Oitavo Auto A Celestina · Capítulo 10 de 25
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Oitavo Auto

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Argumento do Oitavo Auto

Chega a manhã. Pármeno desperta. Depois de despedir-se de Areúsa, vai para a casa de Calisto, seu senhor. Encontra Sempronio à porta. Reconciliam-se e firmam amizade. Vão juntos ao quarto de Calisto e o encontram falando consigo mesmo. Depois de se levantar, Calisto vai à igreja.

SEMPRONIO, PÁRMENO, AREÚSA, CALISTO

PÁRMENO: Está amanhecendo ou o que é isso, que há tanta claridade neste quarto?

AREÚSA: Que amanhecer? Dorme, senhor, que ainda agora nos deitamos. Mal fechei os olhos e já havia de ser dia? Abre, por Deus, essa janela à cabeceira e verás.

PÁRMENO: Estou em meu juízo, senhora, e é dia claro. Vejo a luz entrando pelas frestas da porta. Ah, traidor de mim! Que grande falta cometi contra meu amo! Sou digno de dura pena. Como é tarde!

AREÚSA: Tarde?

PÁRMENO: E muito tarde.

AREÚSA: Assim eu possa gozar de minha alma, ainda não passou meu mal da madre. Não sei como pode ser.

PÁRMENO: O que queres, minha vida?

AREÚSA: Que tratemos de meu mal.

PÁRMENO: Senhora minha, se o que tratamos não bastou, perdoa-me pelo que ainda seria necessário, porque já é meio-dia. Se eu chegar mais tarde, meu amo não me receberá bem. Voltarei amanhã e quantas vezes mandares. Para isso Deus fez um dia depois do outro: para que se complete num aquilo que não coube no anterior. E para nos vermos mais, concede-me esta graça: vem hoje, ao meio-dia, comer conosco na casa de Celestina.

AREÚSA: Agrada-me, de bom grado. Vai com Deus e fecha a porta atrás de ti.

PÁRMENO: Fica com Deus.

PÁRMENO, sozinho: Ah, prazer singular! Ah, singular alegria! Que homem existe ou existiu mais venturoso que eu? Quem foi mais feliz e afortunado? Um dom tão excelente possuído por mim, tão depressa alcançado quanto pedido! Se meu coração pudesse suportar as traições daquela velha, eu devia andar de joelhos para agradá-la. Com que pagarei isto? Ó Deus altíssimo! A quem contarei esta alegria? A quem revelarei tamanho segredo? A quem darei parte de minha glória? A velha me dizia bem que nenhuma prosperidade se possui com gosto sem companhia. Prazer não compartilhado não é prazer. Quem sentiria minha felicidade como eu a sinto? Vejo Sempronio à porta de casa. Madrugou muito. Terei trabalho com meu amo, se já saiu. Não deve ter saído, pois não é seu costume; mas, como agora anda fora de si, não me admiro de que tenha mudado seus hábitos.

SEMPRONIO: Pármeno, irmão, se eu soubesse onde fica a terra em que se ganha salário dormindo, faria tudo para ir até lá. Não daria vantagem a ninguém; ganharia tanto quanto qualquer outro. Como pudeste, preguiçoso e descuidado, sair e não voltar? Não sei o que pensar de tua demora, a não ser que passaste a noite aquecendo a velha ou coçando-lhe os pés, como quando eras pequeno.

PÁRMENO: Ah, Sempronio, amigo e mais que irmão! Por Deus, não estragues meu prazer, não mistures tua ira com minha paciência, nem teu descontentamento com meu descanso. Não aguaces com água turva o licor claro de meus pensamentos. Não enturbies com repreensões invejosas e odiosas a alegria que trago. Recebe-me contente e te contarei maravilhas de minha boa fortuna.

SEMPRONIO: Conta, conta. É alguma coisa de Melibea? Tu a viste?

PÁRMENO: Que Melibea? É outra, a quem amo mais, e tal que, se não me engano, pode competir com ela em graça e formosura. O mundo e todas as suas graças não se encerraram numa só mulher.

