Quarto Auto A Celestina · Capítulo 6 de 25
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Argumento do QUARTO AUTO Celestina, caminhando, fala consigo mesma até chegar à porta de Pleberio, onde encontra Lucrecia, criada de Pleberio. Põe-se a conversar com ela. Alisa, mãe de Melibea, ouve-as e, sabendo que é Celestina, manda-a entrar. Chega um mensageiro para chamar Alisa. Ela parte. Celestina fica em casa com Melibea e lhe revela a causa de sua vinda.

LUCRECIA, CELESTINA, ALISA, MELIBEA

CELESTINA. Agora que vou sozinha, quero considerar bem o que Sempronio temeu desta minha caminhada. As coisas que não são bem pensadas, ainda que algumas vezes tenham bom fim, comumente produzem efeitos disparatados. Assim, muita reflexão nunca deixa de dar bom fruto. Embora eu tenha dissimulado diante dele, pode ser que, se me apanharem nestes passos do lado de Melibea, eu pague com pena não menor que a vida; ou fique muito diminuída, se não me matarem, lançando-me num cobertor ou açoitando-me cruelmente. Amargas seriam estas cem moedas! Ai, desgraçada de mim! Em que laço me meti! Para mostrar-me solícita e corajosa, ponho minha pessoa no tabuleiro. Que farei, triste e miserável de mim, se nem sair é proveitoso nem perseverar deixa de ser perigoso? Irei ou voltarei? Oh, dúvida dura e perplexa! Não sei qual escolha é mais segura. Na ousadia, perigo manifesto; na covardia, vergonha e perda. Aonde irá o boi que não tenha de arar? Cada caminho descobre seus precipícios fundos e danosos. Se me apanharem com o furto, não escaparei de morrer ou, na melhor hipótese, de ser encoroçada. Se não vou, que dirá Sempronio? Que toda minha força, saber e coragem, meu ardil e oferecimento, minha astúcia e diligência não passavam de palavras. E seu amo Calisto, que dirá, que fará, que pensará, senão que há novo engano em meus passos e que descobri a armadilha porque encontrei maior proveito da outra parte, como sofística prevaricadora? E, se não lhe ocorrer pensamento tão odioso, gritará como louco. Dir-me-á na cara injúrias raivosas. Apresentará mil inconvenientes que minha pronta decisão lhe trouxe, dizendo: “Tu, puta velha, por que aumentaste minhas paixões com tuas promessas? Alcoviteira falsa, para todo o mundo tens pés; para mim, língua. Para todos, obra; para mim, palavra. Para todos, remédio; para mim, pena. Para todos, coragem; para mim, faltou-te. Para todos, luz; para mim, treva. Pois, velha traidora, por que te ofereceste? Teu oferecimento deu-me esperança; a esperança adiou minha morte, sustentou meu viver, deu-me título de homem alegre. Se não houver efeito, nem tu escaparás da pena nem eu da triste desesperação.” Triste de mim! Mal aqui, mal acolá, pena em ambas as partes! Quando falta o meio entre dois extremos, é discrição encostar-se ao mais seguro. Prefiro ofender Pleberio a irritar Calisto. Irei. Maior é a vergonha de ficar por covarde que a pena de cumprir, como ousada, o que prometi, pois jamais a fortuna desamparou a coragem. Já vejo a porta. Em afrontas maiores me vi. Coragem, coragem, Celestina! Não desfaleças! Nunca faltam intercessores para mitigar as penas. Todos os agouros se mostram favoráveis, ou nada sei desta arte. Dos quatro homens que encontrei, três se chamavam João e dois eram cornos. A primeira palavra que ouvi na rua tratava de amores. Hoje não tropecei, como em outras vezes. As pedras parecem afastar-se e abrir caminho. Nem as saias me embaraçam, nem sinto cansaço ao andar. Todos me cumprimentam. Nenhum cão me ladrou, nem vi ave negra, tordo, corvo ou outra ave noturna. E o melhor de tudo é que vejo Lucrecia à porta de Melibea. É prima de Elicia; não me será contrária.

LUCRECIA. Quem é esta velha que vem sacudindo as saias?

CELESTINA. Paz seja nesta casa.

LUCRECIA. Celestina, madre, sê bem-vinda. Que Deus te trouxe por estes bairros pouco acostumados a ti?

