Sexto Auto A Celestina · Capítulo 8 de 25
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Argumento do SEXTO AUTO Celestina entra na casa de Calisto. Com grande paixão e desejo, Calisto lhe pergunta o que aconteceu com Melibea. Enquanto conversam, Pármeno, ouvindo Celestina falar, põe um mote contra ela a cada frase, à parte com Sempronio, que o repreende. Por fim, a velha Celestina revela tudo o que negociou e mostra um cordão de Melibea. Despedida de Calisto, volta para casa acompanhada por Pármeno.

CALISTO, CELESTINA, PÁRMENO, SEMPRONIO

CALISTO. Que dizes, senhora e madre minha?

CELESTINA. Oh, meu senhor Calisto! Estás aqui? Oh, novo amante da formosíssima Melibea, e com muita razão! Com que pagarás à velha que hoje pôs a vida no tabuleiro por teu serviço? Que mulher jamais se viu em aperto tão estreito como eu? Só de tornar a pensá-lo, todas as veias de meu corpo se diminuem e esvaziam de sangue. Eu daria minha vida por preço menor do que agora daria este manto gasto e velho.

PÁRMENO. Lá vem o teu: entre uma couve e outra, alface. Já subiste um degrau; mais adiante espero o vestido. Tudo para ti e nada que possas repartir. A velha quer criar penas novas. Tu me provarás verdadeiro e provarás meu amo louco. Não percas uma palavra, Sempronio, e verás como não quer pedir dinheiro, porque dinheiro se divide.

SEMPRONIO. Cala, homem desesperado. Calisto te matará se te ouvir.

CALISTO. Madre minha, abrevia tua fala ou toma esta espada e mata-me.

PÁRMENO. O diabo está tremendo como envenenado por mercúrio. Não se aguenta em pé. Queria emprestar-lhe a própria língua para que ela falasse depressa. Não terá longa vida; ainda lucraremos luto com estes amores.

CELESTINA. Espada, senhor? Que má espada mate teus inimigos e quem te quer mal! Eu quero dar-te vida com a boa esperança que trago daquela a quem mais amas.

CALISTO. Boa esperança, senhora?

CELESTINA. Boa se pode chamar, pois ficou aberta a porta para minha volta. Ela me receberá antes com este vestido roto que a outra pessoa vestida de seda e brocado.

PÁRMENO. Sempronio, costura-me a boca, que não posso suportar. Já encaixou o vestido!

SEMPRONIO. Calarás, por Deus, ou te lançarei daqui com o diabo? Se ela conduz a conversa para suas roupas, faz bem, pois precisa delas. O abade se veste de onde canta.

PÁRMENO. E também se veste conforme canta. Esta puta velha quer, num só dia e com três passos, trocar toda a pelagem ruim que em cinquenta anos não conseguiu melhorar.

SEMPRONIO. É esse o resultado do que ela te ensinou, do conhecimento que tínheis e de ter ajudado a criar-te?

PÁRMENO. Suportarei bem que peça e lucre, mas não que tudo seja para seu proveito.

SEMPRONIO. Não tem outro defeito senão ser cobiçosa. Deixa-a cobrir suas paredes, que depois cobrirá as nossas, ou em má hora nos conheceu.

CALISTO. Diz-me, por Deus, senhora, que fazia? Como entraste? Que vestido trazia? Em que parte da casa estava? Que rosto te mostrou no princípio?

CELESTINA. Aquele rosto, senhor, que os touros bravos mostram aos que lhes lançam agudas flechas na arena; o que os javalis monteses mostram aos cães que muito os acossam.

CALISTO. E a isso chamas sinais de saúde? Quais serão então os mortais? Não a própria morte, por certo, pois ela seria alívio neste caso para meu tormento, que é maior e dói mais.

SEMPRONIO. São estes os antigos fogos de meu amo? Que é isto? Não terá este homem paciência para ouvir aquilo que sempre desejou?

PÁRMENO. E queres que eu me cale, Sempronio? Se nosso amo te ouvir, castigará a ti como a mim.

SEMPRONIO. Mau fogo te abrase! Tu falas em dano de todos e eu não ofendo ninguém. Pestilência intolerável e mortal te consuma, briguento, invejoso, maldito! É esta toda a amizade que tinhas combinado com Celestina e comigo? Vai-te daqui em má hora!

CALISTO. Se não queres, rainha e senhora minha, que eu desespere e minha alma vá condenada à pena perpétua ao ouvir tais coisas, assegura-me brevemente se teu glorioso pedido teve bom fim. Essa mostra cruel e rigorosa daquele rosto angélico e matador parece antes sinal de ódio que de amor.

