Auto XI A Celestina · Capítulo 13 de 25
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Auto XI

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Argumento do décimo primeiro auto

Celestina despede-se de Melibea e segue sozinha pela rua, falando consigo. Vê Sempronio e Pármeno, que vão à igreja da Madalena procurar seu senhor. Sempronio fala com Calisto. Celestina chega. Vão para a casa de Calisto. Celestina lhe dá conta de sua mensagem e do negócio concluído com Melibea. Enquanto conversam, Pármeno e Sempronio falam entre si. Celestina despede-se de Calisto, volta para casa e bate à porta. Elicia vem abrir. Ceiam e vão dormir.

CALISTO, CELESTINA, PÁRMENO, SEMPRONIO, ELICIA

CELESTINA. Ai, Deus, permita que eu chegue em casa carregando às costas tamanha alegria! Vejo Pármeno e Sempronio indo à Madalena. Vou atrás deles e, se Calisto não estiver lá, passaremos por sua casa para pedir as alvíssaras de sua grande felicidade.

SEMPRONIO. Senhor, repara que tua permanência aqui dá assunto ao mundo inteiro. Por Deus, foge de andar na boca dos outros, pois ao muito devoto chamam hipócrita. Que dirão, senão que andas roendo os santos? Se tens paixão, sofre-a em casa; não deixes que a terra a perceba. Não descubras tua dor aos estranhos, pois o pandeiro está em mãos de quem sabe tocá-lo muito bem.

CALISTO. Em que mãos?

SEMPRONIO. Nas de Celestina.

CELESTINA. Quem está chamando por Celestina? Que dizeis desta escrava de Calisto? Venho correndo atrás de vós por toda a rua do Arcediago e nunca pude alcançar-vos com estas saias compridas.

CALISTO. Ó joia do mundo, socorro de minhas paixões, espelho de meus olhos! Meu coração se alegra ao ver essa honrada figura, essa nobre velhice. Dize-me, com que vens? Que notícias trazes? Vejo-te alegre e não sei em que ponto está minha vida.

CELESTINA. Na minha língua.

CALISTO. Que dizes, glória e descanso meu? Explica melhor o que disseste.

CELESTINA. Saiamos da igreja, senhor, e, daqui até tua casa, contarei algo que te alegrará de verdade.

PÁRMENO. A velha vem com boa cara, irmão. Deve ter conseguido o que queria.

SEMPRONIO. Escuta-a.

CELESTINA. Passei o dia inteiro, senhor, trabalhando em teu negócio e deixei perder outros dos quais tiraria bom proveito. Muitos estão queixosos de mim por eu querer contentar-te. Deixei de ganhar mais do que imaginas. Mas vá tudo em boa hora, pois trago tão bom resultado que venho cheia de palavras favoráveis de Melibea e a deixei ao teu serviço.

CALISTO. Que é isso que ouço?

CELESTINA. Que ela é mais tua do que de si mesma; está mais sujeita à tua vontade do que à de seu pai, Pleberio.

CALISTO. Fala com cortesia, mãe, não digas tal coisa, ou estes moços dirão que estás louca. Melibea é minha senhora, Melibea é meu Deus, Melibea é minha vida; eu, seu cativo, eu, seu servo.

SEMPRONIO. Por tua falta de confiança, senhor, por não te dares valor e te teres em tão pouca conta, dizes essas coisas e cortas o fio da fala dela. Perturbas todo mundo com desatinos. Por que te benzes? Dá-lhe alguma coisa por seu trabalho; farás melhor, porque é isso que essas palavras estão esperando.

CALISTO. Disseste bem. Mãe minha, sei que teu trabalho jamais será igualado por minha leve recompensa. Em lugar de manto e saia, para que não se reparta o valor entre oficiais, toma esta corrente, põe-na no pescoço e continua tua narrativa e minha alegria.

PÁRMENO. Correntezinha, ele chama! Não ouves, Sempronio? Não faz conta do gasto. Pois eu te asseguro que não daria minha parte por meio marco de ouro, ainda que a velha divida mal.

SEMPRONIO. Nosso amo vai te ouvir. Teremos de amansá-lo e curar-te, tão inchado estás de tanto resmungar. Por meu amor, irmão, ouve e cala, pois foi para isso que Deus te deu dois ouvidos e uma língua só.

PÁRMENO. Que o diabo ouça! Ele está pendurado na boca da velha, surdo, mudo e cego, feito personagem sem fala; mesmo que lhe fizéssemos figas, diria que erguíamos as mãos a Deus, rogando pelo bom fim de seus amores.

SEMPRONIO. Cala-te, ouve, escuta bem Celestina. Por minha alma, ela merece tudo isso e mais. Está dizendo muita coisa.

CELESTINA. Senhor Calisto, para uma velha fraca como eu, usaste de grande liberalidade. Mas, como toda dádiva se julga grande ou pequena conforme quem a concede, não quero pôr em conta meu pouco merecimento diante de quem sobra em qualidade e quantidade. Há de medir-se, antes, por tua magnificência, diante da qual nada é. Em pagamento, restituo-te a saúde, que se perdia; o coração, que te faltava; o juízo, que se alterava. Melibea sofre por ti mais do que tu por ela. Melibea te ama e deseja ver-te. Melibea pensa mais horas em tua pessoa do que na própria. Melibea chama-se tua e toma isso por título de liberdade, e assim abranda o fogo que a queima mais do que a ti.

