Nono Auto A Celestina · Capítulo 11 de 25
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Nono Auto

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Argumento do Nono Auto

Sempronio e Pármeno vão para a casa de Celestina, conversando entre si. Ao chegarem, encontram Elicia e Areúsa. Sentam-se para comer. Durante a refeição, Elicia briga com Sempronio e se levanta da mesa. Tornam a acalmá-la. Enquanto todos conversam, chega Lucrecia, criada de Melibea, para chamar Celestina, a fim de que vá ter com sua senhora.

SEMPRONIO, PÁRMENO, ELICIA, CELESTINA, AREÚSA, LUCRECIA

SEMPRONIO: Desce, Pármeno, nossas capas e espadas, se te parece que já é hora de irmos comer.

PÁRMENO: Vamos depressa. Creio que já se queixarão de nossa demora. Não por essa rua, mas pela outra, para entrarmos na igreja e vermos se Celestina terminou suas devoções. Levaremos a velha conosco.

SEMPRONIO: Bela hora para estar rezando!

PÁRMENO: Não se pode chamar fora de hora o que pode ser feito a qualquer hora.

SEMPRONIO: É verdade, mas conheces mal Celestina. Quando tem negócios, não se lembra de Deus nem cuida de santidades. Quando há osso para roer em casa, os santos passam bem sem ela; quando vai à igreja com o rosário na mão, é porque falta comida em casa. Embora ela te tenha criado, conheço melhor suas qualidades que tu. O que conta nas contas do rosário são as virgindades que tem a cargo, quantos enamorados há na cidade, quantas moças lhe foram confiadas, quais despenseiros lhe dão ração, qual dá a melhor e como cada um se chama, para que, ao encontrá-los, não fale como estranha; e qual cônego é mais amigo de mouras e mais generoso. Quando mexe os lábios, está fabricando mentiras, armando cautelas para tirar dinheiro: “Por aqui entrarei; isto me responderá; aquilo replicarei.” Assim vive essa mulher a quem tanto honramos.

PÁRMENO: Sei mais do que isso. Só não quero falar porque te irritaste outro dia, quando eu disse a Calisto.

SEMPRONIO: Ainda que saibamos, usemos para nosso proveito, não publiquemos para nosso dano. Se nosso amo souber, há de enxergá-la como é e não querer mais saber dela. Abandonando-a, será forçado a procurar outra, de cujo trabalho não teremos parte, ao contrário desta, que de boa ou má vontade nos dará do que receber.

PÁRMENO: Falaste bem. Cala, que a porta está aberta. Ela está em casa. Bate antes de entrar, pois talvez estejam ocupadas e não queiram ser vistas assim.

SEMPRONIO: Entra, não te preocupes, que somos todos da casa. Já estão pondo a mesa.

CELESTINA: Ah, meus enamorados, minhas pérolas de ouro! Que o ano me venha tão bom quanto me parece vossa chegada!

PÁRMENO, à parte: Que palavras tem a nobre senhora! Vês, irmão, estes afagos fingidos?

SEMPRONIO, à parte: Deixa-a, que disso vive. Não sei que diabos lhe ensinaram tanta velhacaria.

PÁRMENO: A necessidade, a pobreza e a fome. Não há melhor mestra no mundo, nem melhor despertadora e atiçadora do engenho. Quem ensinou pegas e papagaios a imitar nossa fala, com suas línguas fendidas, nosso órgão e nossa voz, senão a necessidade?

CELESTINA: Moças! Moças! Bobas! Descei depressa, que estão aqui dois homens querendo me forçar!

ELICIA: Antes nunca tivessem vindo! E que bela antecedência no convite! Minha prima está aqui há três horas. Esse preguiçoso de Sempronio deve ter causado a demora, pois não tem olhos para me ver.

SEMPRONIO: Cala, minha senhora, minha vida, meus amores. Quem serve a outro não é livre. Minha sujeição me livra da culpa. Não tenhamos briga; sentemo-nos para comer.

