As Saudades - No Album da Exma Senhora D. Joanna Marques Lisbôa Suspiros Poéticos e Saudades · Capítulo 56 de 57
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As Saudades - No Album da Exma Senhora D. Joanna Marques Lisbôa

Um mundo oculto, mais real, mais belo

Que o mundo exterior, nossa alma encerra.

Aí a fantasia, hábil pintora,

Ora mil quadros reproduz da terra,

Ora de outros mil quadros criadora,

Quadros de alma doçura,

Instantes nos outorga de ventura.

Oh fantasia, oh único refúgio

Do mísero proscrito!

Tu, para consolar o peito aflito,

Os passados prazeres nos retratas;

As pandas asas das prisões desatas,

E pelos pátrios ares deslizando,

Que sublimes visões nos vais pintando!

Oh! se é belo, sentado à sombra amiga

Do pátrio cajueiro

De frutos esmaltado,

Onde o saudoso sabiá se abriga,

Onde pousa o colibri, e o gaturamo;

Se é doce ouvir terníssimo reclamo

Do lindo coro alado,

Da aurora pregoeiro,

Que à celeste mansão nossa alma eleva

Quanto é mais belo, ausente,

À parca sombra do álamo estrangeiro,

Ouvindo o rouxinol cantar amores,

Da Pátria então lembrar-se,

Lembrar-se de um parente,

De um amigo da infância, de um remanso,

Onde, fruindo o aroma de mil flores,

Ao som estrepitoso da corrente,

Tantas vezes achamos o descanso

Às infantis fadigas!

Oh! como é doce então a alma engolfar-se

Nas cenas do passado!

Tudo vem ante nós apresentar-se

Nesse querido instante!

Nossa alma, entre mil cenas delirante,

Ouve a voz da saudade que murmura;

A saudade, a saudade,

Esse triste prazer que não se explica,

Agro prazer de um coração magoado,

Prazer que se mistura

Com dor, com aflição, saudosa angústia

Que nos punge, nos rói, nos vivifica.

Assim nestas estranhas, longes plagas

Se nos antolha a Pátria!

E por ela em cada inverno

De contínuo suspiramos,

E mesmo na primavera

Inda dela nos lembramos.

Cada quadro nos desperta

A cadeia interrompida

De gratas reminiscências

Da nossa passada vida.

Assim, assim um dia,

Já sob o céu Brasílio,

Como um sonho, da Europa a bela imagem

Ressurgindo na nossa fantasia,

Despertará saudades deste exílio.

Então entre mil cenas divagando,

Do passado as idéias refrescando,

Ante nós se erguerá também Bruxelas,

Seus parques, seus jardins, e as torres belas

Dos seus templos, e góticos palácios.

Então, talvez então, vendo este livro,

Que quadros vos recorda tão diversos,

Vos lembrareis do errante, jovem vate,

Que estes versos traçou, saudosos versos.

Os gratos dias,

Que aqui gozei,

Ante minha alma

Sempre os terei.

Os inocentes,

Gratos penhores,

Anjos da terra

Encantadores,

Que tantas vezes

Eu afagava,

E em grato enlevo,

Os abraçava;

Esta harmonia

Do par ditoso;

Em vós beleza,

Amor no esposo;

Candura em todos,

Terna bondade,

Dotes sublimes

Da Divindade

Jamais minha alma

Olvidará,

E de vós sempre

Se lembrará.

Bruxelas, 21 de junho de 1836

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