SEMPRONIO: Que é isso, desatinado? Eu queria rir, mas não consigo. Agora todos amamos? O mundo vai se perder. Calisto ama Melibea, eu amo Elicia, e tu, por inveja, procuraste alguém com quem perder o pouco juízo que tens.

PÁRMENO: Então amar é loucura, e eu sou louco e sem juízo? Se a loucura fossem dores, haveria gritos em todas as casas.

SEMPRONIO: Segundo tua própria opinião, é. Eu te ouvi dar conselhos vazios a Calisto e contrariar Celestina em tudo o que ela dizia. Para impedir meu proveito e o dela, alegravas-te em não gozar tua parte. Pois agora caíste em minhas mãos, onde posso te causar dano, e causarei.

PÁRMENO: A verdadeira força e o verdadeiro poder não estão em causar dano, mas em ajudar e curar, e em querer fazê-lo. Sempre te tive por irmão. Por Deus, não se cumpra em ti o ditado de que uma pequena causa separa amigos concordes. Tratas-me muito mal. Não sei de onde nasce esse rancor. Não me provoques, Sempronio, com palavras tão dolorosas. É muito rara a paciência que uma afronta aguda não atravesse.

SEMPRONIO: Não digo mal algum. Só quero que se jogue outra sardinha para o moço dos cavalos, já que agora tens amiga.

PÁRMENO: Estás irritado. Quero te suportar, mesmo que me trates pior, pois dizem que nenhuma paixão humana é perpétua ou duradoura.

SEMPRONIO: Tu tratas Calisto pior, aconselhando-o contra aquilo que escolhes para ti. Mandas que abandone o amor por Melibea, como placa de hospedaria que dá abrigo a todos e não tem para si. Ah, Pármeno! Agora podes ver como é fácil censurar a vida alheia e como é difícil governar a própria. Não digas mais, pois és testemunha. Daqui em diante veremos como te comportas, já que também tens tua tigela como os outros. Se fosses meu amigo, terias me ajudado quando precisei, favorecendo Celestina em meu proveito, em vez de fincar um prego de malícia em cada palavra. Aprende: assim como a borra da taverna afasta os bêbados, a adversidade e a necessidade afastam o falso amigo. Logo se descobre o metal ruim, dourado apenas por cima.

PÁRMENO: Eu já ouvira dizer e agora vejo por experiência: nunca vem prazer sem aflição contrária nesta triste vida. Aos sóis alegres, serenos e claros sucedem nuvens escuras e chuvas; aos divertimentos e prazeres, dores e mortes; às risadas e deleites seguem-se prantos, lágrimas e paixões mortais; enfim, depois de muito descanso e sossego vêm grande pesar e tristeza. Quem poderia chegar tão alegre quanto eu agora? Quem receber acolhida tão triste? Quem se viu, como me vi, em tamanha glória, alcançada com minha querida Areúsa? E quem caiu dela tão depressa, maltratado por ti? Nem me deste tempo de te dizer quanto sou teu, quanto te favorecerei em tudo, quanto me arrependo do passado, quantos bons conselhos e repreensões recebi de Celestina em teu favor e proveito e no de todos. Já que o jogo de nosso amo e Melibea está em nossas mãos, é agora que podemos prosperar, ou nunca.

SEMPRONIO: Tuas palavras me agradam, se as obras forem iguais. Esperarei por elas antes de acreditar em ti. Mas, por Deus, dize-me o que falaste de Areúsa. Parece que conheces Areúsa, prima de Elicia!

PÁRMENO: Pois de onde vem toda a alegria que trago, senão de tê-la alcançado?

SEMPRONIO: Olha como o bobo diz isso! De tanto rir, mal consegue falar. O que chamas de alcançá-la? Estava ela em alguma janela?

PÁRMENO: Quero dizer que a deixei na dúvida se ficou grávida ou não.

SEMPRONIO: Deixas-me espantado. Muito pode o trabalho contínuo: goteira constante fura a pedra.

PÁRMENO: Verás quão contínuo foi: ontem pensei nela, hoje já a tenho por minha.

SEMPRONIO: A velha está metida nisso!

PÁRMENO: Como sabes?

