Apêndice
Memoria descritiva do reconhecimento
do caminho entre os rios Taquary
e Aquidauana, feito pelos engenheiros capitão bacharel
Antonio Florencio
Pereira do Lago e 2º tenente bacharel Alfredo d'Escragnolle
Taunay,
ajudantes da comissão de engenheiros junto ás
forças em operações
no sul da província de Mato-Grosso.
I
Exploração entre os rios Taquary e Negro
No dia 13 de Fevereiro passámos, defronte do acampamento
goyano, o rio Taquary e margeando-o á esquerda,
fomos, pela necessidade de descanço em consequencia do
grande nado a que tinhão sido obrigados os animaes, pousar
junto ao ribeirão da Fortaleza, com 20 minutos em tempo
de distancia percorrida. A sua margem esquerda é
escarpada e necessita ser rampada para a descida de carros;
a direita é baixa e arenosa como o alveo d'este tributario
do Taquary, que, depois de grandes chuvas, nega
passagem a váo. Conta de largura 50 palmos, de profundidade
3, 1
1
/
2
por segundo de velocidade e a elle segue-se
uma mata onde existem varias rampas que podem ser
facilmente vencidas. Deixando pelo lado esquerdo o Taquary
e seguindo parallelamente ao seu confluente, o Coxim,
que, pouco depois, desapparece, começámos a
acompanhar
o Taquary-mirim, o qual ora afasta-se, ora approxima-se
muito perto do caminho, transpondo-se com 32 minutos
de marcha um pequeno corrego, cujas ribanças
necessitão
ser modificadas, e d'ahi a 43 milhas, outro nas mesmas
condições. Com mais 41 minutos
passámos um ribeirinho
cujos barrancos devem ser cortados para facilitar a passagem,
e pouco depois chegámos á cachoeira do
Taquary-mirim
(pouso dos Boritys), junto á qual existem vestigios
de um acampamento dos paraguayos e onde pernoitámos.
A distancia percorrida foi sempre em terreno secco,
de base argilo-arenosa, entre cerrados em que predominão
anonaceas
(araticús do
campo) e varias especies de
byrsonima
:
o caminho é uma simples trilha, muito visivel
porém
e sempre seguido.
Tempo
gasto | 4 horas e 32
minutos.
[120] Distancia
percorrida | 8,265
braças, ou 2 3 / 4 legoas proximamente.
Deixando o pouso dos Boritys que oferecerá um acampamento
regular para as forças em marcha, com 36 milhas
de marcha fomos ter ao corrego da Porteira, a 77
minutos do qual passámos outro, chegando ao
ribeirão da
Mata depois de caminharmos mais 95 minutos. A 50 braças
antes d'esta corrente, existe um terreno baixo que ha
de tornar-se alagadiço com a
continuação de chuvas, podendo
ser praticada, n'este caso, uma extensa estiva pelo
muito mato, que cobre as margens do ribeirão.
O leito d'este é arenoso; a largura média de 50
palmos,
2 de profundidade, chegando a negar váo no tempo de
grandes enchentes. Ahi podérão acampar as
forças depois
de ter sido facilitada a passagem, rampando-se a margem
esquerda.
Tempo
gasto | 4 horas e 0
minutos.
Distancia
percorrida | 7,285
braças, ou 2 8 / 2 legoas proximamente.
A 16 minutos do ribeirão da Mata, existe uma casa
abandonada,
proxima a um capão, denominado Tapera, assim
como o corrego, que, pouco adiante, dirige-se para E. entre
margens pouco firmes, permittindo porém a proximidade
do mato fazer-se de prompto uma estiva para a passagem
de cargueiros e carros. D'ahi a 8 minutos passámos um
pequeno pantano de 30 braças, que póde dar boa
passagem,
se as chuvas não augmentarem e o tempo tornar-se
secco; devendo ser este espaço estivado no caso contrario.
Continuando, atravessámos o ribeirão Claro, cujas
margens
altas e nemorosas precisão ser melhoradas, com leito
pedregoso,
largura de 35 palmos e profundidade de 1
1
/
2
.
Depois
de chuvas continuadas impede o transito. Depois de
110 minutos chegámos ao ribeirão Verde que tem
margens
abruptas, cobertas de mato, leito de grandes lages,
váo pessimo para a passagem de animaes carregados.
Tem de largura 65 palmos, 3
1
/
2
de profundidade, augmentada
porém, durante as aguas, a ponto de vedar o
transito.
A força póde acampar em sua margem direita depois
de rampados os barrancos que encanão este
ribeirão.
Tempo
gasto | 3 horas e
minutos.
Distancia
percorrida | 5,463
braças,
ou 1 1 / 3 legoas proximamente.
Sahindo do ribeirão Verde, passámos com 63
minutos
de marcha um bosque e d'ahi a 30 minutos a mata ou
capoeira do Major com abrupta descida que vai ter a um
pantano, em que gastámos 5 minutos, seguindo-se nova
mata e outro almargeal cortado tambem por mato. O terreno
começa a subir: torna-se pedregoso e entra-se no
Portão de Roma: pessima e difficultosa passagem
embaraçada
com grandes lages e rochas que se achão na trilha
que serve para a viação. As carretas dos
paraguayos passárão
por este desfiladeiro: entretanto será necessario um
trabalho preliminar ou um desvio para conseguir-se facil
transito. Continuando a caminhar, margeámos um lugar
pantanoso logo abaixo do serrote e com mais 44 minutos
fomos pousar no Lageadinho, onde um pequeno lagrimal
dá agua em toda esta estação.
Tempo
gasto | 3 horas e
49
minutos.
Distancia
percorrida | 6,951
braças, ou 2 1 / 4 legoas proximamente.
Deixando o Lageadinho, passámos um lagrimal depois
de 65 minutos de marcha e com mais 65 o corrego do
Castelhano, entrando d'ahi a 15 minutos n'uma mata,
atravessada por um filete d'agua, seguindo-se outras, cortadas,
de distancia em distancia, por campos dobrados até o
corrego da Volta, onde poderá formar-se o acampamento
das forças.
Tempo
gasto | 5 horas e 19
minutos.
Distancia
percorrida | 9,683
braças, ou 3 3 / 2 legoas proximamente.
Do corrego da Volta, com 41 minutos de marcha passámos
n'um matagal, e com mais 32 minutos o ribeirão
do Perdigão, cujas margens hão de necessitar de
concertos
para a facil transposição.