ELICIA: Sim, para sentar à mesa és muito diligente! Chegas à mesa posta, com as mãos lavadas e pouca vergonha.

SEMPRONIO: Depois brigaremos. Agora comamos. Senta-te primeiro, mãe Celestina.

CELESTINA: Sentai-vos vós, meus filhos, que há lugar para todos, graças a Deus. Tanto nos deem do paraíso quando lá chegarmos. Cada um fique ao lado da sua. Eu, que estou sozinha, porei ao meu lado este jarro e esta taça, pois minha vida não vai além do tempo que passo conversando com eles. Desde que envelheci, não conheço melhor ofício à mesa que servir o vinho. Quem trata com mel sempre fica lambuzado. E, nas noites de inverno, não há melhor aquecedor de cama. Com dois jarrinhos destes antes de deitar, não sinto frio a noite inteira. Com isto forro todos os meus vestidos quando chega o Natal; isto aquece meu sangue, conserva-me sempre igual, faz-me andar alegre, deixa-me fresca. Que eu veja isto sobrando em casa e nunca temerei ano ruim. Uma côdea de pão roída pelos ratos me basta por três dias. O vinho tira a tristeza do coração mais que ouro ou coral; dá coragem ao moço e força ao velho, põe cor no descorado, ânimo no covarde, diligência no preguiçoso, conforta o cérebro, expulsa o frio do estômago, tira o mau cheiro do hálito, torna potentes os frios, ajuda a suportar os trabalhos do campo, faz os ceifeiros cansados suarem toda água ruim, cura resfriado e dor de dentes e conserva-se no mar sem feder, coisa que a água não faz. Eu vos diria mais qualidades do vinho do que todos vós tendes cabelos. Não sei quem não se alegra só de ouvi-lo nomear. Tem apenas um defeito: o bom custa caro e o ruim faz mal. Assim, o que cura o fígado adoece a bolsa. Mesmo assim, com meu trabalho procuro sempre o melhor para esse pouquinho que bebo: apenas uma dúzia de vezes a cada refeição. Ninguém me fará passar disso, salvo quando sou convidada, como hoje.

PÁRMENO: Mãe, todos os autores dizem que três vezes é bom e honesto.

CELESTINA: Filhos, a letra deve estar corrompida: escreveram três onde era treze.

SEMPRONIO: Tia senhora, tudo nos sabe bem. Comamos e falemos, pois depois não haverá tempo para tratar dos amores daquele perdido de nosso amo e da graciosa e gentil Melibea.

ELICIA: Afasta-te de mim, insosso, irritante! Mau proveito te faça o que comes! Bela refeição me deste. Por minha alma, quero vomitar tudo o que tenho no corpo, de asco por te ouvir chamar aquela de gentil. Vede quem é gentil! Jesus, Jesus! Que nojo e raiva ver tua pouca vergonha! Gentil quem? Deus me castigue se ela é gentil ou tem parte nisso. Há olhos que gostam de remela. Quero me benzer de tua tolice e falta de discernimento. Ah, se eu tivesse ânimo para discutir contigo a beleza e gentileza dela! Melibea, gentil? Será gentil no dia em que os Dez Mandamentos andarem aos pares. Aquela beleza compra-se por uma moeda na loja. Conheço, na rua onde ela mora, quatro donzelas a quem Deus deu mais graça que a Melibea. Se tem alguma beleza, deve-a aos bons adornos que veste. Põe esses adornos num pau e também direis que é gentil. Por minha vida, não digo para me elogiar, mas creio ser tão formosa quanto vossa Melibea.

