Napoleão em Walerloo Suspiros Poéticos e Saudades · Capítulo 41 de 57
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Napoleão em Walerloo

AO CORONEL ANTÔNIO DE SOUSA LIMA DE ITAPARICA

Oferece o autor o Cântico de Waterloo

Quem melhor que um herói sopesar pode

As cinzas de outro herói? Quem melhor que ele

Pode dar o valor aos grandes feitos?

Tu vás a Waterloo; tu vás sentar-te

Aos pés desse leão, que as mãos dos homens

Sobre vasta pirâmide elevaram,

Para narrar às gerações futuras

Raros prodígios da potência humana.

Intrépido soldado peregrino,

Que depois de salvar Itaparica,

Guardaste na bainha a espada ufana,

E as ciências cultivas incansável;

A teus olhos, de ver insaciáveis,

Já vai a terra parecendo estreita!

Se te é grato escutar os sons da lira;

Se tu, que viste de Virgílio o túmulo,

De Horácio a casa, e a casa de Mecenas,

Podes com gosto murmurar meus versos,

Este cântico aceita, que te ofreço

Em sinal de respeito, e de amizade.

Tout n'a manqué que quand tout avait

réussi.

Napoleão em S. Helena (Memorial)

Eis aqui o lugar, onde eclipsou-se

O Meteoro fatal às régias frontes!

E nessa hora em que a glória se obumbrava,

Além o sol em trevas se envolvia!

Rubro estava o horizonte, e a terra rubra!

Dous astros ao ocaso caminhavam;

Tocado ao seu zênite haviam ambos;

Ambos iguais no brilho, ambos na queda

Tão grandes como em horas de triunfo!

Waterloo!... Waterloo!... Lição sublime

Este nome revela à Humanidade!

Um Oceano de pó, de fogo, e fumo

Aqui varreu o exército invencível,

Como a explosão outrora do Vesúvio

Até seus tetos inundou Pompéia.

O pastor que apascenta seu rebanho;

O corvo que sanguíneo pasto busca,

Sobre o leão de granito esvoaçando;

O eco da floresta, e o peregrino

Que indagador visita estes lugares:

Waterloo!... Waterloo!... dizendo, passam.

Aqui morreram de Marengo os bravos!

Entretanto esse Herói de mil batalhas,

Que o destino dos Reis nas mãos continha;

Esse Herói, que co'a ponta de seu gládio

No mapa das Nações traçava as raias,

Entre seus Marechais ordens ditava!

O hálito inflamado de seu peito

Sufocava as falanges inimigas,

E a coragem nas suas acendia.

Sim, aqui stava o Gênio das vitórias,

Medindo o campo com seus olhos de águia!

O infernal retintim do embate de armas,

Os trovões dos canhões que ribombavam,

O sibilo das balas que gemiam,

O horror, a confusão, gritos, suspiros,

Eram como uma orquestra a seus ouvidos!

Nada o turbava! — Abóbadas de balas,

Pelo inimigo aos centos disparadas,

A seus pés se curvavam respeitosas,

Quais submissos leões; e nem ousando

Tocá-lo, ao seu ginete os pés lambiam.

Oh! por que não venceu? — Fácil lhe fora!

Foi destino, ou traição? — A águia sublime

Que devassava o céu com vôo altivo

Desde as margens do Sena até ao Nilo,

Assombrando as Nações co'as largas asas,

Por que se nivelou aqui co'os homens?

Oh! por que não venceu? — O Anjo da glória

O hino da vitória ouviu três vezes;

E três vezes bradou: — É cedo ainda!

A espada lhe gemia na bainha,

E inquieto relinchava o audaz ginete,

Que soía escutar o horror da guerra,

E o fumo respirar de mil bombardas.

Na pugna os esquadrões se encarniçavam;

Roncavam pelos ares os pelouros;

Mil vermelhos fuzis se emaranhavam;

Encruzadas espadas, e as baionetas,

E as lanças faiscavam retinindo.