D'este ribeirão, com 44 minutos, entrámos na mata
dos Jaós, de 3 minutos de extensão, onde os
paraguayos
deixárão uma canôa, que
poderá servir para a passagem
do rio Negro, caso seja concertada e transportada para
aquelle ponto. Com 65 minutos chegámos ao corrego da
Cachoeirinha, e, d'ahi ao corrego Fundo, gastámos mais
de 40 minutos. Poderá acampar a força, depois de
feita
uma estiva nas margens pouco firmes d'este corrego.
Tempo
gasto | 3 horas e 46
minutos.
Distancia
percorrida | 6,860
braças, ou 2 1 / 4 legoas proximamente.
Com 119 minutos de marcha fomos do corrego Fundo
a um pequeno olho d'agua, d'ahi a 77 minutos a um lagrimal
e com mais 81 minutos ao rio Negrinho, passando
antes por um terreno baixo e alagado. O rio dá
váo comodo
no tempo secco: n'esta estação, porém,
a profundidade
é de 7 palmos, sendo a sua largura de 63. Uma
arvore cahida, de uma margem á outra, servio-nos para
a passagem das cargas, e com pouco trabalho ter-se-ha
uma boa pinguela. O váo acha-se a 30 braças mais
ou
menos acima do lugar em que está a arvore, subindo
pela margem esquerda. O acampamento na margem direita,
depois de passar a mata, é melhor, ainda que mais
distante da agua.
Tempo
gasto | 4 horas e 37
minutos.
Distancia
percorrida | 8,408
braças, ou 2 3 / 4 legoas proximamente.
Deixando a margem esquerda do rio Negrinho, depois
de passarmos pela sua mata (onde existem depressões,
chamadas
corixas
, que ficão cheias
d'agua e dão nado durante
as enchentes), fomos ter, com legoa e meia de viagem
ao Potreiro, pequeno rancho na fazenda dos cidadãos
Antonio Alves Ribeiro, e Tiberio, onde não
encontrámos
além do gado, que não póde ser reunido
por falta de cavalhada,
recurso de qualidade alguma para a força, nem pessoal
para trabalhar na construcção de canôas
para a passagem
do rio Negro. D'este ponto até o rio, o caminho
apaga-se quasi completamente; é apenas uma trilha mal
aberta por alguns fugitivos de Miranda, a qual atravessa
grandes pantanaes, duas corixas cheias, charcos e mata
muito cerrada. Se os meios para passar o rio estiverem
promptos, deverá a força ir acampar na margem do
rio;
no caso contrario, demorar-se-ha junto ao Potreiro.
Tempo
gasto | 4 horas e 48
minutos.
Distancia
percorrida | 8,742
braças, ou 3 legoas proximamente.
A passagem para a infantaria é sempre comoda e
facil até o Potreiro; para os carros, porém, e
bagagem
será necessario rampar as margens das correntes que
atravessão
o caminho e fazer estivados em differentes pontos.
Nas matas, e nos cerrados, ha páos e taquaras que
embaráção
o transito; pelo que deverá ir, sempre dianteiro
á
força, um certo numero de homens armados de machados
e fouces, para removerem estes obstaculos. Do Potreiro,
porém, ao rio Negro, até para homens a
pé, o caminho
é de difficil viabilidade, e necessita ser aberto e
melhorado
para o transito.
Com excepção do Portão de Roma,
proximidades do
Lageadinho e margem dos corregos e ribeirões, os declives
do caminho são sempre bons: o leito é uma
estreita
trilha, argilo-silicoso, quasi sempre secco até pouco
adiante
do Potreiro.
Achamo-nos hoje na margem do rio Negro, sem termos
encontrado guia para o caminho que segue a fralda da
serra de Maracajú até a aldêa da
Piranhinha, o qual os
soldados desconhecem, e vamos encetar viagem á tôa
e
sem indicações certas.
Margem esquerda do rio Negro, 25 de Fevereiro de 1866.
POUSOS PARA A FORÇA
Ao pouso dos
Boritys | 2 | 3 / 4 | legoas
Ao ribeirão da
Mata | 2 | 1 / 2 | "
Ao ribeirão
Verde | 1 | 3 / 4 | "
Ao
Lageadinho | 2 | 1 / 4 | "
Ao corrego da
Volta | 3 | 1 / 2 | "
Ao corrego
Fundo | 2 | 1 / 4 | "
Ao rio
Negrinho | 2 | 3 / 4 | "
Ao rio
Negro | 3 | "
Somma | 20 | 3 / 4 | "
Do rio Taquary ao rio Negro | 20 | 3 / 4 | "
A planta topographica indicará outros pousos, caso
não
convenhão estes, e dá os accidentes de terreno e
direcções
magneticas.
II Exploração entre o rio Negro e os Morros
No dia 25 de Fevereiro, passando o rio Negro n'uma
pelota, transportámo-nos para a sua margem esquerda,
baixa, paludosa e coberta da mesma vegetação que
já tinhamos
achado do outro lado. Por espaço de um quarto
de legoa lutámos n'ella com os obstaculos provenientes das
enchentes do rio, sendo obrigados a novas passagens, em
pelota, de corixas cheias e pyrisaes (lugares inundados)
e á marcha em terreno sempre humido e atoladiço.
Abre-se
depois o campo com cerrados ao longe, e achámo-nos
na base da serra de Maracajú, que era o nosso unico meio
de direcção na procura da trilha, que
dizião ter sido aberta
pelos fugitivos de Miranda, na invasão d'este distrito no
ano passado. Com efeito avistavamos uma longa e continuada
serrania que tinhamos de deixar á esquerda, fraldejando
a sua aba e fugindo ás aguas que cobrião a
estrada
seguida no tempo secco até o rio Aquidauana.
A questão era examinar a qualidade de terreno, em que
tinhamos de marchar e saber das vantagens da abertura de
um caminho para a força nos seus primeiros movimentos
para o Baixo-Paraguay.