AREÚSA: Tu não a viste como eu, irmã. Deus me peça contas se, encontrando-a em jejum, conseguisses comer naquele dia, de tamanho asco. Passa o ano encerrada, aplicando no rosto emplastros de mil sujeiras. Para sair uma vez onde possa ser vista, besunta a cara com fel e mel, torradas, figos passados e outras coisas que, por respeito à mesa, deixo de dizer. As riquezas fazem essas mulheres parecer belas e merecer elogios, não as graças do corpo. Assim eu goze de mim: para uma donzela, tem os seios como se tivesse parido três vezes. Parecem duas grandes abóboras. Não lhe vi o ventre, mas, julgando pelo resto, creio que o tem tão flácido quanto uma velha de cinquenta anos. Não sei o que Calisto viu nela para deixar de amar outras, mais fáceis de alcançar e com quem teria mais prazer. Mas o gosto corrompido muitas vezes julga doce o amargo.

SEMPRONIO: Irmã, parece-me que aqui cada mascate elogia suas agulhas. Pela cidade corre o contrário do que dizes.

AREÚSA: Nada está mais longe da verdade que a opinião do povo. Nunca viverás alegre se te guiares pela vontade de muitos. Estas são conclusões verdadeiras: tudo o que o vulgo pensa é vaidade; tudo o que fala, falsidade; o que reprova é bondade; o que aprova, maldade. Sendo este seu costume mais certo, não julgues que a bondade e beleza de Melibea sejam as que afirmas só porque todos dizem.

SEMPRONIO: Senhora, o povo falador não perdoa os defeitos de seus superiores. Creio que, se Melibea tivesse algum, já o teriam descoberto aqueles que tratam com ela mais que nós. E, mesmo concedendo o que dizes, Calisto é cavaleiro e Melibea é fidalga. Os nascidos de linhagem escolhida procuram uns aos outros. Não admira que ele ame antes essa que outra.

AREÚSA: Vil é quem por vil se tem. São as obras que fazem a linhagem, pois afinal todos somos filhos de Adão e Eva. Procure cada qual ser bom por si e não vá buscar na nobreza dos antepassados a virtude que lhe falta.

CELESTINA: Filhos, por minha vida, cessem essas razões irritadas. E tu, Elicia, volta à mesa e deixa a raiva.

ELICIA: Volto para que me faça mal e eu rebente depois de comer. Havia de partilhar a mesa com esse malvado que, na minha cara, insiste que seu trapo de Melibea é mais gentil que eu?

SEMPRONIO: Cala, minha vida. Tu fizeste a comparação. Toda comparação é odiosa. A culpa é tua, não minha.

AREÚSA: Vem comer, irmã. Não dês agora esse prazer a estes loucos teimosos. Senão, também me levantarei.

ELICIA: A obrigação de te agradar me faz tolerar esse inimigo e praticar virtude com todos.

SEMPRONIO: He, he, he!

ELICIA: De que ris? Que um câncer maligno coma essa boca desgraçada e irritante!

CELESTINA: Não lhe respondas, filho, ou nunca acabaremos. Tratemos do que nos importa. Dizei-me: como ficou Calisto? Como o deixastes? Como ambos conseguistes escapar dele?

PÁRMENO: Foi para a maldição, cuspindo fogo, desesperado, perdido, meio louco, assistir à missa na Madalena e rogar a Deus que te dê graça para roeres bem os ossos destes frangos. Jurou não voltar para casa até ouvir que chegaste trazendo Melibea no bolso. Tua saia e teu manto, e até meu gibão, estão garantidos. O resto pode ir e vir. Quando dará, não sei.

CELESTINA: Seja quando for. Boas são mangas mesmo depois da Páscoa. Alegra tudo o que se ganha com pouco trabalho, sobretudo quando vem de onde faz tão pouca falta, de homem tão rico que eu poderia sair da miséria só com as sobras de sua casa. Aos tais não dói o que gastam, nem percebem por que dão. Embebidos no amor, não sentem, não veem, não ouvem. Julgo por outros que conheci, menos apaixonados e menos metidos nesse fogo que Calisto. Não comem nem bebem, não riem nem choram, não dormem nem vigiam, não falam nem calam, não sofrem nem descansam, não estão contentes nem se queixam, tal é a perplexidade daquela doce e feroz ferida no coração. E, se a necessidade natural os força a alguma dessas coisas, fazem-na tão esquecidos de si que, comendo, a mão esquece de levar a comida à boca. Se lhes falam, nunca devolvem resposta conveniente. Os corpos estão ali, mas os corações e sentidos estão com as amadas. Grande força tem o amor. Não atravessa só a terra, mas também os mares. Manda igualmente em todo gênero de homens. Quebra todas as dificuldades. É coisa ansiosa, temerosa, solícita, olha tudo ao redor. Se fostes bons enamorados, julgareis que digo verdade.