CELESTINA. Filha, meu amor, o desejo que tenho de todos vós, os recados de Elicia e também a vontade de ver tuas senhoras, a velha e a moça. Desde que me mudei para o outro bairro, não as visitei.

LUCRECIA. Só para isso saíste de casa? Espanto-me contigo, pois não é teu costume dar passo sem proveito.

CELESTINA. Queres proveito maior, tola, que cumprir uma pessoa seus desejos? E também, como às velhas nunca faltam necessidades, sobretudo a mim, que tenho de sustentar filhas alheias, ando vendendo um pouco de fio.

LUCRECIA. Alguma coisa há, como eu dizia! Estou em meu juízo: nunca enfias agulha sem puxar arado. Minha senhora, a velha, urdiu uma tela; precisa de fio, e tu precisas vendê-lo. Entra e espera aqui, que não haveis de desentender-vos.

ALISA. Com quem falas, Lucrecia?

LUCRECIA. Senhora, com aquela velha da cicatriz que costumava morar nos curtumes, na ladeira do rio.

ALISA. Agora a conheço menos ainda. Se me explicas o desconhecido pelo menos conhecido, é carregar água em cesto.

LUCRECIA. Jesus, senhora! Esta velha é mais conhecida que arruda. Não sei como não te lembras daquela que puseram no pelourinho por feiticeira, que vendia moças aos abades e desfazia mil casamentos.

ALISA. Que ofício tem? Talvez assim a reconheça melhor.

LUCRECIA. Senhora, perfuma toucas, faz cosméticos e outros trinta ofícios. Conhece muito de ervas, cura crianças, e alguns até a chamam de velha lapidária.

ALISA. Nada disso me faz reconhecê-la. Diz-me o nome, se sabes.

LUCRECIA. Se sei, senhora? Não há criança nem velho em toda a cidade que não saiba. Havia eu de ignorá-lo?

ALISA. Então por que não o dizes?

LUCRECIA. Tenho vergonha.

ALISA. Anda, tola, diz. Não me irrites com tua demora.

LUCRECIA. Celestina, com o devido respeito, é o nome dela.

ALISA. Ai, ai, ai! Má peste te mate, se consigo conter o riso vendo o desafeto que deves ter por essa velha, já que tens vergonha de pronunciar seu nome! Agora vou me lembrando. Uma bela peça! Não digas mais. Alguma coisa virá pedir-me. Manda-a subir.

LUCRECIA. Sobe, tia.

CELESTINA. Boa senhora, a graça de Deus seja contigo e com tua nobre filha. Minhas paixões e doenças impediram-me de visitar tua casa como devia; mas Deus conhece minhas entranhas limpas e meu verdadeiro amor, pois a distância das moradas não separa o querer dos corações. Assim, a necessidade me fez cumprir o que tanto desejava. Entre outras fortunas adversas, sobreveio-me falta de dinheiro. Não achei melhor remédio que vender um pouco de fio que havia juntado para umas touquinhas. Soube por tua criada que precisavas dele. Embora pobre, mas não privada da graça de Deus, aqui o tens, se quiseres servir-te dele e de mim.

ALISA. Honrada vizinha, tua fala e teu oferecimento movem-me à compaixão, tanto que preferia encontrar-me em tempo de suprir tua falta a reduzir minha tela. Agradeço o que disseste. Se o fio for bom, será bem pago.

CELESTINA. Bom, senhora? Que assim sejam minha vida e minha velhice, e a de quem quiser parte de meu juramento. Fino como cabelo, uniforme, forte como cordas de vihuela, branco como floco de neve, todo fiado por estes polegares, enrolado e preparado. Aqui está, em pequenas meadas. Ontem me davam três moedas pela onça, assim eu goze desta alma pecadora.

ALISA. Filha Melibea, fique esta mulher honrada contigo. Já me parece tarde para visitar minha irmã, mulher de Cremes, que desde ontem não vejo; e também chegou seu pajem para chamar-me, pois há pouco o mal dela se agravou.

CELESTINA. (À parte.) Por aqui anda o diabo preparando a ocasião, agravando o mal da outra. Vamos, bom amigo, segura firme! Agora é minha hora ou nunca. Não a deixes; leva-a daqui, àquela de quem falo.

ALISA. Que dizes, amiga?