Seguindo pois o rumo S., desde as primeiras horas de
marcha, reconhecemos as difficuldades que tinhamos de vencer
na procura d'aquella supposta trilha e dos vestigios
da passagem, bem que recente, de um homem a cavallo,
apagadas de todo ou pelas chuvas ou pelas pégádas
do
gado que vaguêa pelos campos, indo a final esbarrar em
uma mata tão cerrada que roubou-nos boa
porção do dia, não
nos permittindo caminhar mais de legoa e meia. No pouso
verificámos que a carne secca, que haviamos preparado
no Potreiro para a nossa viagem, calculada em oito dias,
pelas passagens nas corixas e pela muita chuva dos dias
anteriores, achava-se de todo deteriorada. A impossibilidade
de termos recursos d'aquelle lugar, pois que a ultima
porção
de gado recolhido, fôra levado da fazenda do Retiro para
o Coxim e a esperança de podermos matar alguma das
rezes que encontravamos,
não nos permittírão duvida sobre
o que deviamos resolver. Dous dias depois caminhando
sempre, ora em terreno pantanoso e atoladiço, até
a fralda
da serra, ora em cerrados de difficultosa passagem, achavamo-nos
com todos os recursos de boca completamente
esgotados e com a certeza desesperadora da quasi impossibilidade
em matarmos á bala rezes, completamente selvagens
e ariscas.
Os nossos males crescêrão com a fuga de todos os
animaes,
o que nos reteve nas mais crueis necessidades, junto
ao corrego da Afflicção, durante dous dias nos
quaes sustentámo-nos
de fructos silvestres, que os soldados podérão
colher. Conseguindo no terceiro dia alguns dos animaes,
proseguimos viagem deixando quatro d'elles perdidos e
canastras escondidas na mata proxima, alimentando-nos
desde então por oito dias de miôlo de palmeiras e
de
alguns fructos do mato, soffrendo sempre chuvas torrenciaes
e contrariedades. Em todo este tempo fizemos apenas 11
legoas, apezar de andarmos dias inteiros, ora rodeando
charcos perigosos, ora abrindo picadas em cerrados de
intrincadissima taquára. Em parte alguma viamos uma
trilha seguida: quando nos suppunhamos perdidos, deparavamos
algum rancho abandonado, uma arvore cortada,
um signal que indicava acharmo-nos no rumo
seguido pelos fugitivos, os quaes, sem duvida, tiverão
interesse em occultar os seus vestigios, acoçados dos
paraguayos, que demandavão o mesmo caminho, como o
vimos pelos signaes de acampamento de forças. Tomando
afinal o rumo O. fomos trilhar a parte, transitavel
hoje, do caminho do pantanal, onde podémos dar fim
aos nossos soffrimentos, conseguindo carnear uma rez.
No dia 10 passámos o rio
Tabôco
que
achámos de nado
e, visitando no dia seguinte o aldeamento dos indios na
Piranhinha, chegámos no dia 11 ao arranchamento do
cidadão João Pacheco de Almeida, onde tivemos
recebimento
hospitaleiro e sympathico e onde nos achamos
agasalhados.
CAMINHO QUE A FORÇA DEVE SEGUIR
Não existe trilha alguma junto á fralda da serra
de
Maracajú. O pantanal que vai até a base d'esta
serrania
é em terreno fôfo e de perigoso transito,
sobretudo
para grande numero de cargueiros e carros: nos cerrados,
o sapé alto, capins e taquaras maltratão os
infantes
e canção sobremodo os animaes. Só nos
principios
de Maio poderão, segundo informações
de pessoas praticas,
achar-se estes lugares seccos; época em que o caminho,
chamado do pantanal, conhecido por muitos e
trilhado, dá excellente passagem por occasião da
retirada
das aguas. A vantagem de ser a trilha do pantanal
sempre firme, não póde deixar duvida sobre o
caminho
a seguir, escolhido que seja um guia, conhecedor d'estes
lugares que dê indicações dos lugares
em que se encontrão
boas aguadas. O
capataz
da fazenda
do
Tabôco
,
o cidadão Antonio Maria Tonhá, é muito
proprio para
este serviço.
CONTINGENTE PARA A FORÇA
Guarda nacional.
--Os guardas
nacionaes, que existem
debaixo das ordens do tenente coronel Albuquerque,
não podem perfazer o numero de 100: melhores
informações sobre seu armamento, fardamento e
municiamento,
teremos depois de recebermos resposta ao nosso
oficio de 17 do corrente ou conversarmos com o tenente
coronel comandante; o que tudo havemos de comunicar
com a brevidade possivel.
Indios.
--No aldeamento dos indios
terenas, da Piranhinha,
encontrámos a melhor disposição na
gente do capitão
José Pedro: apresentárão-se-nos 60
moços bons atiradores e
proprios para servirem de excellente tropa em sorprezas e
emboscadas.
No aldeamento de Francisco Dias ha 40 homens robustos,
em estado de pegarem em armas: achão-se armados, e
só
lhes falta cartuxame.
Da gente quiniquináo, acampada em diversos pontos,
póde-se contar com 30 homens.
São ao todo 130 indios que estão no caso de
servir de
contingente á força. Falta-nos comtudo visitar, a
oito ou
dez legoas d'aqui, dous aldeamentos, um quiniquináo e
outro laiana, que devem augmentar o numero de homens e
dar alguns alqueires de arroz e milho. Áquem de Miranda
ha tambem outros pontos em que existem indios foragidos.
A indole dos indios é guerreira: votão odio
encarniçado
aos paraguayos e estão com estes em continua guerra de
emboscada, em que a crueldade e ferocidade de ambos os
lados tem trazido
A indole dos indios é guerreira: votão odio
encarniçado
aos paraguayos e estão com estes em continua guerra de
emboscada, em que a crueldade e ferocidade de ambos os
lados tem trazido temor e receio reciprocos; entretanto a
inconstancia de genio e a impossibilidade em confiar na
disposição
de espirito e firmeza para arrostarem no campo e de
frente o inimigo, os torna apenas proprios para atiradores
em matas e guerrilheiros.
RECURSOS COM QUE DEVE CONTAR A FORÇA
Gado.
--Desde o rio Negro
até a Piranhinha vimos immensa
quantidade de rezes, vagando pelos campos em grandes
manadas. Entretanto a necessidade, para o fornecimento,
de bons cavallos para rodear-se o gado, obrigará
á espera
da terminação da peste que grassa entre os
animaes até fins
de Abril, e que tem destruido toda a cavalhada desde o
Coxim até estes lugares.
Um contractador, de posse comtudo de bons animaes,
poderá com facilidade, em todos os pousos da
força, reunir
a quantidade precisa de rezes nas fazendas de Joaquim Alves,
Fialho, capitão Pires (prisioneiro dos paraguayos),
José
Alves de Arruda e outros.
