Auto décimo oitavo A Celestina · Capítulo 20 de 25
Obra Menu

Auto décimo oitavo

Auto décimo oitavo

Argumento do décimo oitavo auto

Elicia decide fazer as pazes entre Areúsa e Centurio, por ordem de Areúsa, e ambas vão à casa dele. Ali pedem que vingue em Calisto e Melibea as mortes ocorridas, e Centurio promete fazê-lo diante delas. Mas, como é natural em homens dessa espécie não cumprir o que prometem, ele procura desculpar-se, como se verá.

CENTURIO, ELICIA, AREÚSA.

ELICIA. Há alguém em casa?

CENTURIO. Rapaz, corre e vê quem ousa entrar sem bater à porta. Volta, volta, já vi quem é. Não cubras o rosto com o manto, senhora; já não podes esconder-te. Quando vi Elicia entrar à frente, soube que ela não podia trazer má companhia nem notícias que me entristecessem, mas somente coisas que me dariam prazer.

AREÚSA. Por minha vida, não entremos mais. O patife já se espicha todo, pensando que vim suplicar-lhe. Eu me alegraria mais vendo outras como ele do que vendo a nós duas. Voltemos, por Deus, porque morro só de olhar para essa cara ruim. Parece-te, irmã, que me conduzes por boas estações? É justo vir das vésperas e entrar na casa de um esfolador de rostos como esse?

ELICIA. Volta, por meu amor, não vás embora; do contrário, deixarás metade do manto em minhas mãos.

CENTURIO. Segura-a, por Deus, senhora! Segura-a para que não te escape.

ELICIA. Estou espantada, prima, com teu bom senso. Que homem existe tão louco e fora da razão que não goste de receber visitas, sobretudo de mulheres? Chega aqui, senhor Centurio. Pela salvação de minha alma, farei com que a abraces à força, e eu pagarei a fruta.

AREÚSA. Antes eu o veja nas mãos da justiça e morto pelos inimigos do que lhe conceda semelhante prazer. Já fez comigo o bastante para toda a vida! Por que carga d’água eu teria de abraçar ou sequer olhar para esse inimigo? Outro dia pedi que fizesse uma pequena viagem daqui, da qual dependia minha vida, e ele se recusou.

CENTURIO. Manda-me, senhora, coisa que eu saiba fazer, coisa do meu ofício. Um desafio contra três juntos, e, se vierem mais, não fugirei por teu amor. Matar um homem, cortar-lhe uma perna ou um braço, rasgar o rosto de alguma mulher que tenha ousado igualar-se a ti: essas coisas estarão feitas antes mesmo de serem encomendadas. Não me peças que viaje nem que te dê dinheiro, pois sabes que o dinheiro não para comigo; posso dar três saltos sem que me caia uma moeda branca. Ninguém dá o que não tem. Moro numa casa como vês, tão vazia que um pilão rolaria por ela inteira sem tropeçar. Os móveis que tenho são o enxoval da fronteira: um jarro sem bico e um espeto sem ponta. A cama em que durmo está armada sobre aros de broquéis; um monte de malha rasgada serve de colchão e um saco de dados, de travesseiro. Mesmo que eu queira oferecer uma merenda, nada tenho para empenhar além desta capa rasgada que trago às costas.

ELICIA. Assim eu viva, suas palavras me divertem maravilhosamente. Está obediente como um santo e fala contigo como um anjo; concorda com tudo. Que mais lhe pedes? Por minha vida, fala com ele e perde o rancor, pois oferece tão prontamente a própria pessoa.

CENTURIO. Oferecer, senhora? Juro-te pelo santo martirológio de cabo a rabo que meu braço treme só de pensar no que pretendo fazer por ela. Vivo pensando em como contentá-la e nunca acerto. Na noite passada sonhei que travava um duelo por seu serviço contra quatro homens que ela conhece bem, e matei um. Dos outros que fugiram, o que saiu mais inteiro deixou a meus pés o braço esquerdo. Pois farei ainda melhor acordado e de dia, se alguém tocar no chapim dela.

AREÚSA. Pois já que te tenho aqui, chegamos em boa hora. Eu te perdoo, com a condição de que me vingues de um cavaleiro chamado Calisto, que ofendeu a mim e a minha prima.

CENTURIO. Oh, maldita condição! Dize-me logo se ele já está confessado.

AREÚSA. Não te ocupes de ser padre da alma dele.

CENTURIO. Pois seja assim. Mandemo-lo jantar no inferno sem confissão.

AREÚSA. Escuta, não cortes minha fala. Esta noite o apanharás.