SEMPRONIO: Senhora, concordo inteiramente. Aqui está quem me fez andar algum tempo como outro Calisto: sem sentidos, corpo cansado, cabeça vazia, dormindo mal de dia, velando todas as noites, cantando alvoradas, fazendo momos, saltando muros, arriscando diariamente a vida, esperando touros, correndo cavalos, lançando barra e lança, cansando amigos, quebrando espadas, fazendo escadas, vestindo armas e outros mil atos de enamorado; compondo coplas, pintando motes, inventando divisas. Dou tudo por bem empregado, pois ganhei tal joia.

ELICIA: Pensas que me tens muito ganha! Pois te asseguro que mal viras a cabeça e já há em casa outro que amo mais, mais gracioso que tu e que não vive procurando como me irritar. Vens me ver uma vez por ano, tarde e mal.

CELESTINA: Filho, deixa-a falar, que delira. Quanto mais ouvires isso, mais se confirma o amor dela. Tudo é porque elogiaste Melibea. Não sabe se vingar de outro modo. Creio que não vê a hora de acabar a comida para fazer o que bem sei. E conheço também a outra, sua prima. Gozai vossa fresca mocidade. Quem tem tempo e espera outro melhor acaba se arrependendo, como me arrependo agora de horas que deixei perder quando era moça, quando me estimavam e queriam. Agora, por meus pecados, estou caduca e ninguém me quer. Deus conhece meu bom desejo. Beijai-vos e abraçai-vos; a mim só resta alegrar-me vendo. Enquanto estiverdes à mesa, da cintura para cima tudo se perdoa. Quando ficardes a sós, não porei limite, pois nem o rei põe. Sei pelas moças que nunca vos acusam de importunos, e a velha Celestina mastigará de desejo, com as gengivas vazias, as migalhas da toalha. Deus vos abençoe! Como rides e folgais, putinhos, louquinhos, travessos! Nisto havia de acabar a nuvem das briguinhas que tivestes. Cuidado para não derrubardes a mesa!

ELICIA: Mãe, batem à porta. Acabou-se a festa!

CELESTINA: Vê quem é, filha. Talvez seja alguém que a aumente e prolongue.

ELICIA: Ou a voz me engana, ou é minha prima Lucrecia.

CELESTINA: Abre e que ela entre com bons anos. Ela também entende alguma coisa do que falamos, embora o grande encerramento lhe impeça o gozo da mocidade.

