As Saudades - Adeos á Patria Suspiros Poéticos e Saudades · Capítulo 47 de 57
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As Saudades - Adeos á Patria

Adeus, oh Pátria amada,

Terra saudosa, onde eu abri meus olhos

Pela vez prima ao sol americano;

Onde nos braços maternais suspenso,

O teu amor co'a vida

No albor dos anos meus fruí gostoso.

Oh margens do Janeiro,

Eu me ausento de vós com mágoa e pranto!

Adeus, brilhante céu da terra minha!

Adeus, oh serras que vinguei difícil!

Adeus, sombrias várzeas,

Que vezes passeei meditabundo.

Adeus, augustas torres

Do templo, onde lavei-me do pecado!

O som funéreo dos sagrados bronzes

Ainda vem magoar os meus ouvidos,

E n'alma despertar-me

Tristíssimas, cruéis reminiscências.

Eis ali a montanha

Cujos pés beija o mar que em flor se esbarra.

Quantas vezes ali triste, sentado,

Minha alma no infinito se espraiava,

Os olhos vagueando

Sobre este mar, que deve hoje levar-me!

Sim, eu te deixo, oh Pátria;

E deixo-te lutando co'as procelas,

Que no teu horizonte se abalroam.

Ah! quanta dor o coração me punge,

Por ver alguns teus filhos,

Baldos de pundonor, como te olvidam.

Teus filhos... Ah! cubramos,

Se algum há, com desprezo o seu opróbrio.

Feras serpentes qu'entre mansas aves

Se aqueceram nos ovos, e mal nascem

Dilaceram os filhos,

E as próprias aves que lhes deram vida.

Malévolos sicários,

Raça espúria, sem Pátria, ermos de brio,

Já traidores alfanges afiando,

O ensejo só aguardam favorável

De ensopá-los no sangue

Daqueles a quem bens, e honra devem.

Não é pavor, nem susto

De aos pés calcado ser de intrusos Neros,

Nem de rojo levado ao cadafalso,

Que hoje arrancar-me de teu grêmio pode;

Nem a ambição me acena

Qu'eu vá mercadejar por longes terras.

Não, eu não temo a morte,

Nem dos tiranos temo a catadura;

sei firme assoberbar adversos fados;

Que o varão, que o dever toma por norte,

Sempre a Pátria antolhando,

Morte honrosa prefere à vida escrava.

Amor da sapiência,

Desejo de colher lições do mundo

Leva-me às margens do soberbo Sena,

Para, se me não for avessa a sorte,

Ante o altar da Pátria

Meus serviços prestar vir respeitoso.

A ti me voto inteiro,

Tu és o meu amor, minha alma é tua.

Só para te ofertar flores cultivo

Nos mágicos jardins da Poesia;

Se te apraz seu aroma,

Ah! como fico de prazer ufano!

Ah! praza a Deus que a nuvem,

Que obumbra ora teu céu, tão belo sempre,

A cólera do Eterno não desabe

Sobre as tristes cabeças de teus filhos!

Ah! praza a Deus que nunca

Teu Anjo tutelar fuja a teus lares!

Oh Senhor, tu protejes

O povo que se vota à Liberdade;

A Liberdade é dom que nem tu mesmo

Aos homens tiras; como um mortal ousa,

Erguido pó da terra,

Eclipsar os teus dons, manchar teu nome?

Cara Pátria, sem susto

Tua fronte levanta majestosa,

Como tuas montanhas, e teus bosques!

Não sejas só no mundo conhecida

Por teus ricos tesouros,

Pelos prodígios da sem-par Natura.

Oh Pátria, ovante marcha;

Já em teu seio encerras Varões dignos

De renome imortal; não te envergonhes

De cingir-lhes as frontes, de apontá-los.

São eles que te escoram,

E que te hão de elevar à Eternidade.

As solitárias ondas

Que hoje sonoras tuas: praias beijam,

Já outrora, não pedras, não espuma,

Mas cadáveres, e sangue arremessaram,

Cadáveres, e sangue

Dos nascidos nos teus sagrados bosques.

Se inimigos ousarem,

Armados contra ti, em frágeis lenhos,

Expelir o trovão, o raio, e a morte,

Abrir-se-hão estes mares a sorvê-los;

Seus lívidos cadáveres

Tuas areias juncarão de novo.

O coração pressago

Veemente palpita, e voz suave

Em meu peito ressoa, e me anuncia

Que o céu destes horrores te preserva;

O coração não mente;

A paz firmou-se em ti; seja ela eterna.

Como a enchente do Nilo

Que estendendo-se sobre a terra Egípcia,

Deixa após si fertilidade aos campos,

Assim, propicia paz, tu vivificas

O povo que te hospeda,

E por ti bafejada a indústria medra.

Como serei ditoso

Se dado ainda me for correr teus campos,

Beijar de anosos pais as mãos rugosas,

Abraçar os amigos, e arroubado

Nesse celeste instante

Novos, oh Pátria, cânticos tecer-te.

Rio de Janeiro, 3 de julho de 1833

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