CELESTINA. A maior glória que se atribui ao secreto ofício da abelha, que os discretos devem imitar, é converter em melhor tudo aquilo que toca. Assim me portei com as razões ferozes e esquivas de Melibea. Trago todo seu rigor convertido em mel; sua ira, em mansidão; sua precipitação, em sossego. Para que pensas que foi até lá a velha Celestina, a quem recompensaste magnificamente, muito além de seu merecimento? Para abrandar sua cólera, suportar seu acesso, fazer-me escudo de tua ausência, receber em meu manto os golpes, as recusas, os desprezos e desdéns que as mulheres mostram no princípio das solicitações amorosas, para que depois sua dádiva seja mais estimada. A quem mais querem, pior falam. Se assim não fosse, não haveria diferença entre as públicas, que amam às claras, e as donzelas ocultas, se todas dissessem sim logo à entrada do primeiro pedido, assim que soubessem ser amadas. Estas, ainda que abrasadas e acesas por vivos fogos de amor, por honestidade mostram exterior frio, rosto sereno, recusa aprazível, ânimo constante, propósito casto e palavras ásperas. A própria língua se espanta com a grande paciência que as obriga a confessar o contrário do que sentem. Para que descanses e tenhas repouso enquanto te conto por extenso o processo de minha fala e a causa que tive para entrar, sabe desde já que o fim da conversa foi muito bom.

CALISTO. Agora, senhora, que me deste segurança para ousar esperar todos os rigores da resposta, diz quanto mandares e como quiseres, que estarei atento. Já repousa meu coração; já descansa meu pensamento; minhas veias recebem e recobram o sangue perdido; já perdi o temor; já tenho alegria. Subamos, se mandas. Em meu aposento me contarás por extenso o que aqui soube em suma.

CELESTINA. Subamos, senhor.

PÁRMENO. Oh, Santa Maria! Que rodeios procura este louco para fugir de nós, chorar à vontade de alegria com Celestina, descobrir-lhe mil segredos de seu leviano e desvairado apetite, perguntar e responder seis vezes cada coisa, sem que esteja presente quem lhe diga que é prolixo! Pois juro-te, desatinado, que iremos atrás de ti.

CALISTO. Vê, senhora, que fala traz Pármeno, como vem benzendo-se ao ouvir o que fizeste com tua grande diligência. Está espantado, por minha fé, senhora Celestina. Benze-se outra vez. Sobe, sobe, sobe e senta-te, senhora, que de joelhos quero ouvir tua suave resposta. Diz-me logo qual foi a causa de tua entrada.

CELESTINA. Vender um pouco de fio, com o qual já capturei mais de trinta de sua condição, se Deus quis, neste mundo, e algumas ainda maiores.

CALISTO. Maiores de corpo, madre; não de gentileza, estado, graça, discrição, linhagem, nobre presunção, virtude ou fala.

PÁRMENO. Já solta elos o perdido. Já se descompassam suas badaladas. Nunca bate menos de doze; está sempre feito relógio do meio-dia. Conta, conta, Sempronio, pois estás babando ao ouvir as loucuras dele e as mentiras dela.

SEMPRONIO. Maldizente venenoso! Por que fechas os ouvidos ao que todos no mundo os aguçariam para escutar? Pareces serpente que foge da voz do encantador. Só por serem falas de amor, ainda que mentiras, devias ouvi-las com prazer.

CELESTINA. Ouve, senhor Calisto, e verás o que tua fortuna e minha diligência fizeram. Assim que comecei a vender e pôr preço em meu fio, chamaram a mãe de Melibea para visitar uma irmã doente. Como precisava ausentar-se, deixou Melibea em seu lugar.

CALISTO. Oh, alegria sem par! Oh, oportunidade singular! Oh, tempo oportuno! Quem me dera estar ali debaixo de teu manto, ouvindo o que falaria, sozinha, aquela em quem Deus reuniu graças tão extremadas!

CELESTINA. Debaixo de meu manto, dizes? Ai, desgraçada! Serias visto pelos trinta buracos que tem, se Deus não o melhorar.

PÁRMENO. Vou-me daqui, Sempronio. Já não digo nada; ouve tu tudo. Se este perdido de meu amo não medisse em pensamento quantos passos há daqui à casa de Melibea, nem contemplasse seu rosto, nem imaginasse como estaria negociando o fio, com todos os sentidos postos e ocupados nela, veria que meus conselhos lhe eram mais salutares que estes enganos de Celestina.

