O Carcere de Tasso Suspiros Poéticos e Saudades · Capítulo 31 de 57
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O Carcere de Tasso

XXIX.

O CARCERE DE TASSO.

EM FERRARA.

Que vim eu aqui ver? — Uma masmorraHumida, estreita, onde respiro apenas!Si a fronte elevo, o negro tecto róço;Si estendo os braços, a largura abranjo;Dous passos bastam a medir seu fundo.

Que vim eu aqui ver? — Nomes escriptosDe um lado e de outro de centenas de homens, Que como eu curiosos peregrinosVieram visitar este recinto.

Vós, meus olhos, nada vedes; Mas minha alma no passado Um vate vê encerrado Nesta lugubre prisão. Aqui chorou longos dias, Longas noites, longos annos, Quem por olhos soberanos Enloquecêo de paixão.

Tasso aqui como um escravo Amargurou a existencia; De um senhor a inclemencia Amorte, aqui lhe quiz dar. Triste elle a ausencia carpia De sua cara princeza. Seu amor, sua belleza Causaram só seu penar.

Livre, qual Deos o criára, Entre ramos adejando, Melodias exhalando, Passa a vida o rouxinol. Saúda o sol quando nasce, Redobra o canto co’o dia, Enche os ares de harmonia, Geme ao deitar-se do sol.

Mas si preso na gaióla Mão tyranna o encadeia, Inda assim elle gorgeia, Para dar allivio á dor. Assim, oh grande Torquato, Neste carcere horroroso Gemer te viram saudoso A liberdade, e o Amor,

Fado! Fado do vate!… A Italia todaAs doçuras gostava de teus versos;Goffredo ao céo da gloria remontavaSobre as sonoras azas de teu genio;E tu, oh Tasso, aqui nesta masmorraComo um vil criminoso definhavas!Fado do vate! rigoroso fado! Mas Tasso ousou amar de um duque a filha!Oh Ferrara! cem duques teus, cingidosDe aureas c’roas, de purpura cobertos, Um só Tasso não valem.Um vate é mais que um rei. Reis faz o povo,E a seu grado os desfaz, como do mármorTira o esculptor um Nume, e quando apraz-lheEm simples animal converte-o, ou quebra-o.Mas tu, sagrado fogo d’harmonia,Quem te accende nas almas dos poetas?O magico poder com que convertesAchiles n’um heroe, Páris n’um fraco,Acaso dos mortaes herdaste, oh vate?Ou foi prenda do céo a lyra tua,A lyra, que immortaes sons desferindo,Vive no tempo, e impõe silencio á inveja?

Muros desta prisão! muros, que outr’ora Um thesouro encerrastes,Vós, que insensiveis testemunhas fostes Dos suspiros de Tasso,Dizei, muros, si acaso vós podestes Tolher do engenho as azas? Ou si o tyranno a gloria nodoou-lhe?Vingou a Humanidade a affronta sua;Como um astro no céo Tasso rutila,E o nome do tyranno negrejando,Augmenta-lhe o fulgor, que o illumina,

Mas oh da Providencia altos arcanos!Que mais sofra na vida, quem co’a morteNova vida immortal viver começa! Assim homens ingratos,Emquanto vivo, o merito premeiam Ah! consola-te, oh Tasso,Que o unico não foste, que da sorte Sorvêo tragos amargos.Quasi é do vate estrella o infortunio!Como os martyres são, que só morrendo A apotheose recebem.Aquelle a quem a Grecia erguêo altares,Homero, mendigou de porta em porta!Tu, oh Ravenna, o fugitivo DanteViste iracundo praguejar seu fado!Camões, rival de Tasso, o pão esmolaAnte os olhos de Lisia. E tu, oh Silva, Da minha Patria filho,A fogueira subiste com pé firme,Que a innocencia teus passos vigorava;E entre as chammas, por mãos ímpias accesas,Teu ultimo suspiro ao céo ergueste Ante esse bruto povo, Que outr’ora te applaudíra.Tu Claudio octogenario, na masmorraPara a affronta evitar te déste a morte.Lá de horrenda prisão correm ferrolhos, A dura porta se abre,Lá sai Dircêo saudoso, suspirando Pela cara Marilia, Lá vai morrer proscriptoNas inhospitas plagas africanas!Fado do vate! rigoroso fado!

Porêm dos vates Porque lamento A triste sorte? Póde o tormento, Ou póde a morte, Inda que seja Dura, affrontosa, Fazer que a historia Não perpetúe Sua memoria? Raivosa a inveja Arme-se embora, E os acommetta. Do vate a gloria, É qual planeta, Que no céo mora, No céo lampeja,Para honra dos humanos,E opprobrio dos tyrannos.

Ferrara, 3 de Maio de 1835.

O CARCERE DE TASSO.

Nota 1. Pag. 208, v. 22.

......... E tu, oh Silva...

Antonio José da Silva, natural do Río de Janeiro, poeta comico, foi queimado vivo n’um auto-da-fé, em Lisboa, em 1739, porque, dizia-se, era Judeo.

Nota 2. Pag. 209, v. 8.

Tu Claudio octogenario.

Claudio Manoel da Costa, conhecido com o nome de Glauceste Saturníno, distincto poeta, de quem correm algumas poesias impressas, sendo accusado, já avançado em annos, e preso com outros illustres poetas, deo-se a morte na prisão.

Nota 3. Pag. 209, v. 12.

Lá sai Dircêo saudoso, suspirando

Pela cara Marilia.

Thomas Antonio Gonzaga, tão conhecido com o nome de Dircêo, immortal nas suas Lyras. Nós lhe consagramos esta nota, porque, de quantos teem lido suas Lyras nem todos sabem que reaes foram as suas desgraças; compromettido com Claudio Manoel da Costa, e Alvarenga, foi condemnado ao desterro para Moçambique, onde expirou. Como Petrarca, immortalisou-se com suas poesias eroticas, e o nome de sua Marilia será tão celebre como o de Laura, quando os Brasileiros prezarem mais os seus litteratos.

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