AREÚSA: Assim eu goze de mim, é verdade. As que servem senhoras não gozam deleite nem conhecem os doces prêmios do amor. Nunca convivem com parentes e iguais, com quem possam falar de tu para tu e perguntar: “Que comeste? Estás grávida? Quantas galinhas crias? Leva-me para merendar em tua casa. Mostra-me teu namorado. Há quanto tempo não te vê? Como vais com ele? Quem são tuas vizinhas?” e outras coisas semelhantes entre iguais. Ah, tia, que nome duro, grave e soberbo é “senhora”, sempre na boca! Por isso vivo por minha conta desde que me conheço. Nunca me orgulhei de pertencer a outra pessoa, mas de ser minha. Sobretudo com essas senhoras de agora. Gasta-se com elas o melhor da vida e pagam dez anos de serviço com uma saia rasgada que já não querem. Trazem as criadas insultadas, maltratadas, sempre submetidas, sem ousarem falar diante delas. Quando se aproxima o tempo em que deveriam casá-las, inventam uma intriga: dizem que se deitaram com o criado ou com o filho da casa, que provocaram ciúmes no marido, meteram homens dentro de casa, roubaram a taça ou perderam o anel. Dão-lhes cem açoites e põem-nas para fora, com as saias sobre a cabeça: “Vai embora, ladra, puta, não destruirás minha casa e minha honra.” Esperam recompensa e recebem afronta; esperam sair casadas e saem desonradas; esperam vestidos e joias de casamento e saem nuas e insultadas. Estes são os prêmios, benefícios e pagamentos. Devem dar-lhes marido, mas tiram-lhes até a roupa. A maior honra que têm naquelas casas é andar como mensageiras de rua, de uma senhora para outra, carregando recados. Nunca ouvem o próprio nome na boca delas, mas “puta para cá, puta para lá”. “Onde vais, tinheta? Que fizeste, velhaca? Por que comeste isso, gulosa? Como esfregaste a frigideira, porca? Por que não limpaste o manto, suja? Como disseste isso, tola? Quem perdeu o prato, desleixada? Onde está a toalha, ladra? Deves ter dado a teu rufião. Vem cá, má mulher. A galinha malhada sumiu: procura depressa, ou desconto do primeiro vintém de teu salário.” E depois vêm tamancadas, beliscões, pauladas e açoites. Ninguém sabe contentá-las, ninguém consegue suportá-las. Seu prazer é gritar, sua glória é brigar. Quanto melhor o serviço, menos contentamento mostram. Por isso, mãe, preferi viver em minha pequena casa, livre e senhora de mim, a viver submetida e cativa em ricos palácios.

CELESTINA: Estiveste em teu juízo e sabes o que fazes. Dizem os sábios que vale mais uma migalha de pão com paz que uma casa cheia de comida com discórdia. Mas paremos, pois Lucrecia entra.

LUCRECIA: Bom proveito vos faça, tia, e a toda a companhia. Deus abençoe tanta gente honrada.

CELESTINA: Tanta, filha? Achas isto muita gente? Bem se vê que não me conheceste em minha prosperidade, há vinte anos. Ai, quem me viu e quem me vê agora, não sei como não parte o coração de dor! Eu vi, meu amor, nesta mesa onde agora se sentam tuas primas, nove moças de tua idade, nenhuma com mais de dezoito anos nem menos de quatorze. O mundo é assim: passe, ande sua roda, girem seus alcatruzes, uns cheios, outros vazios. A lei da fortuna é que coisa alguma permaneça muito tempo no mesmo estado. Sua ordem é a mudança. Não consigo dizer sem lágrimas a grande honra que então tinha, embora, por meus pecados e má sorte, tenha diminuído pouco a pouco. À medida que meus dias declinavam, meu proveito minguava. Antigo provérbio diz que tudo no mundo cresce ou decresce. Tudo tem limites, tudo tem graus. Minha honra chegou ao cume, considerando quem eu era; necessariamente havia de descer. Ando perto do fim e nisso vejo que me resta pouca vida. Sei que subi para descer, floresci para secar, gozei para entristecer, nasci para viver, vivi para crescer, cresci para envelhecer, envelheci para morrer. Como já sabia disso, sofrerei meu mal com menos pena, embora não possa expulsar todo sentimento, pois sou feita de carne sensível.

LUCRECIA: Devias ter muito trabalho, mãe, com tantas moças. É gado difícil de guardar.