CELESTINA. Senhora, digo que malditos sejam o diabo e meu pecado, porque justamente agora o mal de tua irmã teve de crescer e não haverá oportunidade para nosso negócio. E que doença é a dela?

ALISA. Dor no lado, tão forte que, pelo que soube do rapaz ao deixá-la, temo que seja mortal. Roga tu, vizinha, por meu amor, em tuas devoções, a Deus por sua saúde.

CELESTINA. Prometo-te, senhora, que, saindo daqui, irei por esses mosteiros onde tenho frades devotos meus e lhes darei o mesmo encargo que me dás. Além disso, antes de quebrar o jejum, darei quatro voltas em minhas contas.

ALISA. Melibea, contenta a vizinha em tudo o que for razoável dar-lhe pelo fio. E tu, madre, perdoa-me; outro dia haverá em que nos vejamos mais.

CELESTINA. O perdão sobra onde não houve erro. Deus te perdoe e acompanhe, pois boa companhia me fica. Que Deus lhe deixe gozar sua nobre juventude e florida mocidade, tempo em que se alcançam mais prazeres e maiores deleites. Porque, por minha fé, a velhice não é senão estalagem de doenças, pousada de pensamentos, amiga de rixas, angústia contínua, chaga incurável, mancha do passado, pena do presente, triste cuidado do porvir, vizinha da morte, choça sem ramos por onde chove de toda parte, bastão de vime que se dobra com pouca carga.

MELIBEA. Por que dizes tanto mal, madre, daquilo que todo o mundo deseja com tanto empenho alcançar e ver?

CELESTINA. Desejam muito mal para si, desejam muito trabalho. Desejam chegar lá porque, chegando, vivem; viver é doce e, vivendo, envelhecem. Assim a criança deseja ser moça; a moça, velha; e a velha deseja mais, ainda que com dor. Tudo por viver. Porque, como dizem, viva a galinha, ainda que com sua pevide. Mas quem poderia contar-te, senhora, os danos, inconvenientes, fadigas, cuidados, doenças, frio, calor, descontentamento, rixa, tristeza? Aquele enrugar da face, aquele perder dos cabelos sua primeira e fresca cor, aquele ouvir pouco, aquele ver debilitado, com os olhos sempre à sombra; o afundar da boca, o cair dos dentes, a falta de força, o andar fraco, o comer devagar. E ai, ai, senhora, se tudo isso vem acompanhado de pobreza! Então verás calarem-se todos os outros trabalhos, quando sobra a vontade e falta a provisão. Nunca senti pior empanzinamento que o de fome.

MELIBEA. Bem sei que cada um fala da feira conforme lhe foi nela. Outra canção cantarão os ricos.

CELESTINA. Senhora, filha, por toda parte há três léguas de sofrimento. Aos ricos escapam a bem-aventurança, a glória e o descanso por outros escoadouros de ciladas, invisíveis porque revestidos de lisonjas. Rico é aquele que está bem com Deus. Mais seguro é ser desprezado que temido. Dorme melhor o pobre que aquele que precisa guardar com cuidado o que ganhou com trabalho e há de deixar com dor. Meu amigo não será fingido; o do rico, sim. Eu sou querida por mim mesma; o rico, por sua fazenda. Nunca ouve a verdade; todos lhe falam lisonjas ao sabor de seu paladar; todos o invejam. Dificilmente encontrarás um rico que não confesse que melhor lhe seria viver em estado mediano ou honesta pobreza. As riquezas não fazem o rico, mas o ocupado; não fazem senhor, mas mordomo. Mais são os possuídos pelas riquezas que os que as possuem. A muitos trouxeram a morte; a todos tiram o prazer; e nada é mais contrário aos bons costumes. Não ouviste dizer: “Dormiram seu sono os homens das riquezas e nada encontraram em suas mãos”? Cada rico tem uma dúzia de filhos e netos que não rezam outra oração nem fazem outro pedido senão que Deus o tire do meio deles. Não veem a hora de tê-lo sob a terra e o que é dele em suas mãos, dando-lhe a pouca custa sua morada eterna.

MELIBEA. Madre, se é assim, grande pena terás pela idade que perdeste. Quererias voltar à primeira?