CALISTO. Moços, estou mesmo aqui? Moços, estou ouvindo isto? Moços, vede se estou desperto. É dia ou noite? Ó Senhor Deus, Pai celestial! Rogo-te que isto não seja sonho! Sim, estou desperto! Se zombas de mim, senhora, para pagar-me com palavras, não temas: dize a verdade, pois, pelo que recebeste de mim, teus passos já merecem mais.

CELESTINA. O coração ferido de desejo nunca toma a boa notícia por certa nem a má por duvidosa. Mas, se zombo ou não, verás esta noite, indo, conforme deixei combinado com ela, à sua casa quando o relógio der doze, para falar-lhe por entre as portas. De sua própria boca saberás por inteiro de minha diligência, de seu desejo, do amor que te tem e de quem o causou.

CALISTO. Então, então, posso esperar tal coisa? É possível que isso venha a acontecer comigo? Morro daqui até lá. Não sou capaz de tanta glória, nem merecedor de tão grande mercê, nem digno de falar com tal senhora por sua própria vontade.

CELESTINA. Sempre ouvi dizer que é mais difícil suportar a fortuna próspera que a adversa, pois uma não tem sossego e a outra tem consolo. Como, senhor Calisto? Não reparas em quem és? Não reparas no tempo que gastaste a seu serviço? Não reparas em quem puseste de permeio? E ainda: até agora sempre duvidaste de alcançá-la e tiveste paciência. Agora que te certifico do fim de teu penar, queres pôr fim à vida? Olha, olha que Celestina está do teu lado e, ainda que te faltasse tudo quanto se exige de um enamorado, eu te venderia como o galã mais perfeito do mundo. Aplainaria as pedras para que andasses e te faria atravessar as águas mais caudalosas sem molhar os pés. Conheces mal a quem dás teu dinheiro.

CALISTO. Espera, senhora! Que me dizes? Ela virá de livre vontade?

CELESTINA. E até de joelhos.

SEMPRONIO. Não seja isso um ruído armado para nos pegarem todos com a mão na massa. Cuidado, mãe, que é assim que costumam dar veneno, escondido no pão, para que o paladar não o perceba.

PÁRMENO. Nunca te ouvi dizer coisa melhor. Muito me faz suspeitar a pronta concessão daquela senhora e o fato de tão depressa aceitar tudo o que Celestina quer. Talvez engane nossa vontade com palavras doces e rápidas para furtar por outro lado, como fazem os egípcios quando nos leem a sina na mão. Por minha fé, mãe, com doces palavras já se vingaram muitas injúrias. O boizinho manso, com o som suave do chocalho, leva as perdizes à rede; o canto da sereia engana os marinheiros simples com sua doçura. Assim também ela, com sua mansidão e pronta concessão, quererá apanhar um bando de nós em segurança; limpará sua inocência com a honra de Calisto e com nossa morte. Como cordeirinha mansa que mama a mãe alheia, ela, com suas garantias, tomará vingança de Calisto em todos nós. E, com a muita gente que tem, poderá caçar pais e filhos numa só ninhada, enquanto tu ficas te coçando junto ao fogo, dizendo: quem toca o sino está a salvo.

CALISTO. Calai-vos, loucos, canalhas, desconfiados! Parece que quereis dar a entender que os anjos sabem fazer mal. Sim, porque Melibea é anjo disfarçado que vive entre nós.

SEMPRONIO. Ainda voltas às tuas heresias? Escuta-o, Pármeno. Não te aflijas, pois, se houver traição, ele pagará, e nós temos boas pernas.

CELESTINA. Senhor, tu estás com a razão; estes dois estão carregados de suspeitas vãs. Fiz tudo o que estava a meu cargo. Deixo-te alegre. Deus te guarde e guie. Parto muito contente. Se precisares de mim para isto ou para mais, lá estarei, muito pronta a teu serviço.

PÁRMENO. Hi, hi, hi!

SEMPRONIO. De que ris, por tua vida, Pármeno?

PÁRMENO. Da pressa que a velha tem de ir embora. Não vê a hora de desgrudar a corrente desta casa. Não consegue acreditar que a tem em seu poder nem que de fato lha deram. Julga-se tão pouco digna de tal dom quanto Calisto de Melibea.

SEMPRONIO. Que queres que faça uma puta alcoviteira, que sabe e entende aquilo que nós calamos e costuma refazer sete hímenes por duas moedas, depois de se ver carregada de ouro, senão pôr a posse a salvo, temendo que lha tomem de volta, agora que já cumpriu a parte para a qual era necessária? Pois que se guarde do diabo, porque, na hora da partilha, ainda lhe arrancaremos a alma!

CALISTO. Deus vá contigo, mãe. Quero dormir e repousar um pouco, para compensar as noites passadas e preparar-me para a que vem.

CELESTINA. Toc, toc.

ELICIA. Quem chama?

CELESTINA. Abre, filha Elicia.

ELICIA. Como vens tão tarde? Não devias fazer isso, pois és velha; podes tropeçar, cair e morrer.

CELESTINA. Não temo isso, pois de dia observo por onde hei de voltar à noite. Nunca subo em passeio nem calçada; venho pelo meio da rua. Como dizem, não dá passo seguro quem corre junto ao muro, e mais são vai quem anda pelo plano. Antes quero sujar os sapatos de lama que ensanguentar a touca e as têmporas. Mas não é isso que te dói.

ELICIA. E o que me haveria de doer?

CELESTINA. Que a companhia que deixei contigo se foi, e ficaste sozinha.

ELICIA. Já se passaram quatro horas desde então. Ainda havia de me lembrar disso?

CELESTINA. Quanto mais cedo te deixaram, com mais razão sentiste. Mas deixemos a ida deles e minha demora. Tratemos de cear e dormir.

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