CALISTO. Que é isto, rapazes? Estou escutando atento, pois nisso me vai a vida, e vós sussurrais, como costumais, para fazer-me dano e aborrecer-me? Por meu amor, calai-vos. Morrereis de prazer com esta senhora, tal foi sua boa diligência. Diz, senhora, que fizeste quando te viste sozinha?

CELESTINA. Recebi, senhor, tamanha alteração de prazer que qualquer um a reconheceria em meu rosto.

CALISTO. Agora a recebo eu. Quanto mais tu, que contemplavas diante de ti tal imagem. Emudecerias com novidade tão inesperada.

CELESTINA. Antes me deu mais ousadia para falar tudo o que quis, ver-me sozinha com ela. Abri minhas entranhas. Contei-lhe minha embaixada: como penavas tanto por uma palavra saída de sua boca em teu favor, palavra capaz de curar grande dor. Ela ficou suspensa, olhando-me, espantada com a nova mensagem, escutando para saber quem podia ser aquele que tanto penava pela necessidade de sua palavra ou quem sua língua podia curar. Assim que pronunciei teu nome, cortou minha fala e deu na testa uma grande palmada, como quem tivesse ouvido coisa de grande espanto. Mandou-me cessar e sair de diante dela, se eu não queria fazer de seus servidores os carrascos de meu fim. Agravou minha ousadia, chamando-me feiticeira, alcoviteira, velha falsa, barbuda, malfeitora e muitos outros nomes infames com que se assustam crianças de berço. Depois disso, mil desfalecimentos e desmaios, mil prodígios e espantos; os sentidos perturbados, todos os membros agitando-se com força de um lado para outro, ferida pela flecha dourada que a tocou ao som de teu nome. Torcia o corpo, apertava as mãos uma contra a outra como quem se espreguiça, parecendo querer despedaçá-las; lançava os olhos para toda parte; golpeava o chão duro com os pés. E eu, durante tudo isso, acuada num canto, encolhida, calada, muito contente com sua ferocidade. Quanto mais se debatia, mais eu me alegrava, porque mais próxima estava sua rendição e sua queda. Enquanto esvaziava aquele espumoso armazém de ira, eu não deixava meus pensamentos vagos nem ociosos. Assim tive tempo para salvar o que havia dito.

CALISTO. Diz-me isso, senhora madre. Enquanto te escuto, revolvi meu juízo e não encontrei desculpa boa ou conveniente que encobrisse ou colorisse o que disseste sem deixar terrível suspeita sobre teu pedido. Quero conhecer teu grande saber, pois em tudo me pareces mais que mulher. Como adivinhaste sua resposta, preparaste a tempo tua réplica. Que mais fazia aquela etrusca Adeleta, cuja fama, se fosses viva então, teria desaparecido? Três dias antes do próprio fim, anunciou a morte de seu velho marido e dos dois filhos que tinha. Agora creio no que dizes: o fraco gênero das mulheres é mais apto às cautelas rápidas que o dos homens.

CELESTINA. Que fiz, senhor? Disse que tua pena era dor de dentes e que a palavra que queria dela era uma oração muito devota que sabia para curá-la.

CALISTO. Oh, maravilhosa astúcia! Oh, mulher singular em seu ofício! Oh, fêmea cautelosa! Oh, remédio pronto! Oh, discreta em mensagens! Que entendimento humano bastaria para imaginar maneira tão elevada de remédio? Creio por certo que, se nossa época alcançasse aqueles antigos Eneas e Dido, Vênus não teria trabalhado tanto para atrair ao filho o amor de Elisa, fazendo Cupido tomar a forma de Ascânio para enganá-la. Para evitar prolixidade, teria posto a ti por medianeira. Agora dou por bem empregada minha morte, estando em tais mãos, e acreditarei que, se meu desejo não tiver o efeito que eu queria, é porque a natureza não permitia fazer mais por minha saúde. Que vos parece, rapazes? Que mais se poderia imaginar? Existe mulher semelhante no mundo?

CELESTINA. Senhor, não cortes minhas razões. Deixa-me falar, pois vai ficando noite. Sabes que quem faz mal aborrece a claridade, e, indo para casa, posso ter algum mau encontro.

CALISTO. Que dizes? Há tochas e pajens para acompanhar-te.

PÁRMENO. Sim, sim, para que não violentem a menina! Tu irás com ela, Sempronio, pois tem medo dos grilos que cantam no escuro.