CELESTINA. Louco é, senhora, o caminhante que, aborrecido pelo trabalho do dia, quisesse voltar ao começo da jornada para percorrer outra vez o mesmo caminho. Todas as coisas cuja posse não é agradável é melhor possuí-las que esperá-las, pois o fim está mais próximo quanto mais distante ficou o começo. Não há coisa mais doce e graciosa para o muito cansado que a estalagem. Assim, embora a juventude seja alegre, o verdadeiro velho não a deseja. Quem carece de razão e juízo quase nada ama senão o que perdeu.

MELIBEA. Ao menos para viver mais, é bom desejar o que digo.

CELESTINA. Tão depressa vai o cordeiro quanto o carneiro, senhora. Ninguém é tão velho que não possa viver mais um ano, nem tão moço que não possa morrer hoje. Nisso pouca vantagem nos levais.

MELIBEA. Espantada me deixaste com o que falaste. Tuas razões dão indício de que te vi em outro tempo. Diz-me, madre: és Celestina, aquela que morava nos curtumes, junto ao rio?

CELESTINA. Até quando Deus quiser.

MELIBEA. Envelheceste. Bem dizem que os dias não passam em vão. Assim eu goze de mim, não te reconheceria, não fosse essa pequena marca no rosto. Parece-me que eras formosa. Pareces outra, estás muito mudada.

LUCRECIA. Ai, ai, ai! Mudado está o diabo! Formosa era ela com aquele “Deus vos salve” atravessando-lhe metade da cara!

MELIBEA. Que falas, louca? Que dizes? De que ris?

LUCRECIA. De como não reconheceste a madre, em tão pouco tempo, pela fisionomia do rosto.

MELIBEA. Dois anos não são tão pouco tempo, e ela está mais enrugada.

CELESTINA. Senhora, segura tu o tempo para que não ande, e eu segurarei minha forma para que não mude. Não leste que virá o dia em que não te reconhecerás no espelho? Além disso, encaneci cedo e pareço ter o dobro da idade. Assim eu goze desta alma pecadora e tu desse corpo gracioso, das quatro filhas que minha mãe pariu, fui a menor. Vê como não sou velha como me julgam.

MELIBEA. Celestina, amiga, alegrei-me muito em ver-te e reconhecer-te. Também me deste prazer com tuas razões. Toma teu dinheiro e vai com Deus, pois me parece que ainda não comeste.

CELESTINA. Oh, imagem angélica! Oh, pérola preciosa, como bem o dizes! Alegro-me de ouvir-te falar. Não sabes que pela boca divina foi dito contra o tentador infernal que nem só de pão viveremos? Assim é: não é apenas o comer que sustenta. Sobretudo a mim, que costumo passar um ou dois dias em jejum, tratando de encargos alheios, só para fazer o bem aos bons e morrer por eles. Sempre tive isto: preferir trabalhar servindo aos outros a descansar contentando a mim mesma. Se me deres licença, direi a causa necessária de minha vinda, que é outra além da que ouviste até agora e tal que todos perderíamos se eu voltasse em vão sem que a soubesses.

MELIBEA. Diz, madre, todas as tuas necessidades. Se eu puder remediá-las, de muito boa vontade o farei, pelo antigo conhecimento e pela vizinhança, que obriga os bons.

CELESTINA. Minhas, senhora? Antes alheias, como disse. As minhas passo dentro de minha porta sem que a terra as sinta, comendo quando posso, bebendo quando tenho. Em minha pobreza, graças a Deus, jamais me faltou uma branca para o pão e um quarto para o vinho, desde que enviuvei. Antes disso, eu nem precisava procurar, pois sempre havia um odre cheio em casa e outro vazio. Jamais me deitei sem comer uma torrada embebida em vinho e duas dúzias de goles, pelo amor de Nossa Senhora, depois de cada sopa. Agora, como tudo depende de mim, trazem-me o vinho num jarrinho mal remendado que não comporta dois cântaros. Seis vezes por dia tenho de sair, por meus pecados, com estas cãs às costas, para enchê-lo na taverna. Mas eu não morra enquanto não me veja com um odre ou uma pequena talha dentro de minhas portas. Por minha alma, não há outra provisão, pois, como dizem, pão e vinho fazem o caminho, não o moço galante. Onde não há varão, todo bem falta; mal vai o fuso quando a barba não anda por cima. Vim a isto, senhora, por falar das necessidades alheias, não das minhas.

MELIBEA. Pede o que quiseres, seja para quem for.

