Auto décimo sétimo A Celestina · Capítulo 19 de 25
Obra Menu

Auto décimo sétimo

Auto décimo sétimo

Argumento do décimo sétimo auto

Elicia, desprovida da castidade de Penélope, decide abandonar a dor e o luto que traz por causa dos mortos, louvando o conselho que Areúsa lhe deu a esse respeito. Vai à casa de Areúsa, aonde chega Sosia, de quem Areúsa, com palavras fingidas, arranca todo o segredo existente entre Calisto e Melibea.

ELICIA, AREÚSA, SOSIA.

ELICIA. Este luto só me faz mal. Pouca gente visita minha casa, pouca gente passa por minha rua. Já não ouço serenatas ao romper da manhã, já não ouço as canções dos meus amigos, nem há facadas ou arruaças noturnas por minha causa. E o pior é que não vejo entrar por minha porta nem uma moeda branca nem presente algum. De tudo isso sou culpada. Se tivesse seguido o conselho daquela que me quer bem, daquela verdadeira irmã, quando outro dia lhe levei as novas deste triste caso que me trouxe tamanha penúria, não me veria agora sozinha entre quatro paredes, tão abatida que ninguém suporta olhar para mim. Que o diabo carregue a dor que sinto por quem nem sei se sentiria a mesma coisa se eu tivesse morrido! Por minha fé, ela me disse a verdade: “Nunca, irmã, sofras nem mostres por desgraça ou morte alheia mais pena do que essa pessoa sofreria por ti.” Sempronio se alegraria se eu morresse; então por que eu, louca, me atormento por ele ter sido degolado? E como sei que não me mataria também, furioso e doido como era, assim como matou aquela velha que eu tinha por mãe? Quero seguir em tudo o conselho de Areúsa, que conhece o mundo melhor do que eu, visitá-la muitas vezes e procurar assunto que me faça viver. Oh, que companhia agradável! Que conversa alegre e doce! Não é em vão que se diz que vale mais um dia com homem sensato do que a vida inteira com um néscio. Quero, pois, tirar o luto, deixar a tristeza, despedir as lágrimas, que têm estado tão prontas a sair. Mas, como chorar é o primeiro ofício que exercemos ao nascer, não me espanta que seja tão fácil começá-lo e tão difícil abandoná-lo. Para isso serve o bom senso: ver a perda com os próprios olhos e compreender que os adornos fazem bela uma mulher, ainda que não seja, tornam a velha moça e a moça ainda mais moça. A pintura e o alvaiade não passam de visgo pegajoso em que os homens ficam presos. Venham, pois, meu espelho e meu cosmético, pois estes olhos estão estragados; venham minhas toucas brancas, minhas golas bordadas e minhas roupas de festa. Prepararei uma lixívia para estes cabelos, que já perdiam a cor ruiva. Feito isso, contarei minhas galinhas, arrumarei a cama, porque a limpeza alegra o coração, varrerei a porta e molharei a rua, para que os que passarem vejam que a dor já foi desterrada. Mas antes quero visitar minha prima e perguntar se Sosia esteve lá e o que aconteceu entre os dois, pois não o vi desde que lhe disse que Areúsa queria falar com ele. Queira Deus que eu a encontre sozinha, pois nunca lhe faltam galantes, assim como nunca faltam bêbados em boa taverna.

ELICIA. A porta está fechada. Não deve haver homem lá dentro. Vou bater. Toc, toc.

AREÚSA. Quem é?

ELICIA. Abre, amiga. Sou eu, Elicia.

AREÚSA. Entra, minha irmã. Deus te conserve! Que alegria me dás vindo assim, já mudado o traje de tristeza. Agora gozaremos juntas; agora eu te visitarei e nos veremos em minha casa e na tua. Talvez a morte de Celestina tenha sido boa para nós duas, pois já sinto minha vida melhor do que antes. Por isso dizem que os mortos abrem os olhos dos vivos: a uns, deixando bens; a outros, deixando liberdade, como a ti.

