As Saudades - A minha familia Suspiros Poéticos e Saudades · Capítulo 48 de 57
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As Saudades - A minha familia

Choram por mim... Por mim a mãe querida

Em soluços — adeus — nem dizer pode...

Debalde balbucia; os lábios tremem,

E a dor a voz lhe embarga...

Banhado tem o rosto

De cristalino pranto, e cor de sangue

Os olhos já cansados.

Lá vejo o caro pai sisudo e grave,

A quem anos as faces enrugaram,

E a fronte encaneceram;

A mão ao filho estende, e a bênção lança:

Boa viagem, diz, boa viagem;

Deus te guie, e te traga

Na sua santa guarda,

Sempre digno de mim, da Pátria digno.

Memorandas palavras!

Palavras de meu pai... n'alma do filho

Ausente, eternas ficarão gravadas.

Ternos irmãos — adeus — me estão dizendo

Com tão fúnebre acento,

Como se eu condenado à morte fosse.

Um por um os abraço, e adeus lhes digo.

Quero partir... forcejo; os olhos cerro...

Porém a dor que o coração me preme,

Forças me tira, e me fraqueia os passos;

Em borbotões rebentam

Lágrimas, que enxugar em vão pretendo.

Que mão gelada é esta, que me embebe

Duro alfange no íntimo do peito?

Que mão desapiedada me retalha

O coração magoado?

Mão da saudade, és tu, eu te conheço.

Oh momento de ausência, como és agro!

Mais agro não me foi aquele dia

Em que co'a morte ao lado,

Quase caí do leito à sepultura.

Já brilhava a meus olhos moribundos

A luz de bento círio,

Que ante um sagrado Crucifixo ardia.

Chorava minha mãe, e seus cabelos

Sobre meu frio peito debruçavam-se.

Colocado entre o mundo e a Eternidade,

Meu ser se dividia, e ingente peso

O aflito coração me comprimia,

Como se férreos braços me cerrassem.

Ah! porque inteiro conservou-se o estame

Em luta tão cruel? E' qu'eu devia

Sofrer mais este golpe, e da existência

Não estava inda o círculo completo;

Assaz não tinha o Mundo conhecido,

Conhecê-lo devia.

Neste instante que a dor absorve todo,

Não me vigoram de um porvir brilhante

Lisonjeiras lembranças,

Sonhos falaces, esperanças loucas,

Que embriagam a mente do acordado.

Quisera aqui morrer, quisera nunca

Estranhas terras visitar, que outrora

Eu tanto cobiçara,

Antes que os pais deixar, irmãos e Pátria.

Mas uma estrela guia

A seu destino o homem.

Quem de Deus penetrar pode os arcanos?

Quem do Eterno à vontade opor-se pode?

Cumpra-se a minha estrela... E nós choremos,

Que num vale de lágrimas estamos.

Chorando nossas mães vida nos deram,

Chorando à luz nascemos, e mil vezes

Esta vida choramos, e na morte

Uma lágrima ainda se desliza

Dos revirados olhos:

Das lágrimas a fonte só se estanca,

Quando da vida apaga-se a centelha.

Pais, irmãos me rodeiam.

Onde estão os amigos? Um ao menos

Não me vem abraçar neste momento?

Um só não terei eu, que me acompanhe

Até à triste praia,

E o ósculo da amizade aí me imprima

Na hora da partida?

Eu vos conheço, amigos!

Convosco fique a paz, fique a alegria,

Venha o pesar comigo.

Caro pai, boa mãe, irmãos queridos,

Meu último suspiro vosso seja...

Adeus... adeus; eu parto.

Rio de Janeiro, 3 de julho de 1833

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