CELESTINA: Trabalho, meu amor? Antes descanso e alívio. Todas me obedeciam, honravam e respeitavam. Nenhuma saía de minha vontade. O que eu dizia era o certo, e a cada uma dava seu arranjo. Não escolhiam além do que eu mandava. Coxo, caolho ou manco, tinham por são aquele que me dava mais dinheiro. Meu era o proveito, delas o trabalho. E servidores, não os tinha por causa delas? Cavaleiros velhos e moços, clérigos de todas as dignidades, de bispos a sacristães. Quando eu entrava na igreja, via gorros caírem em minha honra como se eu fosse duquesa. Quem menos tratava comigo se tinha pelo mais vil. De meia légua, ao me avistarem, deixavam os livros de horas. Vinham um a um, dois a dois, perguntar se eu mandava alguma coisa e saber cada qual da sua. Havia homem que, celebrando missa, ao me ver entrar se perturbava e não fazia nem dizia coisa direita. Uns me chamavam senhora, outros tia, outros enamorada, outros velha honrada. Ali combinavam suas idas à minha casa e minhas idas à deles; ali me ofereciam dinheiro, promessas e dádivas, beijando a ponta de meu manto e alguns até meu rosto, para me manter contente. Agora a fortuna me trouxe a ponto de ouvires e dizeres apenas: “Bom proveito vos faça.”

SEMPRONIO: Deixas-nos espantados com o que contas dessa gente religiosa e dessas coroas benditas. Não seriam todos assim!

CELESTINA: Não, filho, nem Deus permita que eu levante tal acusação. Havia muitos velhos devotos com quem eu pouco lucrava e que nem podiam me ver, talvez por inveja dos outros que falavam comigo. Como o clero era grande, havia de tudo: alguns castíssimos, outros encarregados de sustentar mulheres de meu ofício. E creio que ainda não faltam. Mandavam escudeiros e criados me acompanhar e, mal eu chegava em casa, entravam por minha porta frangos e galinhas, gansos, patos, perdizes, rolas, pernils de toucinho, tortas de trigo, leitões. Cada qual, conforme recebia daqueles dízimos de Deus, vinha logo registrar sua parte em minha casa, para que eu e suas devotas comêssemos. E vinho? Não me sobrava do melhor da cidade, trazido de diversas partes: Monviedro, Luque, Toro, Madrigal, San Martín e muitos outros lugares? Ainda guardo na boca a diferença dos gostos e sabores, embora tenha esquecido a diversidade das terras. Já é muito que uma velha como eu, só pelo cheiro, diga de onde vem cada vinho. Outros curas, sem renda, mal recebiam o pão da oferta e, assim que o fiel beijava a estola, aquele pão vinha no primeiro voo para minha casa. Densos como pedras lançadas a um alvo, entravam meninos carregados de provisões por minha porta. Não sei como consigo viver depois de cair de tal estado.

AREÚSA: Por Deus, já que viemos ter prazer, não chores, mãe, nem te aflijas. Deus remediará tudo.

CELESTINA: Tenho muito que chorar, filha, lembrando de tempo tão alegre, da vida que tinha e de quanto todo o mundo me servia. Nunca apareceu fruta nova de que eu não provasse antes que os outros soubessem que tinha nascido. Em minha casa era onde se buscava, caso alguma grávida desejasse.

SEMPRONIO: Mãe, a memória do bom tempo não traz proveito quando não pode ser recuperado; traz tristeza, como agora, quando arrancaste o prazer de nossas mãos. Levante-se a mesa. Iremos folgar e tu responderás a essa donzela que veio procurar-te.

CELESTINA: Filha Lucrecia, deixando essas histórias, dize-me a razão de tua boa vinda.

LUCRECIA: Por certo, já tinha esquecido minha principal demanda e mensagem, ouvindo a memória desse tempo alegre. Eu ficaria um ano sem comer, escutando-te e imaginando a boa vida daquelas moças; parece até que estou vivendo nela. Minha vinda, senhora, é por algo que já sabes: pedir-te o cordão. Além disso, minha senhora roga que a visites muito depressa, pois sente grandes desmaios e dor no coração.

CELESTINA: Filha, nessas dorzinhas há mais ruído que nozes. Espanta-me que mulher tão moça se queixe do coração.

LUCRECIA, à parte: Que te arrastem, traidora! Não sabes o que é? A velha falsa faz seus feitiços, vai embora e depois se faz de surpreendida.

CELESTINA: Que dizes, filha?

LUCRECIA: Mãe, que vamos depressa e que me dês o cordão.

CELESTINA: Vamos, que eu mesma o levarei.

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