ELICIA. Batem à tua porta. Pouco tempo nos dão para conversar, e eu queria perguntar se Sosia já tinha vindo.

AREÚSA. Não veio. Falaremos depois. Que pancadas! Vou abrir, porque ou é um louco ou alguém muito íntimo. Quem bate?

SOSIA. Abre, senhora. Sou Sosia, criado de Calisto.

AREÚSA. Pelos santos de Deus, falamos no lobo e ele apareceu! Esconde-te, irmã, atrás daquele reposteiro, e verás como o empanturro de vento e lisonjas, para que, ao sair daqui, pense que não existe outro homem além dele. Com afagos, tirarei do seu bucho o que é dele e o que é dos outros, assim como ele tira o pó dos cavalos com a almofaça.

AREÚSA. É o meu Sosia? Meu amigo secreto? Aquele a quem quero bem sem que ele saiba? Aquele que desejo conhecer por sua boa fama? O fiel ao amo? O bom companheiro de seus companheiros? Quero abraçar-te, amor, porque agora que te vejo creio haver em ti ainda mais virtudes do que todos me contavam. Vem cá, entremos e sentemo-nos. Alegra-me olhar para ti, pois me recordas a figura do desventurado Pármeno. Foi para receber-te que o dia amanheceu tão claro. Dize-me, senhor: já me conhecias antes de hoje?

SOSIA. Senhora, a fama de tua gentileza, de tuas graças e de teu juízo voa tão alto por esta cidade que não deves estranhar ser mais conhecida do que conhecedora. Ninguém começa a louvar mulheres formosas sem lembrar-se primeiro de ti, antes de todas as outras.

ELICIA. (À parte, escondida.) Olha o filho da puta do pelado, como aprende depressa! Quem o vê indo dar água aos cavalos, montado em pelo, com as pernas de fora e vestido de gibão, e agora, porque conseguiu calças e capa, logo lhe nascem asas e língua!

AREÚSA. Eu me envergonharia de ouvir tuas palavras, se houvesse alguém diante de nós, de tanto que zombas de mim. Mas, como todos os homens trazem prontas essas frases, esses louvores enganosos, comuns a todas e feitos pelo mesmo molde, não quero espantar-me contigo. Garanto-te, porém, Sosia, que não precisas deles: sem me louvares, eu te amo; sem teres de conquistar-me, já me tens conquistada. Chamei-te por duas razões, e, se descobrir em ti nova lisonja ou engano, deixarei de dizê-las, ainda que sejam para teu proveito.

SOSIA. Minha senhora, não permita Deus que eu te engane. Vim confiado na grande mercê que pensas fazer-me e já me fazes. Não me julgava digno nem de descalçar-te. Guia tu minha língua, responde por mim às tuas próprias palavras, e terei por válido e firme tudo quanto disseres.

AREÚSA. Amor meu, sabes quanto amei Pármeno e, como dizem, quem quer bem a Beltrão, quer bem a tudo que é seu. Todos os amigos dele me agradavam, e agradava-me o bom serviço prestado a seu amo, como se fosse o próprio Pármeno. Quando via Calisto causar-lhe dano, eu o afastava. Sendo assim, resolvi dizer-te duas coisas. A primeira é que saibas do amor que tenho por ti, quanto me alegrarás com tua companhia e tuas visitas e que nada perderás nisso; ao contrário, se estiver em meu poder, ainda terás proveito. A segunda é que, já que pus em ti meus olhos, meu amor e minha vontade, devo avisar-te para que te guardes dos perigos e, sobretudo, para que não reveles teu segredo a ninguém. Viste quanto dano veio a Pármeno e Sempronio pelo que Celestina soube. Eu não gostaria de ver-te morrer antes do tempo, como teu companheiro. Basta-me já ter chorado um deles. Deves saber que alguém veio a mim e disse que havias revelado os amores de Calisto e Melibea, que ele já a tinha alcançado, que ias todas as noites acompanhá-lo e muitas outras coisas que eu nem saberia repetir. Repara, amigo, que não guardar segredo é próprio das mulheres, não de todas, mas das de baixa condição, e também das crianças. Vê que daí te pode vir grande mal. Deus te deu dois ouvidos e dois olhos, mas uma só língua, para que vejas e ouças o dobro do que falas. Não confies que teu amigo guardará o segredo que lhe contares, se tu mesmo não sabes guardá-lo. Quando fores com teu amo Calisto à casa daquela senhora, não faças alarde, não deixes nem a terra sentir teus passos, pois disseram-me também que ias todas as noites gritando como louco de alegria.