CELESTINA. Donzela graciosa e de alta linhagem, tua fala suave e teu gesto alegre, unidos à disposição para a liberalidade que mostras a esta pobre velha, dão-me ousadia para dizer-te. Deixo um enfermo às portas da morte, que tem por fé que sarará com uma só palavra saída de tua nobre boca, palavra que eu leve escondida em meu seio, tamanha é a devoção que tem por tua gentileza.

MELIBEA. Velha honrada, não te entendo, se não declaras melhor teu pedido. Por um lado me alteras e provocas à ira; por outro me moves à compaixão. Não saberia dar-te resposta conveniente, tão pouco compreendi de tua fala. Feliz serei, se de minha palavra houver necessidade para a saúde de algum cristão. Fazer benefício é assemelhar-se a Deus; e quem o dá também o recebe, quando o faz a pessoa digna dele. Além disso, dizem que quem pode curar o que padece e não o faz é como se o matasse. Portanto, não interrompas teu pedido por embaraço ou temor.

CELESTINA. Perdi o temor, senhora, contemplando tua beleza. Não posso crer que Deus tenha pintado em vão uns rostos mais perfeitos que outros, mais dotados de graças e de feições formosas, senão para fazê-los armazéns de virtudes, misericórdia e compaixão, ministros de suas mercês e dádivas, como a ti. E, sendo todos humanos, nascidos para morrer, pode-se dizer que não nasceu aquele que nasceu somente para si, pois seria semelhante aos animais brutos, entre os quais há alguns piedosos. Diz-se do unicórnio que se humilha diante de qualquer donzela. O cão, com todo seu ímpeto e ferocidade, quando vem morder, não faz mal a quem se deita no chão, e isto por piedade. E as aves? O galo não come coisa alguma sem partilhá-la e chamar as galinhas. O pelicano rasga o peito para alimentar os filhos com as próprias entranhas. As cegonhas sustentam os pais velhos no ninho durante o mesmo tempo em que foram alimentadas por eles quando pequenas. Pois, se a natureza deu tamanho entendimento aos animais e às aves, por que nós, homens, havemos de ser mais cruéis? Por que não repartiremos nossas graças e nossas pessoas com o próximo, sobretudo quando está envolvido em doenças secretas e tais que, de onde vem o remédio, nasceu também a causa da doença?

MELIBEA. Por Deus, sem mais demora, diz-me quem é esse doente que sofre de mal tão perplexo, cuja paixão e remédio saem da mesma fonte.

CELESTINA. Bem deves ter notícia nesta cidade, senhora, de um jovem cavaleiro, gentil-homem de sangue ilustre, chamado Calisto.

MELIBEA. Basta, basta, basta! Boa velha, não digas mais, não prossigas. É esse o doente por quem fizeste tantos preâmbulos em teu pedido? Por quem vieste buscar a morte? Por quem deste passos tão danosos, barbuda sem-vergonha? Que sente esse perdido, para vires com tamanha paixão? Loucura será seu mal. Que te parece? Se me encontrasses sem suspeita desse louco, com que palavras não me entrarias! Não se diz em vão que o membro mais perigoso do homem ou da mulher má é a língua. Queimada sejas, falsa alcoviteira, feiticeira, inimiga da honestidade, causadora de erros secretos! Jesus, Jesus! Tira-a de diante de mim, Lucrecia, que desfaleço! Não me deixou uma gota de sangue no corpo! Isto e mais merece quem dá ouvidos a semelhantes criaturas. Por certo, se não cuidasse de minha honestidade e não quisesse ocultar a ousadia desse atrevido, eu faria, malvada, que tua fala e tua vida acabassem ao mesmo tempo.

CELESTINA. (À parte.) Em má hora vim aqui, se meu conjuro me faltar! Vamos, eu sei a quem falo. Ei, irmão, tudo vai perder-se!

MELIBEA. Ainda resmungas diante de mim, para aumentar minha ira e dobrar tua pena? Queres condenar minha honestidade para dar vida a um louco? Deixar-me triste para alegrá-lo e levares o proveito de minha perdição, o galardão de meu erro? Hei de destruir a casa e a honra de meu pai para aumentar a de uma velha maldita como tu? Pensas que não percebi teus passos e não entendi tua mensagem danosa? Pois te asseguro que as boas-novas que daqui levarás serão apenas estas: impedir-te de ofender mais a Deus, dando fim a teus dias. Responde-me, traidora, como ousaste fazer tanto?