Os cidadãos que pelas informações
colhidas, poderão se
encarregar do fornecimento são: Joaquim Alves e Canuto
Virgolino de Faria (no Coxim); mas deverão de
antemão
comprar cavallos para se acharem em circumstancias de cumprir
com os seus compromissos.
Calcula-se em 13,000 cabeças o gado que existe nas fazendas
apontadas acima, e só póde haver difficuldade na
obtenção de rezes com a falta de cavallos, para o
que devem
ser tomadas providencias acertadas.
Cereaes.
--As
plantações dos refugiados de Miranda,
além das limitadas proporções em que
forão efectuadas para
proverem unicamente á subsistencia particular,
não derão
colheita satisfactoria. O milho veio muito falhado; o arroz
abaixo da expectação: são comtudo os
dous generos que
mais avultão. Ha grande difficuldade em reduzir-se o milho
existente á farinha, ou á cangica, pela falta de
um monjólo;
promettem alguns alqueires á custa de braços.
Não ha nenhum feijão recolhido: apenas algumas
quartas
plantadas, que comtudo pouco podem dar pela falta de chuva
e má época em que forão
lançadas em terra.
Sal.
--Ha grande carencia de sal:
apenas existem 2 ou
3 alqueires que estão sendo vendidos.
Os dados que seguem forão todos colhidos com a maior
minuciosidade, e são o resumo de quantidades parciaes, como
se vê do mappa annexo:
Milho | 50 | alqueires
Cangica | 57 | "
Farinha | 10 | "
Arroz com
casca | 110 | "
Arroz
socado | 155 | "
Somma | 382 | "
FORÇA INIMIGA
Interrogando diversas pessoas e indios, que têm, desde
Janeiro até fins de Fevereiro, visitado os lugares ainda
occupados por forças, colhemos as seguintes
informações:
Na fazenda do
Souza | 50 a
150 | homens
No
Espenidio | 200 | "
Na
Forquilha | 100 | "
Em
Nioac | 360 | "
Ao
todo | 810 | "
No porto do Souza existe um entrincheiramento a menos
de meia legoa do rio, e entre estes dous pontos uma guarda
rendida diariamente, que serve para vigiar o Aquidauana.
N'este entrincheiramento houve ultimamente augmento de
força, pois que ouvem-se agora rufos de tambores e toques
de corneta, o que não acontecia até fins de
Janeiro: ha uma
peça de artilharia para defendel-o e uma palissada de
grossos
madeiros de aroeira. Iremos com as precauções
precisas
visitar estes pontos, comunicando logo o que tivermos
observado.
A Forquilha e o Espenidio achão-se no caminho de Nioac
á villa de Miranda. Este ultimo ponto está
presentemente
abandonado, todas as casas forão queimadas e não
ha mais
guarnição. É
informação de André José
dos Santos, que
nos ultimos dias de Janeiro, com 6 companheiros foi reconhecer
o inimigo, voltando no dia 4 de Fevereiro.
A Nioac chegou, a 3 de Fevereiro, Agostinho Joaquim
Coelho, assistindo, de uma mata proxima, ao exercicio de
um batalhão de infantaria pesada, formado em 6
pelotões
de 30 filas pouco mais ou menos. A gente que se acha na
fazenda do Souza é aguerrida e regular, o resto dizem
constar de
soldados ainda bisonhos. A cavalhada, de que elles
dispõem, é boa, como vimos por alguns cavallos
roubados
pelos indios.
Usa a infantaria de espingardas á Minié de 1,000
passos,
e a cavallaria de lanças que manejão com muita
destreza,
de clavinas e espadas. Nas cartuxeiras trazem os soldados
80 cartuxos: os indios afianção que
são máos atiradores,
fazendo comtudo justiça completa á coragem e
valor nunca
desmentidos do inimigo.
Os paraguayos desde Maio do ano passado não
fizerão
mais correrias na margem direita do Aquidauana; provêem-se
de gado, abundantissimo no outro lado, e considerão o rio
divisa do territorio brasileiro.
Existe uma estrada, chamada do Canastrão, pela qual, de
Dourados, onde ha força, e da fronteira podem vir soccorros
para coadjuvarem os contingentes espalhados no distrito
de Miranda.
Esperão-se aqui cartas de um fazendeiro de Nioac, preso
dos paraguayos, que foi visitado pelo indio laiana Joaquim
da Silva em Fevereiro, o qual dá noticia de mais
destacamentos
na Ariranha e no Esbarrancado, a 8 legoas além
de Nioac.
Suppõe-se que os destacamentos no Souza e Espenidio
têem ordem para concentrar-se, com o apparecimento de
nossas forças, em Nioac, afim de, attrahindo-as
até este
ponto, poder ser cortada a nossa retaguarda pelo caminho
do Canastrão, que vem do Paraguay a Miranda.
RESUMO
O movimento da força brasileira póde efectuar-se
nos
primeiros dias de Maio, tomando o caminho do rio Negro, e
depois o do pantanal, que deve de estar completamente secco,
reunida que seja boa cavalhada para o fornecimento de
gado durante a marcha. Com poucos generos póde contar
dos Morros e dos indios. Nas operações,
além do Aquidauna,
deve esperar encontrar mais de 1,000 inimigos, entrincheirados
o mais das vezes, e dispostos á resistencia.
RIOS QUE PASSÁMOS
O rio Negro, no lugar de nossa passagem, tem 18 braças:
entretanto como a força deverá vir pelo caminho
do
pantanal, indicado no nosso trabalho pelo traço colorido que
vai ligarse ao caminho do roteiro do
primeiro reconhecimento,
além do Potreiro, é necessario visitar o rio mais
baixo e conhecer
a sua largura.
O rio Tabôco tem 30 braças de largura.
Meios de passagem.
--Para o rio Negro
devem-se
promptificar barcas, pois que as margens baixas e atoladiças
não facilitão a construcção
de uma ponte. O rio
[121]
tem lugares de bom váo, como o afiança o pratico
Tonhá,
que conhece-os perfeitamente. O rio Tabôco é
vadeavel.
Para o Aquidauana precisão ser trazidas ao porto do
Jatobá,
ou ao de D. Maria Domingas, as canôas do tenente
coronel Albuquerque da sua fazenda do rio Negro e a
prancha do cidadão Cardoso Guaporé, o qual
já foi examinar
o estado em que ella se acha, por estar escondida,
ha mais de ano, n'uma volta do rio.
