Quais pálidas estrelas! Onde me arroubas, ai! que caos, que abismos Que gelos glaciais, que moveis plagas, Que campos flutuantes! Quantas campas aqui quebram-se e correm! Quantos crânios, —que horror! — de sânie sujos, Surgem medonhos delas! Eis! de um lado levantam-se, frangendo, De negras togas adornados todos, Altivos esqueletos! Ah! estoutros, porém, forcejam, lutam, Tremendos uivam, por querer debalde Transpor-se do sepulcro, Algum grilhão, talvez, lhes prende as plantas Lá na raiz da rocha, Anjo, demônio, deusa, encanto, ou fada, Ah! dize-me o que vejo! Que crânio imundo em desespero apontas, Demônio, deusa, arcanjo! Não reconheço-o não. A pátria minha Não é aqui. A região dos mortos, Zona do céu, do inferno, elísio, averno, Gurgite infindo, tenebroso ou claro, Pegos de luz ou turbilhões de trevas, Não me pertencem inda. Outra nação, aqui, de essência estranha, Este lugar ocupa. Deixa-me, pois, voltar demônio ou anjo. Transporta-me outra vez ao ser que tinha. Não tenho ainda o meu dever completo. Minha missão me chama. Concede-me um instante, um verso, um canto, Uma improvisa nênia. Quem hoje desce à profundez do nada Foi infeliz, — foi monge... III «Não cantarás,» aterradora brada A meu ouvido a fúria. «Não cantarás» me repetiu, inchado, E rebentou, tinindo. Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística

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