O converso
CANÇÃO DO LIBERTINO Templo, abismo de Deus, abre-me o seio. Quero arrojar-me a dédalos de trevas, A dedados de luz. Precisam homens Desses mistérios que a razão fascinam. Ainda que depois se cerre em noite, A face de um crepúsculo me agrada. Templo, abismo de Deus, abre-me o seio. Salve, Religião, sublime idéia, Que tanto encantas feiticeira as almas! Sobre teu inventor mil bênçãos caiam! Profeta do Senhor! seja o teu nome Ainda além dos séculos bendito! Deste numa ilusão um gozo aos homens. Templo, abismo de Deus, abre-me o seio. Em meu orgulho esmigalhei-te insano, Pisei-te aos pés, encantadora crença! Julguei achar na liberdade um muro. Achei poeira, mais que a tua, etérea. Tu, minha crença, tu somente és firme. Espancas um remorso aos pés de um padre. Templo, abismo de Deus, abre-me o seio. Mil santos teus, co'os corações de fora, Aos repulsos de Deus consolam mesmo. Sempre seguro estou co'a crença minha. Tenho, em falta de Deus, quem chame ainda. Com áureos serafins, gentis arcanjos, Tu, minha crença, os erros me rodeias. Templo, abismo de Deus, abre-me o seio. Levado em turbilhões de excelsos crimes, ‘Té gora estive em báratros de inferno. Não me lembra o que vi: mas sei que errava Por lagoas de asfalto, ares de enxofre. Tu, de lá me arrancaste, oh crença minha. Mais belos são teus insondáveis erros! Templo, abismo de Deus, abre-me o seio. Sou cristão outra vez: sou teu: venceste. Quero arrojar-me a dedados de trevas, A dedados de luz. Precisam homens Desses mistérios que a razão fascinam. Ainda que depois se cerre em noite, A face de um crepúsculo me agrada. Templo, abismo de Deus, abre-me o seio.