Frei Bastos Inspirações do Claustro · Capítulo 20 de 38
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Frei Bastos

Anjo de luz, porque te despenhaste no inferno? — A historia escrevia o teu nome na página das bênçãos: tu mesmo o riscaste, e o foste escrever na página das maldições. ALEXANDRE HERCULANO. Parque te afogas, Bossuet brasíleo, No imundo pego da lascívia impura? Porque teus louros triunfais nodoas Co'as roxas fezes do azedado vinho? Porque contínuo tua glória assopras Nos leves bafos do charuto ardendo? Porque te afogas, Bossuet brasíleo, No imundo pego da lascívia impura? Desces do altar à crápula homicida, Sobes da crápula aos fulmíneos púlpitos, Ali teu brado lisonjeia os vícios, Aqui atroa, apavorando os crimes. E os lábios rubros dos femíneos beijos Disparam raios que as paixões aterram. Porque te afogas, Bossuet brasíleo, No imundo pego da lascívia impura? No alcouce infame que assassina o gênio As horas passas que a ciência chora. No fofo leito que os instantes mancham Os céus insultas co'o burel que estendes. Nos torpes versos que o prazer te inspira O inferno evocas, — e os demônios brincam. Porque te afogas, Bossuet brasíleo, No imundo pego da lascívia impura? Para as canções que celebraram Milton Deu-te o Senhor poética ardentia. Para esses dons que Bossuet vestiram Deu-te o Senhor o fúlmen da eloqüência. Duas coroas te entrançava a glória: Duas coroas desmanchou teu gênio. Porque te afogas, Bossuet brasíleo, No imundo pego da lascívia impura? Lá sobre os astros Bossuet te amava, Ao escutar-te os êxtases primeiros. Tirava o resplendor da argêntea fronte, Donde a Turene a convicção partira. Ia c'roar a testa igual à dele, Que o novo mundo produzia quase. Porque te afogas, Bossuet brasíleo, No imundo pego da lascívia impura? O cego de Albion também te olhava Co'os novos olhos que no céu lhe deram. Ele esperava — e os serafins com ele — Um Paraíso incógnito, mais belo. Depois, te achando sepultado em lama, A Lamartine reservou seus louros. Porque te afogas, Bossuet brasíleo, No imundo pego da lascívia impura? Ah! Bossuet sobre as estrelas pára. Quanto é difícil a subida aos montes! Voltaire abriu um boqueirão na terra. Oh! como é fácil o pendor do abismo! Mas tu subiste a Bossuet a um tempo, E ao mesmo tempo ‘té Voltaire descias. Porque te afogas, Bossuet brasíleo, No imundo pego da lascívia impura? Salve, poeta, que teus vícios cantas, Que a noite e a plebe e a crápula desejam! Salve, orador, que os púlpitos respeitam, Que anátema irônicos desferes! Mescla atrevida de sublime e baixo, Bossuet com Voltaire, três vezes salve! Salve por mim, — oh malfadado gênio, Onde as cidades nem os claustros cabem! Tu, poeta, orador, — porque te afogas No imundo pego da lascívia impura?

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