CALISTO. Dizes alguma coisa, filho Pármeno?

PÁRMENO. Senhor, digo que será bom eu e Sempronio acompanharmos a senhora até sua casa, pois está muito escuro.

CALISTO. Bem dito. Depois será feito. Prossegue e conta-me o que mais se passou. Que respondeu ao pedido da oração?

CELESTINA. Que a daria de boa vontade.

CALISTO. De boa vontade? Oh, Deus meu, que alta dádiva!

CELESTINA. Pedi-lhe mais.

CALISTO. Que pediste, minha honrada velha?

CELESTINA. Um cordão que traz sempre cingido, dizendo que seria proveitoso para teu mal, porque havia tocado muitas relíquias.

CALISTO. E que disse?

CELESTINA. Dá-me alvíssaras, e eu te direi.

CALISTO. Por Deus, toma toda esta casa e quanto nela há, mas diz-me; ou pede o que quiseres.

CELESTINA. Por um manto que deres à velha, ela dará em tuas mãos o mesmo cordão que trazia em seu corpo.

CALISTO. Que falas de manto? Dou-te manto, vestido e tudo o que tenho.

CELESTINA. Preciso de um manto, e com ele me darei por satisfeita. Não te alargues. Não ponhas suspeita em meu pedido, pois dizem que oferecer muito a quem pede pouco é espécie de negar.

CALISTO. Corre, Pármeno! Chama meu alfaiate e manda cortar agora mesmo um manto e um vestido daquele pano de Courtrai que foi separado para feltrar.

PÁRMENO. Assim, assim! Tudo para a velha, para que venha carregada de mentiras como abelha; e a mim, que me arrastem. Foi atrás disso que ela andou o dia inteiro com seus rodeios.

CALISTO. Com que vontade vai o diabo! Não há homem tão malservido quanto eu, sustentando criados adivinhos, resmungões, inimigos de meu bem. Que vais rezando, velhaco? Invejoso, que dizes, que não te entendo? Vai depressa aonde te mando e não me irrites, que minha pena já basta para matar-me. Também haverá para ti um gibão naquela peça.

PÁRMENO. Não digo outra coisa, senhor, senão que já é tarde para o alfaiate vir.

CALISTO. Não digo eu que adivinhas? Então fique para amanhã. E tu, senhora, por meu amor, tem paciência, pois não se perde aquilo que se adia. Mostra-me aquele santo cordão que foi digno de cingir tais membros. Meus olhos gozarão com todos os outros sentidos, pois juntos foram feridos. Gozará meu coração lastimado, que nunca recebeu um momento de prazer desde que conheceu aquela senhora. Todos os sentidos chegaram a ele, todos correram com seus pequenos cestos de sofrimento. Cada um o feriu quanto pôde: os olhos ao vê-la, os ouvidos ao ouvi-la, as mãos ao tocá-la.

CELESTINA. Dizes que a tocaste? Muito me espantas.

CALISTO. Em sonhos, digo.

CELESTINA. Em sonhos?

CALISTO. Vejo-a em sonhos tantas noites que temo me aconteça como a Alcibíades ou a Sócrates. Um sonhou que se via envolto no manto da amiga; no dia seguinte mataram-no, e ninguém o levantou da rua nem o cobriu, senão ela com seu manto. O outro sonhou que o chamavam pelo nome e morreu três dias depois. Mas, na vida ou na morte, ser-me-ia alegre vestir sua roupa.

CELESTINA. Tens pena suficiente, pois, quando os outros repousam em suas camas, preparas o sofrimento do dia seguinte. Coragem, senhor, que Deus não fez ninguém para desampará-lo. Dá tempo a teu desejo. Toma este cordão; se eu não morrer, eu te darei sua dona.

CALISTO. Oh, novo hóspede! Oh, bem-aventurado cordão, que tanto poder e merecimento tiveste para cingir aquele corpo que eu não sou digno de servir! Oh, nós de minha paixão, vós enlaçastes meus desejos! Dizei-me se estivestes presentes na desconsolada resposta daquela a quem servis e eu adoro, e por quem trabalho noites e dias sem que nada me valha ou aproveite.

CELESTINA. Velho refrão: quem menos procura alcança maior bem. Mas eu farei que, procurando, alcances o que negligente não alcançarias. Consola-te, senhor. Zamora não se ganhou numa hora, mas nem por isso os combatentes perderam a confiança.

