Ao Emo Sor José Joaquim da Rocha, etc
AO ILL E EX SN.
JOSÉ JOAQUIM DA ROCHA,
DIGNATARIO DA IMPERIAL ORDEM DO CRUZEIRO,
DEPUTADO DA EX-ASSEMBLEIA CONSTITUINTE DO BRASIL,
EX-MINISTRO PLENIPOTENCIARIO NAS CORTES DE PARIZ,
E DE ROMA, ETC.
Os serviços que prestastes á Patria; o amor, e o respeito que vos consagram os Brasileiros residentes, em Pariz; o titulo de Pai com que elles vos honram; o seu legitimo pezar, e as lagrimas que vistes correr de seus olhos, no momento em que d’elles vos separastes; que bem previam elles que um vacuo tinha de ficar em seus corações; são os justos motivos que me inspiraram estes mesquinhos versos, que hoje vos offereço. Possam elles ser tão gratos á vossa alma, como a todos nos será grata a vossa lembrança.
Roma, Abril de 1835.
XXVI.
Folga minha alma, quando se me antolha A candida virtude,E Varões dignos de louvor me indica.Eu me prostro a seus pés venerabunde;Que a mente minha, de louvar anciosa,Encomios jamais nega á heroicidade.
Appareça quem já colhêo aromas, Que impura a minha dextraNas aras da lisonja profanára.Descerra os labios, rígida virtude,Dize si ouvidos teus já se irritaram,Si coraste de pejo ao ouvir meus cantos?
Não, não, tu me respondes: fiel sempre Aos sacros meus dictames,Hymnos teceste á Patria, á Liberdade,E a Varões benemeritos, que eu prezo.Canta, canta; que é esse o unico premioDe quem sem egoismo á Patria serve.
Orgam é da verdade a consciencia; E da virtude é orgamO coração que falla, e nunca mente.Firme Varão, immovel nas tormentasQue vezes o Brasil amedrontaram,Rocha, quem no Brasil teu nome ignora?
Tu foste um dos primeiros que firmaram A Independencia nossa.De tua alma o vigor, e o enthusiasmo,Os povos animavam, que te ouviam;E unindo-se em prol da augusta causa,Para ser seu apoio te escolheram.
Quando a injustiça e a ingratidão armadas Os raios da vingançaContra os Varões da Patria fulminaram,Salvo não foste, não; a Patria vio-te,Inda no seu desmaio, com teus filhosInnocentes, marchar ao injusto exilio.
Quem não sabe que a morte te aguardava, Dura, affrontosa morte,Nessa terra, onde algemas se forjavamPara o Brasil escravizar de novo?Quem perfidia tão negra não conhece,E os intentos da cega tyrannia?
Da sorte das Nações só Deos decide. Quando ellas o invocam,E credoras se fazem do que aspiram,Deos um Anjo velar sobre ellas manda;Esse Anjo tutelar não mais as deixa,Esse Anjo é quem contrarios planos burla.
Por milagre desse Anjo salvo foste: Por milagre desse AnjoCem, e cem vezes o Brasil foi salvoDas cruas garras de crueis abutres;Só por milagre d’elle em breve esperoVer o Brasil subir á mór altura.
Oh! que doce é no meio dos perigos De horrenda tempestade,Já languido de fome, e de fadiga,Ver aberta n’uma onda a sepultura,E armada contra sí dura companha,Exclamar: — Tudo soffro pela Patria!
Outro tanto dizer muitos não podem! Digno tu és de inveja!Ah! si invejosos tens, eu os desculpo.Sempre a inveja assim foi; sempre ella investeA quem mais por virtudes se distingue;Sempre villões Arístides tiveram.
Mas quando a imparcial posteridade, Que só a laurea outorgaA quem por acções nobres merecêra,Teus titulos julgar, ella gostosaTecerá teus encomios, e o meu hymnoÁ memoria dos homens será grato.
Quem dêo fulgor ao sol, dêo alma ao homem, Tambem cobrio os camposCo’o brilhante matiz de lindas flores!Nem porque de mil soes mantem a ordem,Deleixa as pequeninas criaturasAo acaso, sem lei, sem um instincto.
Assim o homem digno de tal nome, Que memorandos feitosEm prol da Humanidade praticára,Não despreza as domesticas virtudes;Aquellas de immortal gloria o revestem,Estas o resplendor da gloria esmaltam.
Quantos o Mundo vio Coriolanos, Que o esclarecido nomeInfamaram depois com acções negras?Tu porêm sempre firme, sempre o mesmo,És á Patria fiel, e a vida tuaSempre tem sido de virtude exemplo.
Abril de 1835.
↑ Já não existe; mas seu nome caro a todos os que o conheceram, vivirá na nossa historia. ↑ Não ficção poetica, mas realidade encerram estes versos; que na viagem para o lugar do exilio, depois de horrivel tempestade, e já perto de Vigo, elevou-se a tripulação contra o commandante e os passageiros.