O Riso da Fortuna
XXIII.
O RISO DA FORTUNA.
Não te rias, oh fortuna!Teu riso me é suspeitoso;Contra a desgraça não clamo;Não quero ser venturoso.
Vai-te, oh fortuna, Não me atormentes; Já te não creio; Em tudo mentes.
Emquanto te procuravaAndei errados caminhos;E das rosas que murcharamSó me restam os espinhos. Vai-te, oh fortuna, Não me atormentes; Já te não creio; Em tudo mentes.
Por cousa tão transitoriaÉ loucura amofinar-nos;Os bens que hoje nos outorgas,Amanhã pódes tirar-nos. Vai-te, oh fortuna, Não me atormentes; Já te não creio; Em tudo mentes.
Com bem pouco me contento;Conformei-me co’a desgraça;Já me tenho por ditoso,Já regeito a tua graça. Vai-te, oh fortuna, Não me atormentes; Já te não creio; Em tudo mentes.
Não sei o que é a ventura,Nem sei si sou desgraçado.Por bens que podem ser males,Eu não troco o meu estado. Vai-te, oh fortuna, Não me atormentes; Já te não creio; Em tudo mentes.
Rapidos passam os dias,E a cada passo que damos,Á morte, que é sempre certa,Ligeiramente marchamos. Vai-te, oh fortuna, Não me atormentes; Já te não creio; Em tudo mentes.
É só ditoso na terraQuem vive em paz com sua alma;Quem das penas que aqui soffre,Só do céo espera a palma. Vai-te, oh fortuna, Não me atormentes; Já te não creio; Em tudo mentes.
Albano, Março, de 1835.