CALISTO. Oh, desgraçado! As cidades são cercadas de pedras, e com pedras se vencem pedras; mas esta minha senhora tem o coração de aço. Não há metal que possa contra ele, nem tiro que o amolgue. Ponde escadas em seu muro: tem olhos com que lança setas, uma língua cheia de censuras e recusas, e sua fortaleza está em lugar a que nem a meia légua se pode pôr cerco.

CELESTINA. Cala, senhor. A boa ousadia de um único homem conquistou Troia. Não desesperes, pois uma mulher pode conquistar outra. Pouco frequentaste minha casa; não sabes bem do que sou capaz.

CALISTO. Quero acreditar em tudo quanto disseres, senhora, pois me trouxeste joia tão preciosa. Oh, minha glória e cinto daquela cintura angélica! Vejo-te e não acredito. Oh, cordão, cordão! Foste meu inimigo? Diz com certeza. Se foste, eu te perdoo, pois é próprio dos bons perdoar as culpas. Não creio que o fosses, porque, se fosses contrário, não terias vindo tão depressa a meu poder, a menos que venhas desculpar-te. Conjuro-te a responder pela virtude do grande poder que aquela senhora tem sobre mim.

CELESTINA. Cessa já esse delírio, senhor. Estou cansada de escutar-te, e o cordão, a ponto de romper-se de tanto ser manuseado.

CALISTO. Oh, miserável de mim! Grande mercê me teria o céu concedido se fosses feito e tecido de meus braços, não de seda, como és, para que eles gozassem todos os dias de rodear e cingir, com a devida reverência, aqueles membros que tu, sem sentir nem gozar a glória, tens sempre abraçados. Oh, que segredos terás visto daquela imagem excelente!

CELESTINA. Mais verás tu, e com mais sentidos, se não os perderes falando como falas.

CALISTO. Cala, senhora, que ele e eu nos entendemos. Oh, meus olhos, lembrai-vos de como fostes causa e porta por onde meu coração foi ferido; e aquele que dá a causa é considerado autor do dano. Lembrai-vos de que sois devedores de minha saúde. Contemplai o remédio que vos chega até casa.

SEMPRONIO. Senhor, de tanto brincar com o cordão, acabarás sem gozar Melibea.

CALISTO. Louco, desvairado, corta-prazeres! Como assim?

SEMPRONIO. Falando tanto, matas a ti mesmo e a quem te ouve. Perderás a vida ou o juízo. Qualquer dos dois que falte basta para deixar-te no escuro. Abrevia tuas razões e darás lugar às de Celestina.

CALISTO. Aborreço-te, madre, com minha fala longa, ou este criado está bêbado?

CELESTINA. Ainda que não esteja, deves, senhor, cessar tua fala, pôr fim às longas queixas e tratar o cordão como cordão, para que saibas distinguir a fala quando te vires com Melibea. Não faça tua língua iguais a pessoa e o vestido.

CALISTO. Oh, minha senhora, minha madre, minha consoladora! Deixa-me gozar deste mensageiro de minha glória. Oh, língua minha, por que te embaraças em outras falas, deixando de adorar a excelência que tens diante de ti e que talvez nunca mais vejas em teu poder? Oh, minhas mãos, com que atrevimento e quão pouco acatamento tendes e tratais a teriaga de minha chaga! Já não poderão ferir-me as ervas que aquela cruel ponta de flecha trazia envoltas em si. Estou seguro, pois quem deu a ferida também a cura. Oh, tu, senhora, alegria das velhas, prazer das moças, descanso dos fatigados como eu! Não me faças penar mais com teu temor, que desperta minha vergonha. Solta as rédeas à minha contemplação. Deixa-me sair pelas ruas com esta joia, para que todos os que me virem saibam que não há homem mais afortunado que eu.

SEMPRONIO. Não transformes tua ferida em fístula carregando-a de mais desejo. Não é apenas do cordão, senhor, que depende teu remédio.

CALISTO. Bem sei, mas não tenho paciência para deixar de adorar tão alta insígnia.

CELESTINA. Insígnia? Insígnia é aquilo que se dá de boa vontade. Bem sabes que ela o fez por amor de Deus, para curar teus dentes, não por amor de ti, para fechar tuas chagas. Mas, se eu viver, ela ainda virará a página.

CALISTO. E a oração?

CELESTINA. Não me foi dada por ora.

CALISTO. Qual foi a causa?

CELESTINA. A brevidade do tempo. Mas ficou combinado que, se tua pena não afrouxasse, eu voltaria amanhã para buscá-la.