DISTANCIA QUE PERCORREMOS
Do rio Negro
á entrada do Pantanal | 13 | legoas
D'ahi
á
Piuva. | 1 | 1 / 4 | "
Da Piuva aos Dous
Corregos. | 1 | 1 / 2 | "
Dos Dous Corregos
ao
Tabôco. | 3 | 1 / 2 | "
Do
Tabôco á ponta do morro
d'onde o caminho segue para
o
Aquidauana. | 1 | 3 / 4 | "
D'aquella ponta | á
Piranhinha. | 1 | 1 / 4 | "
" | " | a João
Pacheco. | 3 | 1 / 4 | "
De
João Pacheco a Francisco
Dias. | 1 / 2 | "
Somma | 26 | "
A volta pelo caminho do Pantanal não póde exceder
de 4 legoas.
Morros, 20 de Março de 1866.
III Exploração á margem direita do rio Aquidauana
A necessidade de visitarmos dous aldeamentos de indios
e reconhecermos a margem direita do rio Aquidauana
e seus diversos portos que derão passagem aos
paraguayos, na invasão do ano passado, fez-nos emprehender
nova viagem, efectuando a nossa partida para
aquelles pontos, no dia 24 do mez proximo passado.
Seguindo ás vezes a base da serra que viemos fraldejando,
desde o rio Negro, outras cortando-a em diversas e profundas
depressões, visitámos a 7
1
/
4
legoas de nosso
ponto
de partida o acampamento dos laianas, onde apenas
encontrámos
20 homens em estado de pegar em armas, e viveres
em quantidade insufficiente, até para sustento proprio.
No aldeamento do Oauassú, a 3 legoas do outro, ha igual
carencia de mantimentos e só 9 indios para augmentarem o
contingente, que dá a tribu dos quiniquináos.
Tomando d'ahi
rumo S., procurámos o Aquidauana, indo acampar junto
á sua margem direita que, desde então, seguimos
até a tapera
do Pires, d'onde fizemo-nos na volta dos Morros.
Achão-se junto á borda do rio, que
margeámos, differentes
casas abandonadas por occasião da entrada dos
paraguayos, as quaes tem cada qual a sua passagem para
o outro lado e porto no rio.
Assim são os portos do Canuto, até onde chegou
uma
partida inimiga vinda do Taquarussú, de João
Dias,
Maria Domingas, Francisco Dias, etc., que vão apontados
no reconhecimento topographico. Examinando cada um
d'elles com cuidado, para indicarmos a passagem mais
conveniente para a força, pareceu-nos o porto de D. Maria
Domingas o que satisfaz a todas as condições
precisas.
É o unico que dá váo em toda a
extensão (30
braças) com profundidade de 4 a 8 palmos, facilitando
assim não só a passagem da infantaria, como
tambem
o serviço das barcas, que será feito com muito
mais
presteza, tocadas e puxadas á mão.
Além d'isto a força, occupando a margem esquerda,
corta
a comunicação entre o entrincheiramento do porto
do
Souza e o do Espenidio e impede qualquer movimento
de concentração que os inimigos procurem fazer.
Do largo
da Piranhinha deverão as forças dirigir-se para o
porto
de D. Maria Domingas, tendo á frente um bom pratico
d'estas localidades, caso não seja tomada outra
determinação.
D'este porto ao do Souza, pela margem esquerda contão-se
4 legoas de trilha completamente secca e, a não
querer cortar campo, é d'elle que partem caminhos para
Miranda, Forquilha, Nioac, etc.
Do porto de D. Maria Domingas ao
Eponadig | 4 | legoas
Do Eponadig á
Forquilha | 7 | "
Da Forquilha a
Nioac | 10 | "
Do porto a
Nioac | 21 | "
Alguns d'estes pontos e mais o Espenidio e o Souza,
occupados pelos paraguayos, fórmão uma linha que
fecha
em circulo a villa de Miranda; razão por que foi ella
abandonada e queimada, reforçando-se os pontos estabelecidos
em derredor. Assim pois a retirada de Miranda
não tem significação de
evacuação de forças, parecendo,
pelo contrario, dever indicar a tenção de melhor
defender
o territorio, em que se achão e que
fechárão por um
cordão de destacamentos desde o Apa até o Souza.
A este ultimo ponto não podémos chegar, pois que
um desencontro na remessa de cartuxos, que tinhamos
requisitado do Ilm. Sr. tenente coronel Albuquerque,
obrigou-nos a não efectuar este reconhecimento arriscado
e que só póde ser feito á
mão armada, pela vigilancia
que, sobre a outra margem, exercem os paraguayos. Mandámos
comtudo uma partida de indios
[122]
reconhecer, de
dentro da mata, a estacada e, apezar de seus habitos
e habilidade na espionagem, não
podérão passar além
do piquete que, como já participámos, existe
entre o
rio e o entrincheiramento. Este piquete compõe-se de
10 a 12 praças, que se achavão montadas em burros
(o
que indica a falta de cavallos) para cercarem as rezes que
conservão, encostadas á margem do rio, para o
consumo. Na
frente ha uma bandeira vermelha, junto a um
mangrulho
,
d'onde uma sentinella devassa grande extensão de terreno.
(Os paraguayos chamão
mangrulho
a uma guarita elevada
sobre 2 ou 4 esteios de 40 a 60 palmos, d'onde a
vista se estende muito ao longe).
Descendo o rio pela margem direita, chega-se com 4
legoas de marcha ao porto do Jatobá, que dizem ser
vadeavel, depois de um pequeno nado e que dista do
Souza, pela margem esquerda, 2
1
/
2
legoas.
Em geral todas as trilhas achão-se apagadas pelo
muito capim e falta de transito: devem ser preparadas
quando a força tiver de dirigir-se ao porto escolhido
para a sua passagem.
Distancia que
percorremos | 23
legoas.
CONTINGENTE PARA A FORÇA OPERADORA
Guarda nacional.
--Segundo as
informações, que nos
prestou o Ilm. Sr. tenente coronel Albuquerque, comandante
do batalhão n. 7 da guarda nacional, existem
85 praças mal armadas e sem fardamento e poucos
oficiaes, tendo-se retirado a maior parte d'elles para
diversos pontos longinquos d'esta provincia. Achão-se os
guardas espalhados n'uma larga zona e são elles os que
preparão a maior quantidade de mantimentos, o que
deve ser attendido por occasião de sua reunião
que desfalcará,
pela falta de braços, o numero de alqueires de
mantimentos com que poderia a força contar.