CELESTINA. Teu temor, senhora, ocupa minha defesa. Minha inocência me dá ousadia; tua figura irada me perturba. O que mais sinto e me dói é receber afronta sem motivo. Por Deus, senhora, deixa-me concluir o que dizia. Nem ele ficará culpado nem eu condenada. Verás que tudo é mais serviço de Deus que passo desonesto; mais para dar saúde ao enfermo que para ferir a fama do médico. Se eu pensasse, senhora, que tão depressa tirarias do que passou suspeitas nocivas, nem tua licença me teria dado ousadia de falar em coisa que tocasse a Calisto ou a outro homem.

MELIBEA. Jesus! Não me deixes ouvir outra vez o nome desse louco, pula-muros, fantasma noturno, comprido como cegonha, figura de tapeçaria malpintada, ou aqui cairei morta. Este é o que me viu outro dia e começou a desvairar comigo em palavras, fazendo-se de grande galã! Dir-lhe-ás, boa velha, que, se pensou que tudo já era seu e que o campo lhe ficava livre porque preferi tolerar suas tolices a castigar seu erro, eu quis antes deixá-lo passar por louco que publicar sua grande ousadia. Avisa-o de que se aparte deste propósito, que será melhor para sua saúde. Do contrário, talvez descubra que nunca comprou fala tão cara em sua vida. Saiba que só é vencido quem se crê vencido; eu fiquei bem segura e ele, ufano. Dos loucos é julgar todos os outros de sua condição. E tu, volta com a mesma razão que trouxeste. Não terás de mim outra resposta, nem a esperes. É inútil rogar a quem não pode ter misericórdia. Dá graças a Deus por saíres tão livre desta feira. Bem me haviam dito quem eras e avisado de tuas propriedades, embora agora eu não te reconhecesse.

CELESTINA. (À parte.) Mais forte estava Troia, e outras mais bravas já amansei. Nenhuma tempestade dura muito.

MELIBEA. Que dizes, inimiga? Fala para que eu ouça. Tens alguma desculpa que satisfaça minha ira e excuse teu erro e tua ousadia?

CELESTINA. Enquanto viver tua ira, mais dano fará à minha defesa. Estás muito rigorosa, e não me admiro: sangue novo precisa de pouco calor para ferver.

MELIBEA. Pouco calor? Podes chamar pouco, se tu ficaste viva e eu ofendida depois de tamanha ousadia? Que palavra podias querer para tal homem que me conviesse? Responde, já que dizes não ter concluído. Talvez assim pagues o que passou!

CELESTINA. Uma oração, senhora, que lhe disseram que sabias, de santa Apolônia, para dor de dentes. E também teu cordão, que, segundo a fama, tocou todas as relíquias de Roma e Jerusalém. Aquele cavaleiro de quem falei pena e morre de dor de dentes. Esta foi minha vinda. Mas, já que minha sorte era receber tua resposta irada, padeça ele sua dor como paga por procurar mensageira tão desgraçada. Se em tua muita virtude me faltou piedade, também me faltaria água se me mandassem ao mar. Mas sabes que o deleite da vingança dura um momento, e o da misericórdia, para sempre.

MELIBEA. Se era isso que querias, por que não o disseste logo claramente? Por que falaste em tão poucas palavras?

CELESTINA. Senhora, porque minha intenção limpa me fez crer que, mesmo dizendo menos, não haveria suspeita de mal. Se faltou o devido preâmbulo, foi porque a verdade não precisa cobrir-se de muitas cores. A compaixão pela dor dele e a confiança em tua magnificência sufocaram em minha boca, no princípio, a explicação da causa. Sabes, senhora, que a dor perturba; a perturbação desmanda e altera a língua, que deveria estar sempre presa ao juízo. Por Deus, não me culpes. E, se ele cometeu outro erro, não recaia o dano sobre mim, pois não tenho culpa além de ser mensageira do culpado. Não se rompa a corda pela parte mais fina. Não sejas como a teia de aranha, que só mostra sua força contra os animais fracos. Não paguem os justos pelos pecadores. Imita a justiça divina, que disse: “A alma que pecar, essa mesma morrerá”; e a justiça humana, que nunca condena o pai pelo delito do filho nem o filho pelo delito do pai. Não é justo, senhora, que a ousadia dele acarrete minha perdição. Embora, segundo o merecimento dele, eu não teria por grande coisa que fosse ele o delinquente e eu a condenada. Meu ofício não é outro senão servir aos semelhantes. Disto vivo e disto me honro. Nunca foi minha vontade irritar uns para agradar a outros, ainda que tenham dito outra coisa a tua mercê em minha ausência. Afinal, senhora, o vento do vulgo não fere a verdade firme. Sou única neste trato limpo. Em toda a cidade, poucos tenho descontentes. Cumpro com todos os que me mandam alguma coisa como se tivesse vinte pés e outras tantas mãos.