SEMPRONIO: Ela me disse que te queria muito e que te faria alcançar Areúsa. Foste feliz: bastou chegar e receber. Por isso dizem que vale mais quem Deus ajuda que quem cedo madruga. Mas tiveste bom padrinho.

PÁRMENO: Dize madrinha, que é mais certo. Quem se encosta a boa árvore... Fui tarde, mas alcancei cedo. Ah, irmão, que te contaria das graças daquela mulher, de sua fala e da beleza de seu corpo? Mas fique para melhor ocasião.

SEMPRONIO: Sendo prima de Elicia, pode deixar de ser bela? Não me dirás nada que a outra não tenha ainda mais. Acredito em tudo. Mas quanto te custou? Deste-lhe alguma coisa?

PÁRMENO: Não, certamente. Mas, ainda que tivesse dado, seria bem empregado. Ela é capaz de todo bem. Mulheres assim são estimadas na medida em que são compradas caro; valem o que custam. Nunca o muito custou pouco, salvo esta senhora para mim. Convidei-a para comer na casa de Celestina. Se te agrada, vamos todos para lá.

SEMPRONIO: Todos quem, irmão?

PÁRMENO: Tu e ela. A velha e Elicia já estarão lá. Teremos prazer.

SEMPRONIO: Ó Deus, como me alegraste! És generoso, nunca te faltarei. Como te tenho por homem e creio que Deus te fará bem, toda a raiva que trazia por tuas falas passadas virou amor. Já não duvido de tua aliança conosco. Quero te abraçar. Sejamos como irmãos. Vá o ruim para o diabo! Seja o passado briga de São João e tenhamos paz pelo ano inteiro. As iras dos amigos costumam renovar o amor. Comamos e folguemos, que nosso amo jejuará por todos.

PÁRMENO: E o que faz o desesperado?

SEMPRONIO: Está estendido no estrado junto da cama, onde o deixaste ontem à noite. Não dorme nem está acordado. Se entro, ronca; se saio, canta ou delira. Não sei se aquilo lhe dá tormento ou descanso.

PÁRMENO: Que dizes? E não me chamou nenhuma vez nem se lembrou de mim?

SEMPRONIO: Não se lembra de si mesmo; havia de se lembrar de ti?

PÁRMENO: Até nisso tive boa sorte. Enquanto ele desperta, vou mandar preparar a comida.

SEMPRONIO: Que pensas enviar, para que aquelas doidinhas te tenham por homem completo, bem-criado e generoso?

PÁRMENO: Em casa cheia, depressa se prepara a ceia. O que há na despensa basta para não passarmos vergonha: pão branco, vinho de Monviedro, um pernil de toucinho e seis pares de frangos que os arrendatários trouxeram anteontem. Se ele pedir, farei acreditar que os comeu. E as rolas que mandou guardar para hoje, direi que estavam fedendo. Tu serás testemunha. Arranjaremos um modo de não fazer mal a ele o que comermos, e de pôr nossa mesa como convém. Lá falaremos longamente com a velha, para dano dele e nosso proveito, sobre esses amores.

SEMPRONIO: Mais que amores, dores! Tenho por certo que ele não escapa desta vez sem morrer ou enlouquecer. Já que é assim, despacha e subamos para ver o que faz.

CALISTO, cantando:

Em grande perigo me vejo,

minha morte não tarda, não;

pois o desejo me pede

o que me nega a esperança.

PÁRMENO: Escuta, Sempronio. Nosso amo está trovando.

SEMPRONIO: Ah, filho da puta, o trovador! O grande Antípatro de Sídon, o grande poeta Ovídio, aos quais os versos vinham improvisados à boca! Sim, sim, é um deles! O diabo é que trovará. Ele está delirando entre sonhos.

CALISTO, cantando:

Coração, bem mereces

penar e viver entristecido,

pois tão depressa foste vencido

pelo amor de Melibea.

PÁRMENO: Não disse que ele trova?

CALISTO: Quem fala na sala? Criados!

PÁRMENO: Senhor.

CALISTO: É muito tarde da noite? Já é hora de deitar?

PÁRMENO: Pelo contrário, senhor, já é tarde para levantar!