Estão tambem qualificados guardas nacionaes indios
quiniquináos e terenas que melhores serviços
prestarião
englobados nas suas respectivas tribus, como por exemplo
o indio José Pedro, capitão dos terenas, que deve
ser
conservado á frente de sua gente pelo respeito que tem
sabido infundir e obediencia que lhe prestão os seus
companheiros.
A guarda nacional acampou, de 3 a 22 de Setembro
do ano passado, junto ao capão dos Boritys, tendo-se ahi
reunido 66 praças desarmadas, que forão
licenciadas
para cuidarem em roçados e plantações.
Existe algum
cartuxame para seu municiamento: entretanto ha muitos
cartuxos deteriorados e inserviveis.
Indios.
--Informações
frescas colhidas do Sr. João da
Costa Lima, que chegou das aldêas além Aquidauana,
dão-nos
os meios de apresentar o total de indios que, além dos
guaycurús, cujo capitão Nadô consta
vir-se apresentar com
toda a sua tribu, poderá coadjuvar a força.
Terenas | 216
Quiniquináos | 39
Laianas | 20
275 | homens.
Estes indios mostrão a melhor
disposição, oferecendo-se
com espontaneidade e servindo com toda a
dedicação, como
verificámos nos nossos ultimos reconhecimentos.
Achão-se
muito atemorisados com a chegada da força, pois que
repetidas
ameaças dos fazendeiros, refugiados aqui e em
outros lugares, por causa das rezes que elles são obrigados
a matar para a sua alimentação, tem incutido o
temor de
que as forças virão escravisal-os e tratal-os com
todo o rigor
da guerra. Procurámos tranquillisar esta pobre gente que,
nos calamitosos mezes de invasão,
portárão-se com moderação
não natural na esphera e condição em
que
vivem.
Os
cadiuéos
, inimigos
figadaes dos paraguayos, não merecem
confiança alguma e têem, em varias
occasiões, causado
tantos damnos aos brasileiros como aos inimigos.
RECURSOS
Insistindo ainda sobre a importantissima questão de
fornecimento
e acquisição de gado, que se tem tornado muito
difficultoso, depois da peste dos cavallos, levámos ao
conhecimento
do comando das forças a falta absoluta de cavalhada
desde o Coxim até os Morros, onde os fugitivos de
Miranda se achão desprovidos de carne para sustento proprio,
pela destruição completa de todos os animaes,
desde
Dezembro do ano passado. O tenente coronel Albuquerque
indica os cidadãos, de que fallámos na nossa
ultima participação,
prestando-se-lhes os meios para munirem-se de cavallos.
Ao numero de alqueires, dado no mappa dos mantimentos,
que se podem obter dos habitantes dos Morros, devem ser
addicionados mais 45 de arroz, e de cangica 22. Ponderamos
comtudo de novo que o chamamento dos guardas nacionaes
ao serviço das armas, deve diminuir a quantidade de viveres
indicada n'aquelle mappa, por não se achar a colheita
concluida, e pertencerem quasi todos os seus possuidores á
guarda nacional. A requisição que, segundo as
nossas instrucções,
fizemos de homens para a construcção de
canôas
no rio Negro, impossibilita varios cidadãos de
promptificarem
os mantimentos que tinhão promettido.
Indagando de diversos pontos d'esta provincia ou de outra
que poderião mandar viveres para as forças no
distrito de
Miranda, apontárão-nos a villa de Santa Anna do
Paranahyba,
que dista de Camapuam 60 legoas, ficando este ultimo
lugar, hoje completamente abandonado, a 50 legoas da villa
de Miranda; por agua fallárão-nos na
comunicação muito
frequente antes da invasão, entre Porto Feliz, em S. Paulo,
e o acampamento de Nioac, descendo canôas carregadas os
rios Tieté e Paraná, e subindo o Ivinheima e
Brilhante até
Sete Voltas, d'onde, com cinco dias, chegavão carros a
Nioac.
Esta viagem, que fazião em 4 mezes, ida e volta,
póde fornecer
abundante provimento ás forças no caso de sua
demora
no Baixo-Paraguay: indicamol-a por ser esta hypothese
possivel e dever cuidar-se quanto antes na reunião de
viveres
que, de mais á mais, hão de tornar-se escassos em
territorio devastado e sem recursos.
MEIOS DE PASSAGEM DO RIO NEGRO E AQUIDAUANA
Guiando-nos pelas nossas participações
anteriores, que
aconselhão a marcha das forças do Coxim nos
primeiros dias
de Maio, requisitámos a 6 do corrente 12 guardas nacionaes
e indios para irem construir barcos para a passagem da
expedição.
Com difficuldade, apezar das ordens do tenente coronel
comandante, estão-se reunindo as praças pedidas,
faltando
completamente toda a especie de ferramenta. Estes homens,
como melhores trabalhadores, são os que preparão
a maior
quantidade de mantimentos para a força, não se
achando
ainda terminada a colheita de milho e arroz, e sobretudo
não tem meio algum de conduzir viveres que cheguem
para alimentação, durante o mez necessario de
parada
n'um local totalmente falto de recursos como é o rio Negro.
Apezar de tudo vamos tratar de apressar a remessa d'estes
guardas, requisitando mais 12, á vista das
instrucções que
nos mandão preparar meios de passagem nos differentes
rios, para o trabalho que temos de fazer nas canôas que
servirão no Aquidauana.
Para este ultimo rio deverão subir as canôas do
tenente
coronel Albuquerque, do seu acampamento no rio Negro,
ficando nós aqui para mandarmos preparar, com uma serra
e um machado, taboas e barrotes que formarão as
barcas na occasião da approximação da
força, pois que
qualquer trabalho precipitado póde ser inutilisado pelo
inimigo, o qual parece ultimamente vigiar mais cuidadosamente
as margens do rio.
Força maior nos impede de acompanhar os homens que
vão ao rio Negro: levarão para dirigil-os um
oficial carpinteiro
habilitado na factura das canôas. Para guia das
forças até o Aquidauana recommendamos denovo o
pratico
Antonio Maria Tonhá, homem utilissimo por conhecer
perfeitamente
os caminhos e campos por onde se possão abreviar
as marchas e saber dos lugares onde existão boas aguadas.
