A Sepultura de Filinto Elysio
XVIII.
A SEPULTURA DE FILINTO ELYSIO,
NO CEMITERIO DO PÈRE LA CHAISE.
Eis-me fóra do mundo, Nas solidões dos mortos,No imperio do silencio, e da tristeza,De campas, e cyprestes rodeado!
Scenas aqui não ha que aprazer possamAos sentidos daquelles, que embebidosNas illusões do mundo, a morte temem, Como o completo termo da existencia;Cegos, que a luz não viram do infinito!
Á sombra destas arvores chorosas, Encostado a um sepulchro,Ocio não pasta o rico em sésta amena;Nem quem o vero bem no engano cifra Deste valle de angustias.
Á dôr esta mansão é consagrada,E á saudade, e ás lagrimas dos vivos,Que a Deos, e á Eternidade a mente sobem.
Aqui, sim, oh minha alma, aqui te exalta;Sólta as prisões do barro que te opprime,E vaga sem horror na immensidade.
Estas ruas de tumulos suberbos, Que cidade figuram,Só corruptos cadaveres habitam,Poeira, nomes, e ossos descarnados.
Os mortos que nos marmores repousam, Não te encham de terror; nem os gemidosDe alguma triste esposa, ou mãe saudosa; Nem do vento o murmûrio,Que merencorio sôa entre os cyprestes. Nada temas, minha alma;Preconceitos da infancia te não gelem; Não; sem susto vagueia; Mal não fazem os mortos;Só entre os vivos o temor é justo.
Oh Filinto! oh Filinto! Onde estás?… Escutemos…Aqui nem mesmo os echos me respondem.Oh meu Filinto, é esta a vez terceira, Que incansavel te busco,Dé um em um tenho lido os epitaphios Destas funebres lousas; Só o teu não encontro.
Onde é que a ingratidão da injusta Patria, Dessa Patria que honraste Co’ os teus divinos carmes,Cavou-te a humilde sepultura? — Onde? D’ella ausente, proscripto, na miseria, Como Camões viveste;Saudoso, e só por ella suspirando,Monumentos ergueste á gloria sua;E surda sempre foi aos teus gemidos;Como Camões morreste na indigencia!Mas elle ao menos expirou na Patria!Terra da Patria recebêo seus ossos;E tu? — Nem ella sabe onde repousas!
Oh desgraçada Lisia!Ingrata mãe de heróes, de egregios vates,Assim deleixas teus preclaros filhos, Que em fadigas se afanamPor cingir-te de brilho immarcescivel?Teu vate, teu cantor já te exprobrára,Quando com rouca voz assim dizia,E não do longo canto afadigado,Mas de cantar á gente endurecida:„O calor, com que mais se accende o engenho,„Não o dá a Patria, não; que está mettida„No gosto da cubiça, e na rudeza„De uma austera, apagada e vil tristeza.“
No Universo estas vozes resoaram;Linguas cem estas vozes repetiram; E o que fizeste, oh Lisia?Chamaram-te madrasta, e mãe tyranna; E hoje? — ainda és a mesma!
Oh Patria minha, oh meu Brasil, não sejasComo Lisia cruel para teu filhos.Ligado á sorte sua, supportasteSec’los tres os grilhões do captiveiro;Ma já que sacudiste a espessa treva, Que os olhos te vendavaDa tua antiga Irmã vê as miserias, E de imital-a teme.
Vejamos. — Estes myrtos tão viçososOrnar devem de um vate a sepultura.Oh, será elle? — Não; aqui descança O coração de um filho.
Não afrouxemos, vamos; que assim marcha A Humanidade inteira,Sem nunca repousar, sobre reliquias Das gerações extinctas. Cada casa é um tumulo, e de sangue, Logar não ha na terra, Que manchado não fôsse.Um dia chegará a HumanidadeAo limite que Deos lhe prescrevêra.
Não descancemos; vamos,Emquanto a sepultura não acharmosDe Filinto, que ha tanto procuramos.
Luiza e Abeilard inda no marmor,Junctos, da morte o eterno somno dormem,Neste gothico tumulo; mil c’rôasSuas estatuas cobrem, que os amantes A seus pés depositam.Qu’eu não possa pagar igual tributo! Amor, tu me desdenhas;Nunca um osculo teu rosciou meus labios;Nunca de virgem olhos conduídosSobre mim almas chammas espargiram; Ah, nunca fui amado!Nascido para a dôr, jamais minha almaEm delicias de amor sonhou ao menos!
Que illustres nomes estas lousas mostram!Estatuas, bustos, inscripções só vejoDe prestantes varões, de egregios vates.Ao lado deste tumulo pomposo,Onde d’Arte o primor offusca o nomeDaquelle que mimoso foi da sorte,Como a meu coração falla sublimeEsta Cruz negra á sombra de um cypreste!
O sol desmaia; e precursor da noiteCinéreo véo nos ares desenrola-se.Já fraqueio, e suor transsuda a fronte.Deixarei estes sacros aposentos,Sem que te encontre, oh candido Filinto?Serei tão malfadado, que esta c’rôaDepositar não possa em tua campa,E sobre ella chorar, gravar meu nome?
Ah, não desesperemos;Mais um esforço. — Emfim, é ella, é ella!Nem sequer um cypreste, um myrto a cobre!Já lisa a pedra pelo pé do tempoMal indica que teve um epitaphio. Ingrata Patria! Ingrata!O tempo ao menos, carcomendo a lagea,Tua vergonha occulta ao estrangeiro.
Oh meu Deos! aqui jaz desconhecidoQuem cantou dos teus Martyres a gloriaEm altísono metro harmonioso!
Reverente ante a tua sepultura,Oh Filinto, tu vês um triste filho,Que choroso, da Patria ausente vive.Joven, talvez hardido, ousei na lyraOs dedos applicar, seguir teus vôos:Sons, que desfiro rusticos, consagroEm holocausto a Deos, e á Patria minha.Da celeste Sião, onde tua alma Fulgurante resplende,Um raio de estro á minha mente vibra. Recebe esta corôa, Estas folhas recebe,Que viçosas colhi na sepulturaDo immortal La Fontaine, a quem honraste. Quiçá prima homenagem sejam ellasQue aos manes teus humana mão tribute.Possa o tempo guardar estes, que escrevo,Tristes versos, até que um Luso os leia:
Uma lagrima dai, oh Portuguezes,Uma lagrima ao menos a Filinto, Ao desgraçado velho. Assás honrou á Patria;Em premio exilio teve. — Adeos, Filinto.·
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„Que exemplos a futuros escriptores!“
Pariz, 28 de Septembro de 1834.
↑ Com a traducção que fez das suas fabulas.