A Velhice Suspiros Poéticos e Saudades · Capítulo 12 de 57
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A Velhice

X.

A VELHICE.

Longa foi a viagem;Assás luctastes; descançai agora.

Depois de haver vingado alpestre monteDesde o albor da manhã, o peregrino Afadigado desce,E envolto em trevas vai pousar no valle.

Por vós assás auroras madrugaram;Por vós luas assás alvas luziram;Assás de flores esmaltou-se a terra,E de fructos as arvores copadas. Sim, sim, assás gozastes;Mas uma voz vos chama, e vos diz: — basta.

Basta! — A hora soou; abre-se a campa, E o sopro do seu antro,Como o vapor da canica cavernaNas margens do sombrio Aniâno lago,Da vida vos apaga a tenue flamma.

Para vós basta, oh Velhice! Inda o sol tem resplendores, Inda a noite tem estrellas, Inda a lua alvos fulgores.

Inda os prados reverdecem, E de florzinhas se arreiam; Inda, suspensos nos ramos, Os passarinhos gorgeiam.

Inda o zephiro sereno, Cheio de aroma e doçura, Fruindo o nectar das flores, Na madrugada murmura.

Inda a cascata ruidosa Entre seixos se despenha; Inda o som da sua quéda Resôa ao longe na brenha.

Inda os regatos deslizam, As feras nos bosques rugem, E lambendo a branca areia, Nas praias as ondas mugem.

Tudo vida inda respira; A terra não stá mudada; Vós só marchais, oh Velhice. Triste, debil e curvada.

Vossos olhos se fecharam Ao quadro da Natureza; Em torno de vós só gyram A morte, o horror, e a tristeza.

Tudo em seu morno silencio Agora vos annuncia Que a noite só vos pertence, Que para vós vai-se o dia.

A noite eterna vos estende os braços,Ah! preparai-vos para o somno eterno.

Basta! — É hora das preces.Funéreo som no templo os bronzes vibram,E o echo seu parece dizer — morte!

Sob o peso da fronte encanecida,Já se curva e vacilla o vosso porte,Qual co’ os flocos de neve a fragil hastea;Entoastes o cantico da vida,Entoai vosso cantico de morte Como o candido cysne,Que indo descer á escuridão do lago,Cantando diz-lhe adeos na fatal hora,Para nunca mais ver raiar a aurora.

Basta! — É hora das preces, oh Velhice! Para o mundo acabastes.Vossa alma resgatai do barro impuro;O céo, que alma vos dêo, péde vossa alma,E a terra vosso corpo está pedindo;Ah! dai á terra o que vos dêo a terra!

Mas ah, não choreis! E porque chorais? Si vós não sabeis Nem o que ganhais, Nem o que perdeis.Perdeis a terra, é certo; mas que importa,Si celeste esperança vos conforta!

Viver é sonhar, Sonhar é dormir; Deveis acordar, Para ao céo subir, E no céo velar.Acordai; socegai o afflicto peito,Que ides deixar o amargurado leito.

O pranto enxugai, Bani o temor; O Nome entoai Do Eterno Senhor; E a Elle voai.Vossa bençam lançai á Mocidade,Que vai na lucta entrar da Humanidade.

Pariz, Janeiro de 1836.

A VELHICE.

Nota. Pag. 84.

Como o vapor da cánica caverna,

Nas margens do sombrio Aniâno lago.

Á margem do lago de Agnano (Anianus lacus dos Romanos) jaz a gruta vulgarmente chamada do cão, pelas experiencias que alli se repetem perante os curiosos que a visitam, introduzindo n’ella um pobre cão, que logo cái asphyxiado em respirando o gaz carbonico que do chão d’ella se exhala, e no meio do qual se apaga a luz do archote. Neste caso especial, creio, merecerá desculpa o adjetivo cánica, que não vem nos diccionarios.

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