Porque estou triste?
XXXIII.
PORQUE ESTOU TRISTE?
Ah! não queiras saber porque suspiro;Porque geme minha alma, como a rôla,Que outro canto não tem senão queixumes, Com que magôa os ares.
Ah! não me inquiras… Si chegar tu podes,Ao través de meu olhos, á minha alma, Verás que o rosto meu assás explica O que n’ella se passa.
Dirás, talvez, que injusto me lastimo;Qu’inda possuo um pai, qu’inda mãe tenho,Qu’inda um amigo aperta-me em seus braços, E proscripto não erro.
Mas que importa thesouros taes possua,Si gozal-os não posso? Si na ausencia,Da saudade o farpão continuaumente O peito me trespassa?
De gotta em gotta o matutino rócioEnche, e pende do lirio o debil calix,Que opprimido co’o peso se lacera, Desbota, e alfim fallece.
Uma gotta após outra um lago fórma,Novas gottas de chuva o lago augmentam,Trasborda emfim, e dá a um río origem, Que nas planices róla.
Eis de meu coração a fida imagem.Repetidos pezares pouco a pouco,Males amontoados desde a infancia A existencia me azedam.
Procuro embalde no festim da vidaUm logar para mim. Si uno meu cantoAo hymno de alegria, a voz me falta, E o coração suspira.
Oh Ancião de Téos, feliz foste:Por amores contavas os teus dias!Dias ditosos! Eu os meus numero Só pelos meus pezares.
Mal vibravas da lyra os fios de ouro,Para de heroes cantar preclaros feitos,Em vez de resoar de Atríde o nome, Amor, dizia a lyra.
E eu, oh destino! si de Amor intentoTerno o nome entoar, rebelde a lyra Só suspiros exhala, e as cordas gemem Ao toque de meu dedo.
Suspirar, suspirar… Tal é meu fado!Porque o céo fez-me assim? Ao céo pergunta,Porque dêo elle ao sol igneos fulgores, E pallidez á lua?
Emquanto o sabiá doce gorgeia,Gemem na praia as merencorias ondas;E ave sinistra, negra esvoaçando, Agoureira soluça.
Ao lado do cypreste verde-negro,Desabrocha a corolla purpurinaA perfumada rosa; e juncto d’ella Pende a roxa saudade.
Eleva-se a palmeira sumptuosa,E desdobra nos ares verdes leques,E perto da raiz, á sombra sua, Definha humilde arbusto.
Eis da Natura o quadro! Isto harmonia,Isto belleza, e perfeição se chama!Eu completo a harmonia da Natura Co’ os meus tristes suspiros.
Vê agora si á lei posso eximir-meQue a suspirar me obriga?… Oh alma minha,Arpeja a que possues unica fibra, Exhala teus suspiros.
Turim, 15 de Maio 1835.