O incenso do altar Inspirações do Claustro · Capítulo 10 de 38
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O incenso do altar

I Os sons do fácil órgão: A voz dos corifeus As orações dos crentes: O susto dos ateus: Tudo apregoa e prova: — Aqui domina Deus!— Silencioso esteve, Há pouco, — o santuário: Qual a mudez, que guarda Jazigo mortuário: Qual o terror do nauta Em mar tumultuário. As almas dos finados Erguiam-se do pó: Chocando-se torvadas, Cruzando as naves só: Contando às colunatas As ânsias de seu dó. Fugiram já, — fugiram Dos sacros penetrais: Qual foge de repente, Da mente dos mortais, Do mal a triste idéia Com a dos bens reais. Purificou-se o éter: Espectros mais não há. Sobre eles cai a campa, E um oco baque dá. Sumiram-se no abismo: Deus não nos ouve já. II Agora entoa o coro Hinos de compunção. Levanta a voz dos crentes Altívola oração. Ateu! — medita: é tempo De ainda haver perdão. Não te comovem alma Os cantos dos cristãos? As notas, que produzem Do organista as mãos? As notas, que percorrem Do templo pelos vãos? Nem das nuvens de incenso O quente recender? Que vão nas mãos das auras, No teto esvaecer? — Ímpio! tu não tens alma, Ou não na queres ter? Vê como sobe o incenso, Quais globos de um bulcão. Vê como cresce a reza, Quais lavas de um vulcão. Vê como encanta a orquestra, Qual voz de um furacão. Vê tanto entusiasmo Na face desses crentes. Vê tanta confiança Em almas tão tementes. Vê tanta fé em Deus, — No Deus que não consentes! Se não te mente, oh ímpio, Esse sistema teu: Se não é como o riso De ambíguo fariseu: Como o falar do hipócrita, Que também é ateu: Que inferno de torturas A mente não te côa! Ao doce som do órgão, Que pelos vãos reboa! Aos cânticos sagrados, Que o povo e o coro entoa! Ás preces do ministro, Que ao Cristo, por ti, ora! Á face desse templo, Que os lábios te descora! Que ao Deus, — que negas, ímpio, — E louva e reza e adora! Compunge-te — e conhece De Deus a justa mão. Vem comungar do cálix Dos gozos do cristão; Que sentirás arroubos, Que terás alma então! Vê como sobe o incenso, Quais globos de um bulcão! E pelo teto rompe, Quais lavas de um vulcão! E aos céus leva a fragrância, — Veloz, qual um pegão! Vê como sobe o incenso, Que aromatiza o altar: Suave, — qual a brisa Entre o fervor do mar: Suave, —qual dos anjos O doce respirar. III Ai! — praza a Deus que breve, Tão breve como a flor, Ardendo o incenso, — ardendo, Qual virginal rubor, Transponha aos céus a alma Do triste trovador!

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