CENTURIO. Não digas mais; já entendi tudo. Conheço por inteiro o negócio desses amores, os que morreram por causa dele, o que isso vos dizia respeito, por onde ele passa, a que horas e com quem. Mas dize-me: quantos o acompanham?

AREÚSA. Dois moços.

CENTURIO. Presa pequena; minha espada achará aí pouco alimento. Esta noite ela se fartaria melhor em outro lugar, onde já havia compromisso.

AREÚSA. Dizes isso para te esquivares. Conta essa a outro cão. Não aceito tal demora. Agora quero ver se dizer e fazer comem juntos à tua mesa.

CENTURIO. Se minha espada contasse tudo o que faz, faltaria tempo para falar. Quem, senão ela, enche a maioria dos cemitérios? Quem torna ricos os cirurgiões desta terra? Quem dá trabalho constante aos armeiros? Quem despedaça a mais fina malha? Quem faz picadinho dos broquéis de Barcelona? Quem fatia os capacetes de Calatayud, senão ela? Os elmos de Almazán, corta-os como se fossem melões. Há vinte anos ela me dá de comer. Por ela sou temido pelos homens e amado pelas mulheres, menos por ti. Por causa dela deram a meu avô o nome de Centurio; Centurio chamou-se meu pai, e Centurio chamo-me eu.

ELICIA. E o que fez a espada para que teu avô ganhasse esse nome? Por acaso ela o tornou capitão de cem homens?

CENTURIO. Não, mas ele foi rufião de cem mulheres.

AREÚSA. Deixemos linhagem e façanhas antigas. Se farás o que te digo, decide sem demora, porque queremos ir embora.

CENTURIO. Já desejo mais que a noite venha para contentar-te do que tu para te veres vingada. E, para que tudo seja feito segundo tua vontade, escolhe a morte que queres que eu lhe dê. Mostrarei um repertório com setecentas e setenta espécies de morte; verás qual te agrada mais.

ELICIA. Areúsa, por meu amor, não entreguemos este caso às mãos de homem tão feroz. Melhor deixá-lo por fazer do que escandalizar a cidade e atrair sobre nós dano maior do que o passado.

AREÚSA. Cala-te, irmã. Que ele nos diga alguma que não faça muito barulho.

CENTURIO. As que mais uso nestes dias e mais tenho à mão são golpes nas costas sem sangue, bordoadas com o pomo da espada ou um revés habilidoso. Outros eu furo a punhaladas como peneira: talho comprido, estocada terrível, golpe mortal. Em certos dias dou pauladas só para deixar minha espada descansar.

ELICIA. Não vá além, por Deus. Dê-lhe pauladas, para que fique castigado e não morto.

CENTURIO. Juro pelo santo corpo da ladainha que não está mais em meu braço direito dar pauladas sem matar do que está no sol deixar de girar pelo céu.

AREÚSA. Irmã, não sejamos piedosas. Faça o que quiser, mate-o como bem entender. Que Melibea chore como tu choraste. Deixemo-lo. Centurio, dá boa conta do que te encomendamos. Qualquer morte nos agradará. Cuida apenas para que ele não escape sem pagar por seu erro.

CENTURIO. Que Deus lhe perdoe, se não fugir de mim com os próprios pés. Fico muito contente, senhora minha, por ter surgido ocasião, ainda que pequena, em que possas conhecer o que sei fazer por teu amor.

AREÚSA. Pois Deus te dê boa mão direita. A ele te encomendo, porque nós vamos.

CENTURIO. Ele te guie e te dê mais paciência com os teus.

CENTURIO. Lá vão essas putas abarrotadas de palavras. Agora preciso pensar em como me livrar do que prometi, de modo que imaginem ter havido diligência e intenção de executar o que disse, e não negligência para evitar o perigo. Posso fingir-me doente; mas de que adianta? Quando sarar, não desistirão da cobrança. Se disser que fui até lá e os fiz fugir, pedirão sinais de quem eram, quantos iam, onde os apanhei e que roupas vestiam, e eu não saberei responder. Está tudo perdido! Que decisão tomarei para satisfazer minha segurança e a exigência delas? Mandarei chamar Traso, o Coxo, e seus dois companheiros. Direi que, como esta noite estou ocupado em outro negócio, eles devem ir dar umas pancadas de broquel, como quem toca alarme, para enxotar uns rapazotes que me foram encomendados. São passos seguros, dos quais não lhes virá dano algum além de fazê-los fugir e voltar para a cama.

1/1
Menu

Fazer anotação