CALISTO: Que dizes, louco? Passou a noite inteira?

PÁRMENO: E boa parte do dia também.

CALISTO: Sempronio, dize: mente este desatinado, querendo me fazer crer que é dia?

SEMPRONIO: Esquece Melibea por um instante, senhor, e verás a claridade. De tanto contemplares o brilho de seu rosto, ficaste encandeado como perdiz diante da candeia.

CALISTO: Agora acredito, pois tocam para a missa. Dá-me minhas roupas. Irei à Madalena. Rogarei a Deus que guie Celestina e ponha no coração de Melibea meu remédio, ou dê depressa fim a meus tristes dias.

SEMPRONIO: Não te aflijas tanto, nem queiras tudo numa hora. Não é próprio dos discretos desejar com tamanha força aquilo que pode acabar tristemente. Se pedes que se conclua num dia o que mal caberia num ano, tua vida não será longa.

CALISTO: Queres dizer que sou como o criado do escudeiro galego?

SEMPRONIO: Deus não permita que eu diga tal coisa, pois és meu senhor. Além disso, sei que, assim como me recompensas pelo bom conselho, me castigarias pela fala ruim. É verdade que nunca se igualam a recompensa pelo bom serviço e a punição pelo mal feito ou dito.

CALISTO: Não sei quem te ensinou tanta filosofia, Sempronio.

SEMPRONIO: Senhor, nem tudo o que não se parece com negro é branco, nem tudo o que reluz amarelo é ouro. Teus desejos apressados, sem medida de razão, fazem meus conselhos parecer sábios. Ontem querias que te trouxessem Melibea na primeira conversa, embrulhada e amarrada no próprio cordão, como mercadoria comprada na praça, sem outro trabalho além de chegar e pagar. Dá alívio ao coração, senhor, porque grande ventura não cabe em espaço pequeno. Um só golpe não derruba um carvalho. Arma-te de paciência, pois prudência é coisa louvável e a preparação resiste ao combate mais forte.

CALISTO: Falaste bem, se a natureza de meu mal permitisse.

SEMPRONIO: Para que serve o juízo, senhor, se a vontade priva a razão?

CALISTO: Louco, louco! É o são dizendo ao doente: “Deus te dê saúde.” Não quero conselho nem esperar mais razões, pois acendes ainda mais as chamas que me consomem. Vou sozinho à missa e não voltarei até que me mandeis chamar, pedindo alvíssaras por minha alegria e anunciando a boa chegada de Celestina. Nem comerei antes disso, ainda que os cavalos de Febo já estejam pastando nos verdes campos onde descansam ao fim da jornada.

SEMPRONIO: Deixa esses rodeios, senhor, deixa essas poesias. Não convém uma fala que não seja comum a todos, da qual todos não participem e que poucos entendam. Dize “ainda que o sol se ponha”, e todos saberão o que queres dizer. E come alguma conserva que te sustente por tanto tempo.

CALISTO: Sempronio, meu fiel criado, meu bom conselheiro, meu leal servidor, seja como te parece. Tenho por certo que, segundo a pureza de teu serviço, queres minha vida tanto quanto a tua.

SEMPRONIO, à parte, a Pármeno: Acreditas nisso, Pármeno? Sei que não jurarias. Lembra-te, se fores buscar a conserva, de apanhar um pote para aquela gentinha, pois isso nos importa mais. Para bom entendedor... Cabe na braguilha.

CALISTO: Que dizes, Sempronio?

SEMPRONIO: Disse a Pármeno, senhor, que fosse buscar uma fatia de cidrão em calda.

PÁRMENO: Aqui está, senhor.

CALISTO: Dá-me.

SEMPRONIO, à parte: Vê como o diabo engole! Queria tragar inteiro para acabar mais depressa.

CALISTO: Minha alma voltou ao corpo. Ficai com Deus, filhos. Esperai a velha e trazei boas alvíssaras.

PÁRMENO, à parte: Vai para o diabo, tu e teus maus anos! E que o cidrão te faça o mesmo que o veneno fez a Apuleio, transformando-o em asno!

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