SOSIA. Oh, como são imprudentes e desatinadas as pessoas que te trazem tais notícias, senhora! Quem disse ter ouvido isso de minha boca mentiu. Outros me veem sair à noite, ao luar, para dar água aos cavalos, contente e cantando para esquecer o trabalho e afastar o aborrecimento, e isso antes das dez. Então suspeitam mal, transformam suspeita em certeza e afirmam o que apenas farejaram. Como se Calisto fosse louco de ir tão cedo a negócio de tamanha desonra, sem esperar que o povo repousasse e todos dormissem o doce primeiro sono! Tampouco iria todas as noites, pois esse ofício não suporta visita diária. E, para veres mais claramente a falsidade, como dizem que se apanha mais depressa o mentiroso do que o coxo, em um mês não fomos oito vezes, e esses falsários e mexeriqueiros dizem que vamos todas as noites.

AREÚSA. Pois, por minha vida, amor meu, para que eu os acuse e os apanhe na armadilha do falso testemunho, faze-me lembrar os dias em que combinastes sair. Se errarem, ficarei segura de teu segredo e certa da calúnia deles. Não sendo verdadeira a notícia, tua pessoa estará livre de perigo, e eu, sem sobressalto por tua vida, pois espero gozar de tua companhia por muito tempo.

SOSIA. Senhora, não prolonguemos o depoimento. Para esta noite, quando o relógio bater doze horas, está combinada a visita pelo jardim. Amanhã perguntarás o que souberam e, se alguém te der sinais verdadeiros, que me tosquiem em cruzes.

AREÚSA. E por qual lado, alma minha? Assim poderei contradizê-los melhor, se começarem a errar e vacilar.

SOSIA. Pela rua do vigário gordo, nos fundos da casa.

ELICIA. (À parte, escondida.) Pegaram-te, dom esfarrapado! Não é preciso mais! Maldito seja quem se confia a semelhante almocreve! Como o badalo se solta e toca!

AREÚSA. Irmão Sosia, basta o que falamos para que eu me encarregue de provar tua inocência e a maldade de teus adversários. Vai com Deus, pois estou ocupada com outro assunto e já me demorei muito contigo.

ELICIA. (À parte.) Oh, mulher sábia! E que despedida apropriada para o asno que esvaziou tão depressa todo o segredo!

SOSIA. Graciosa e suave senhora, perdoa-me se te aborreci com minha demora. Enquanto te agradar meu serviço, jamais acharás quem arrisque a vida nele com tanta boa vontade. Fiquem contigo os anjos.

AREÚSA. Deus te guie. Lá vai o almocreve! Como sai emproado, por sua vida! Pois toma esta para abrir os olhos, patife, e perdoa que eu a dê pelas costas. A quem estou falando? Irmã, sai daí. Que te parece? Viste como o mando embora? Assim sei tratar gente dessa laia; assim saem de minhas mãos os asnos, espancados como este; os loucos, corridos; os discretos, espantados; os devotos, perturbados; e os castos, abrasados. Aprende, prima, porque esta é uma arte diferente da de Celestina, embora ela me julgasse tola porque eu queria que assim me julgasse. Agora que já sabemos tudo quanto desejávamos, devemos ir à casa daquele outro com cara de enforcado, que na quinta-feira expulsei de casa e cobri de insultos diante de ti. Finge que queres reconciliar-nos e que me rogaste que fosse visitá-lo.

1/1
Menu

Fazer anotação