Para Miranda e Nioac há n'esta localidade muitas pessoas
proprias para servirem de guia.
DISTANCIAS ALÉM DO AQUIDAUANA
Do porto do Souza a
Miranda | 10 | legoas
De Miranda ao
Eponadig | 9 | "
Do Eponadig á
Forquilha | 7 | "
Da Forquilha a
Nioac | 10 | "
Do porto do Souza a
Nioac | 36 | "
FORÇA INIMIGA
Duas extensas cartas, cuja integra remettemos, que
recebêrão os moradores d'este lugar do
cidadão João Barbosa
Bronzique, prisioneiro dos paraguayos em sua fazenda, desde
o ano passado, derão-nos informações
do estado a que se
achão reduzidos os inimigos e da força espalhada
em diversos
pontos: tem elles nas colonias de Dourados e Miranda 100;
no Brilhante 100; Sete Voltas 10; Vaccaria 100; Agua
fria 30; Nioac 500; Taquarussú 200; Porto do Souza 200.
Ao todo 1,240 homens, a que se devem acrescentar os 50 de
Miranda que vierão para o Espenidio e Souza e outros que
existem junto do Apa e morro do Canastrão, onde possuem
boa cavalhada. Desde o Porto do Souza até o de Maria
Domingas, os paraguayos têem ultimamente lançado
fogo
a todos os campos e desbastado as margens, parecendo ter
assim conhecimento dos proximos movimentos de nossa
força.
Morros, 16 de Abril de 1866.
Notas:
[1]
Tacoára hy, (tupi).
[2]
Não
é o
marmeleiro
de que trata
Saint-Hilaire, sob o nome de
Maprounea brasiliensis (euphorbiacea).
[3]
Temos
o desenho d'ella no album de viagem. Folhas
oppostas;
corolla monopetala com um labéolo; antheras didynamas;
ovario sobre disco hypoginio. Flôr com 2
1
/
2
pollegadas de
comprido;
Stygma bipartido.
[4]
Folhagem
muito delicada; folhas tomentosas e ovario livre;
sementes ovoides.
[5]
Em
fórma de colher (cochlear).
[6]
Calophyllum
brasiliense, (Saint-Hilaire). Oanandim, lantim
ou
olandy; excellente páo para canôas.
[7]
As folhas d'esta planta são muito
desenvolvidas. No corrego
da Pontinha (a 8 legoas de Camapuan) vimos algumas com um
palmo de largura e palmo e meio de comprido, lustrosas e completamente
glabras.
[8]
Acacia
maleolens
de
Freire Allemão.
[9]
É
conhecido nos sertões do norte por
cajueiro bravo
ou melhor
çaimbahiba
(
çaimbé
aspera,
yba
arvore). Curatella
çaimbahiba.
(Saint-Hilaire).
[10]
Bority
ou mority.--Do tupi,
mooro
, nutrir,
ty
, succo.
(
Mauritia
vinifera
. Mart.
flexuosa
. Lin.)
[11]
A
6 legoas do rio Piquiry;
picá
, pomba; (r)
hy
, agua (L. T.)
[12]
Esta palavra derivada do tupi
(
caa-poam
, ilha) é com
razão
geralmente empregada em todo o Brasil.
[13]
O sertanejo Perdigão.
[14]
Fourcroya gigantea.
[15]
Gua
, baga;
yrob
, acre (lingua tupi). Psidium
Vell
.--Eugenia
Mart
.
[16]
Familia entre as rosaceas e magnoliaceas.
[17]
Autor do poema
La
Gastronomie
, publicado em 1800.
[18]
Amaca
, rede;
yva
, arvore (lingua tupi).
[19]
Ara Ararauna (especie particular aos sertões de
Goyaz e
Mato Grosso).
[20]
Ara Aracanga.
[21]
Ara Hyacinthinus (Descourtils).
[22]
Crypturus noctivagus.
Começa a piar apenas descamba a tarde.
Martius chama-a
tinamus
nocturna. Em
algumas partes do imperio
é conhecida por
sabelé
.
[23]
Os banhos das folhas d'esta plantinha são
eficassissimos nas
orchites. (Davilla elliptica, Saint-Hilaire).
[24]
Sapindus (Saint-Hilaire).
[25]
Lugares empantanados, pascigos do gado.
[26]
Em lingua tupi quer dizer
páu
de cajú
(mara-cajú). Segundo
alguns
cascavel ao pé
(maracá jub) da serra. (Glossario).
[27]
Toda audacia é permittida em hypotheses.
Impressionárão-nos,
de passagem, sem estudo, aquellas linhas que correm parallelas
por muitas legoas. Serão na realidade
indicação do que acima
tocámos, ou simplesmente efeitos de
infiltrações vagarosas em
estratificações, erosões, etc.?
[28]
Amambahy ou
Ambaibahy--
Hy
,
agua.--
Ambaiba
ou
embauba
(urticacea do genero Cecropia). Castelnau dá á
porção de serra,
que conhecemos, o nome muito apropriado de serra da Chapada:
entretanto nunca o ouvimos nas localidades, onde os moradores
usavão só da denominação de
Maracajú.
[29]
Na provincia de Minas chama-se
paratudo
a uma
amaranthacea,--gomphrena
oficinalis. A causa do paratudo (bignoniacea)
tem grandes propriedades febrifugas e sudorificas.
[30]
Os indios Guanás o chamão
namuculí
.
[31]
Esta arvore,
hymenæa
, abundantissima no
rio Negro, ia-se
tornando cada vez mais rara. Os seus fructos, quando maduros,
são supportaveis e muito nutrientes: os nossos soldados, no
acampamento
do rio Negro, sustentavão-se quasi exclusivamente d'elles.
[32]
Contracção de ipé, uva
(arvore).
[33]
O que, no interior do país, se chamão tijucaes,
palavra brasileira
tirada da lingua tupi,
tyjuca
(lama). Usa-se tambem muito
do verbo
entijucar
por enlamear.
[34]
Mureci penina
ou
pintado. Em Mato Grosso assim chamão o
mureci do pantano. Será com
certeza--chrysophylla--a
especie?