MELIBEA. Não me admiro, pois dizem que um só mestre de vícios basta para corromper uma grande cidade. Por certo, tantos e tais louvores me fizeram de tuas falsas manhas que não sei se creio que pedias oração.

CELESTINA. Que eu nunca a reze e, se a rezar, não seja ouvida, caso se possa tirar de mim outra coisa, ainda que me deem mil tormentos.

MELIBEA. Minha alteração passada impede-me de rir de tua desculpa. Bem sei que nem juramento nem tormento te obrigará a dizer a verdade, pois não está em tua mão.

CELESTINA. És minha senhora. Tenho de calar-me, hei de servir-te, hás de mandar-me. Tua má palavra será véspera de um vestido.

MELIBEA. Bem o mereceste.

CELESTINA. Se não o ganhei com a língua, não o perdi pela intenção.

MELIBEA. Tanto afirmas tua inocência que me fazes crer no que pode ser. Quero, pois, deixar suspensa a sentença sobre tua duvidosa desculpa e não decidir teu pedido ao sabor de interpretação ligeira. Não tenhas por muito nem te espantes de minha alteração passada, porque em tua fala concorreram duas coisas, e qualquer delas bastava para tirar-me do juízo: nomeares esse teu cavaleiro, que se atreveu a falar comigo, e pedires uma palavra sem declarar a causa, de modo que só se podia suspeitar dano à minha honra. Mas, já que tudo vem por boa parte, fique perdoado o passado. De algum modo meu coração se alivia ao ver que é obra piedosa e santa curar os apaixonados e enfermos.

CELESTINA. E que enfermo, senhora! Por Deus, se o conhecesses bem, não o julgarias como disseste e mostraste em tua ira. Por Deus e por minha alma, não tem fel. Graças, duas mil. Em liberalidade, Alexandre; em coragem, Heitor; rosto de rei; gracioso e alegre; nunca reina nele a tristeza. De sangue nobre, como sabes. Grande justador: vê-lo armado é ver um São Jorge. Força e valentia, nem Hércules teve tanta. Para contar sua figura, suas feições, disposição e desembaraço, outra língua seria necessária. Tudo junto parece anjo do céu. Tenho por fé que não era tão formoso aquele gentil Narciso que se enamorou da própria imagem quando a viu nas águas da fonte. E agora, senhora, uma única dor de dente o derruba, e jamais cessa de queixar-se.

MELIBEA. E há quanto tempo?

CELESTINA. Deve ter, senhora, uns vinte e três anos. Aqui está Celestina, que o viu nascer e o recebeu aos pés de sua mãe.

MELIBEA. Não pergunto isso, nem preciso saber sua idade, mas há quanto tempo tem o mal.

CELESTINA. Senhora, oito dias, que em sua fraqueza parecem um ano. O maior remédio que tem é tomar uma vihuela e tocar canções tão dolorosas que não creio que fossem outras as compostas por aquele imperador e grande músico Adriano, sobre a partida da alma, para suportar sem desmaio a morte já próxima. Embora eu saiba pouco de música, parece que faz a vihuela falar. Se por acaso canta, as aves param com mais vontade para ouvi-lo que para ouvir aquele antigo de quem se diz que movia árvores e pedras com seu canto. Se este tivesse nascido antes, não teriam louvado Orfeu. Vê, senhora, se uma pobre velha como eu não se achará feliz por dar vida a quem tem tais graças. Nenhuma mulher o vê sem louvar a Deus por tê-lo pintado assim. E, se por acaso ele lhe fala, ela já não é senhora de si, mas faz o que ele ordena. Tendo eu tamanha razão, julga, senhora, por bom meu propósito, por salutares meus passos e vazios de suspeita.