Ele só impassível como a rocha,

Ou de ferro fundido estátua eqüestre,

Que invisível poder mágico anima,

Via seus batalhões cair feridos,

Como muros de bronze, por cem raios;

E no céu seu destino decifrava.

Pela última vez co' a espada em punho

Rutilante na pugna se arremessa;

Seu braço é tempestade, a espada é raio.

Mas invencível mão lhe toca o peito!

E' a mão do Senhor! barreira ingente

Basta, guerreiro! Tua glória é minha;

Tua força em mim stá. Tens completado

Tua augusta missão. — És homem; — pára.

Eram poucos, é certo; mas que importa?

Que importa que Grouchy, surdo às trombetas,

Surdo aos trovões da guerra que bradavam:

Grouchy, Grouchy, a nós, eia, ligeiro;

O teu Imperador aqui te aguarda.

Ah! não deixes teus bravos companheiros

Contra a enchente lutar, que mal vencida

Uma após outra em turbilhões se eleva,

Como vagas do Oceano encapelado,

Que furibundas se alçam, lutam, batem

Contra o penedo, e como em pó recuam,

E de novo no pleito se arremessam.

Eram poucos, é certo; e contra os poucos

Armadas as Nações aqui pugnavam!

Mas esses poucos vencedores foram

Em Iena, em Montmirail, em Austerlitz.

Ante eles o Tabor, e os Alpes curvos

Viram passar as águias vencedoras!

E o Reno, e o Manzanar, e o Adige, e o Eufrates

Embalde à sua marcha se opuseram.

Eram os poucos, que jamais vencidos

Os dias seus contavam por batalhas,

E de cãs se cobriram nos combates;

O sol do Egito ardente assoberbaram,

A peste em Jafa, a sede nos desertos,

A fome, e os gelos dos Moscóvios campos.

Poucos que se não rendem; — mas que morrem!

Oh! que para vencer bastantes eram!

A terra em vão contra eles pleiteara,

Se Deus, que os via, não dissesse: Basta.

Dia fatal, de opróbrio aos vencedores!

Vergonha eterna à geração que insulta

O Leão que magnânimo se entrega.

Ei-lo sentado em cima do rochedo,

Ouvindo o eco fúnebre das ondas,

Que murmuram seu cântico de morte.

Braços cruzados sobre o largo peito,

Qual náufrago escapado da tormenta,

Que as vagas sobre o escolho rejeitaram;

Ou qual marmórea estátua sobre um túmulo.

Que grande idéia o ocupa, e turbilhona

Naquela alma tão grande como o mundo?

Ele vê esses Reis, que levantara

Da linha de seus bravos, o traírem.

Ao longe mil pigmeus rivais divisa,

Que mutilam sua obra gigantesca;

Como do Macedônio outrora o Império

Entre si repartiram vis escravos.

Então um riso de ira, e de despeito

Lhe salpica o semblante de piedade.

O grito ainda inocente de seu filho

Soa em seu coração, e de seus olhos

A lágrima primeira se desliza.

E de tantas coroas que ajuntara

Para dotar seu filho, só lhe resta

Esse Nome, que o mundo inteiro sabe!

Ah! tudo ele perdeu! a esposa, o filho,

A pátria, o mundo, e seus fiéis soldados.

Mas firme era sua alma como o mármore,

Onde o raio batia, e recuava!

Jamais, jamais mortal subiu tão alto!

Ele foi o primeiro sobre a terra.

Só, ele brilha sobranceiro a tudo,

Como sobre a coluna de Vendôme

Sua estátua de bronze ao céu se eleva.

Acima dele Deus, — Deus tão-somente!

Da Liberdade ele era o mensageiro.

Sua espada, cometa dos tiranos,

Foi o sol, que guiou a Humanidade.

Nós um bem lhe devemos, que gozamos;

E a geração futura agradecida:

NAPOLEÃO, dirá, cheia de assombro.

18 de junho de 1836

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