CALISTO. Afrouxar? Minha pena só afrouxará quando afrouxar sua crueldade.

CELESTINA. Basta, senhor, o que foi dito e feito. Segundo o que mostrou, ela fica obrigada a tudo quanto eu quiser pedir, dentro de seu poder, para esta doença. Vê, senhor, se isto não basta para a primeira visita. Vou-me. Convém que, se saíres amanhã, leves um pano enrolado no rosto, porque, se ela te vir, não acuse de falsa minha petição.

CALISTO. Levarei quatro, por teu serviço. Mas diz-me, por Deus, passou-se mais alguma coisa? Morro por ouvir palavras daquela doce boca. Como foste tão ousada que, sem conhecê-la, te mostraste tão familiar em tua entrada e pedido?

CELESTINA. Sem conhecê-la? Fomos vizinhas por quatro anos. Tratava com elas, falava e ria de dia e de noite. A mãe dela me conhece melhor que às próprias mãos, embora Melibea tenha crescido e se tornado mulher discreta e gentil.

PÁRMENO. Ei, Sempronio, escuta o que te digo ao ouvido.

SEMPRONIO. Diz, que falas?

PÁRMENO. A atenção com que Celestina escuta dá matéria para nosso amo alongar sua fala. Chega-te a ela, toca-lhe com o pé, façamos sinais para que não espere mais e se vá. Não há homem tão louco que fale muito estando sozinho.

CALISTO. Gentil, dizes, senhora, que é Melibea? Parece que o dizes por brincadeira. Nasceu no mundo outra igual? Criou Deus corpo melhor? Podem pintar-se feições semelhantes, modelo de formosura? Se ainda vivesse Helena, por quem houve tanta morte de gregos e troianos, ou a formosa Polixena, ambas obedeceriam a esta senhora por quem peno. Se ela estivesse presente na disputa da maçã entre as três deusas, nunca teriam chamado à fruta maçã da discórdia, porque, sem contradizer nenhuma, todas concederiam e viveriam de acordo em que Melibea a recebesse. Seria chamada maçã da concórdia. Quantas mulheres hoje nascidas têm notícia dela, amaldiçoam-se e queixam-se a Deus porque não se lembrou delas quando fez esta minha senhora. Consomem a vida, devoram a própria carne de inveja, dão-se martírios cruéis, tentando igualar por artifício a perfeição que a natureza lhe concedeu sem trabalho. Umas arrancam as sobrancelhas com pequenas pinças, emplastros e cordelinhos; outras procuram ervas douradas, raízes, ramos e flores para fazer lixívias que deixem seus cabelos semelhantes aos dela; martelam os rostos, revestindo-os de diversas cores com unguentos, unturas, águas fortes e pinturas brancas e vermelhas, que não enumero para evitar prolixidade. Pois aquela que recebeu tudo isto já pronto, vê se merece ser servida por um homem triste como eu.

CELESTINA. Bem te entendo, Sempronio. Deixa-o, que já vai cair do asno. Está terminando.

CALISTO. Nela toda a natureza se contemplou para fazê-la perfeita. As graças que repartiu entre todas, reuniu nela. Ali fizeram mostra de quanto mais acabado puderam alcançar, para que aqueles que a vissem conhecessem a grandeza de seu pintor. Só um pouco de água clara e um pente de marfim lhe bastam para exceder em beleza todas as nascidas. Estas são suas armas. Com elas mata e vence; com elas me cativou; com elas me tem preso e metido em dura cadeia.

CELESTINA. Cala e não te fatigues. A lima que tenho é mais aguda que forte essa cadeia que te atormenta. Eu a cortarei, para que fiques livre. Dá-me licença, pois é muito tarde, e deixa-me levar o cordão, porque preciso dele.

CALISTO. Oh, desconsolado de mim! A fortuna adversa não se aparta de meu lado. Contigo, com o cordão, ou com ambos eu queria passar acompanhado esta noite longa e escura. Mas, como não há bem completo nesta vida penosa, venha inteira a solidão. Rapazes! Rapazes!

PÁRMENO. Senhor.

CALISTO. Acompanha esta senhora até sua casa. Que vá com ela tanto prazer e alegria quanto comigo ficam tristeza e solidão.

CELESTINA. Deus fique contigo, senhor. Amanhã voltarei, e meu manto e a resposta chegarão juntos, pois hoje não houve tempo. Tem paciência, senhor, e pensa em outras coisas.

CALISTO. Isso não, pois é heresia esquecer aquela por quem a vida me agrada.

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