MELIBEA. Como me pesa a falta de paciência! Sendo ele ignorante e tu inocente, padecestes as alterações de minha língua irada. Mas a muita razão me alivia da culpa, pois tua fala suspeitosa a causou. Como paga por tua boa paciência, quero cumprir teu pedido e dar-te agora meu cordão. E, como não haverá tempo de escrever a oração antes que minha mãe volte, se isto não bastar, vem amanhã buscá-la, muito secretamente.

LUCRECIA. (À parte.) Pronto, minha senhora está perdida! Quer que Celestina venha secretamente? Há fraude! Vai querer dar-lhe mais que o prometido!

MELIBEA. Que dizes, Lucrecia?

LUCRECIA. Senhora, digo que basta o que foi dito; já é tarde.

MELIBEA. Madre, não contes àquele cavaleiro o que se passou, para que não me tenha por cruel, precipitada ou desonesta.

LUCRECIA. (À parte.) Não minto: mal vai este negócio!

CELESTINA. Muito me admira, senhora Melibea, que duvides de meu segredo. Não temas. Sei suportar e encobrir tudo. Bem vejo que tua muita suspeita lançou minhas palavras, como costuma, para a interpretação mais triste. Vou tão alegre com teu cordão que me parece que o coração dele já lhe anuncia a mercê que nos fizeste e que hei de encontrá-lo aliviado.

MELIBEA. Mais farei por teu doente, se necessário, em paga do que sofreste.

CELESTINA. Mais será necessário e mais farás, ainda que não te agradeçam.

MELIBEA. Que dizes, madre, sobre agradecer?

CELESTINA. Digo, senhora, que todos agradecemos e serviremos e todos ficamos obrigados, pois a paga é tanto mais certa quanto mais se tem de cumprir.

LUCRECIA. Vira-me essas palavras do avesso!

CELESTINA. Filha Lucrecia, ei! Vai à minha casa e te darei uma lixívia que deixará esses cabelos mais dourados que o ouro. Não digas à tua senhora. Também te darei uns pós para tirar esse cheiro da boca, que te cheira um pouco; não há outra no reino que saiba fazê-los, e não há coisa que assente pior numa mulher.

LUCRECIA. Oh, Deus te dê boa velhice! Eu precisava mais disso tudo que de comer.

CELESTINA. Então por que murmuras contra mim, louquinha? Cala, que não sabes se precisarás de mim em coisa mais importante. Não provoques a ira de tua senhora além do que já esteve. Deixa-me partir em paz.

MELIBEA. Que lhe dizes, madre?

CELESTINA. Senhora, nós nos entendemos.

MELIBEA. Diz-me, que me irrito quando, diante de mim, se fala de coisa em que não tomo parte.

CELESTINA. Senhora, digo-lhe que te recorde a oração, para que mandes escrevê-la, e que aprenda comigo a guardar medida no tempo de tua ira. Fiz o que diz o provérbio: do irado, afastar-se por pouco tempo; do inimigo, por muito. Tu, senhora, estavas irada com o que suspeitaste de minhas palavras, não inimiga. Ainda que elas fossem o que imaginaste, não seriam más em si, pois todos os dias há homens penando por mulheres e mulheres por homens. Isto obra a natureza; a natureza foi ordenada por Deus; e Deus não fez coisa má. Assim meu pedido, como quer que fosse, permanecia louvável em si, por proceder de tal tronco, e eu livre de pena. Dir-te-ia mais razões, não fosse a prolixidade aborrecer quem ouve e prejudicar quem fala.

MELIBEA. Em tudo tiveste bom tino, tanto falando pouco em minha ira quanto suportando muito.

CELESTINA. Senhora, suportei com temor porque te iraste com razão. A ira habitando junto ao poder não é senão raio. Por isso aguentei tua fala rigorosa até que teu armazém se esvaziasse.

MELIBEA. Esse cavaleiro fica a teu encargo.

CELESTINA. Senhora, ele merece mais. E, se com meu pedido consegui alguma coisa para ele, com a demora hei de prejudicá-lo. Parto para vê-lo, se me dás licença.

MELIBEA. Quanto mais cedo a tivesses pedido, com mais gosto a terias recebido. Vai com Deus. Tua mensagem não me trouxe proveito, nem tua partida pode causar-me dano.

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