Em todo caso, o genero é
byrsonima
, bem caracterisado. Com
ser malpighiacea,
vêm-se os pares de glandulas bem apparentes; ás
vezes
desenvolvidas em extremo, em cada sepala. Do fructo do
mureci
,
diz com justeza Pison:--Fructus maturi gratissimi quidem acore
pulatum vellicant, sed stuporem tandem dentibus inferunt simulque
astringendo intensè refrigerant. (De facultatis simplicium
Lib. IV).
[35]
Em Mato-Grosso quasi todos pronuncião esta
palavra grave.
[36]
Ciconia Maguari (G. Temm).
[37]
Vimos nas
mimosaceas
dos barreiros myriades de
vira-bostas
,
(Icterus violaceus, Desc.);
encontros
(Xanthornus tristis,
Desc.) e
anús
(Crotophaga,
Marcgravio).
[38]
Cateitus (dicotyles torquatus) e porcos do mato (dicotyles
labiatus).
[39]
Na bahia Negra, abaixo do porto de Coimbra. A
proporção de
sal para a terra era, n'um alqueire de mistura, tres quartas partes.
[40]
As salinas da margem direita do rio Paraguay
são muito mais
ricas em sal, do que as da margem esquerda. Antes da
invasão,
havia prohibição de tirar-se sal da bahia Negra,
por estar o barreiro
em territorio contestado entre o Brasil e a republica do Paraguay.
[41]
Na margem esquerda do rio Paraguay, defronte de
Corumbá.
[42]
É palavra geralmente usada nas fazendas de
gado.
[43]
Devida a uma intoxicação paludosa.
[44]
Aspidosperma.
[45]
Os nossos amigos os Srs. tenente João Faustino
do Prado e João
Mamede Cordeiro de Faria.
[46]
Caapi-iára
,
dono do capim (Gloss.). Com mais razão, diz
Gonçalves
Dias
capi-uara
, derivando
uára de goára (habitante que mora, em
determinada parte, por vontade propria). Das capivaras, diz Marcgrav
com exageração notavel:--Noctu ingentem
clamorem
excitant et
horribile fere, ut Asini solent.
[47]
Vanellus cayennensis (Vieill.).
[48]
Em Agosto, deviamos de apreciar a magestosa florescencia
d'aquellas
bignoniaceas;
ipés
,
Tecoma speciosa Vall.,
para-tudos e
carobinhas
(jacarandá procera) ostentavão então
massiços amarellos e
azues da maior belleza.
[49]
Obteve em fins de 1867 esta
distincção e em Janeiro do ano seguinte
falleceu na cidade de S. Paulo, onde se achava, depois de uma
viagem ao Rio de Janeiro, com alguns de sua tribu.
[50]
Pery
, junco (tupi).
[51]
Desde Maio de 1865 não fazião
senão raras incursões, na margem
direita do rio Aquidauana.
[52]
Denominação indigena do rio Miranda
ou Embotety e Embotetiú,
das palavras,
enimbo
laço,
tui
periquito--laço para piriquito.
Tambem tem nome de Aranhahy, Guaxihy e alguns
escriptores
portuguezes
lhe dão o de Mondego, ainda que
pareça este só convir,
depois da confluencia com o Aquidauana.
[53]
Uma carta de João Barbosa Bronzique,
prisioneiro dos paraguayos,
em sua fazenda do Bonito, deu noticia d'essa
prohibição
devida, ao que elle suppunha, aos ataques repetidos dos indios,
que se occultavão nas matas do lado direito do rio.
[54]
Ilex congonha, familia das Ilicineas
(Aquifoliaceas de
de
Candolle).
Das congonhas fazem os habitantes uma agradabilissima
infusão.
[55]
Cama
mama,
apuam
redonda (tupi).
[56]
Os oauassús, chamados pelos guaycurus
chatellôd
, são
as magestosas
palmeiras de que já temos fallado: os grupos que ellas
fórmão, são imponentes. Os troncos
lisos, ligeiramente engorgitados
na base, as cópas erectas e compridas folhas, com um
prateado
fugaz, as distinguem de muito longe. Os côcos de bom tamanho
dão amendoas com o valor approximado ás da Bahia
e
constituem durante certas épocas a
alimentação quasi exclusiva
dos indios. Pelo systema fyllotaxico, preconisado pelo professor
Agassiz, a fracção
1
/
3
representa a
disposição das folhas, occupando
os intervallos, as espadices da inflorescencia.
Assemelhão-se
os oauassús ás magnificas
oreodoxas
, tão em moda no
Rio de Janeiro:
Martius deu-lhes o nome de
attalea
spectabilis
. Em lingua
tupi significão folha grande:
oau
ou
oba
folha,
assú
grande.
[57]
O laiana pertence á numerosa familia
chané: a sua linguagem
é a mesma que a dos quiniquináos, terenas e
guanás
com algumas alterações: os seus costumes
identicos. O seu typo
é caracteristico; a fysionomia muito menos expressiva que a
do terena e menos delicada que a dos quiniquináos; elles
têm o
nariz afilado, ás vezes pontudo, os olhos algum tanto
divergentes,
os labios finos e apertados.
As suas plantações consistião em
arroz, milho, feijão; porém as
chuvas falhadas impedião que ellas tivessem aspecto
satisfactorio;
por esta razão, não podérão
os seus possuidores prometter cousa
alguma para as forças.
[58]
O corrego da
Pontinha
,
perto de
Camapuam
, é uma
das cabeceiras
mais afastadas.
[59]
Uacôgo
,
corrego dos Couros (guaycurú).
[60]
As
aracuans
, Penelope
aracuan (Spix.), são aves de plumagem
escura, pernas curtas, bico preto e forte. É caça
procurada pela
alvura e sabor da carne. Este passaro oferece uma particularidade
singular. Quando um grita, é logo acompanhado por todos os
companheiros,
de modo que, por qualquer ruido, levanta-se grande alarido
em ambas as margens, o qual vai-se propagando e crescendo. É
muito applicavel o--
Vires acquirit
eundo
.
[61]
Esta ave conhecida tambem por
inhuma-póca
canta com
regularidade,
de modo que, dizem, póde marcar as horas e tambem
annunciar mudanças de tempo. Tem como a
palamedea cornuta
excrescencia
na cabeça. Marcgravio diz do canto: Terribilem clamorem
edit--
vihu vihu
--vociferando.
[62]
O
tuyuyú
(micteria americana) é a maior das aves ribeirinhas:
todo branco com uma colleira vermelha, tem um bico longo e tubulado.
Nutre-se de peixe e anda no lodo das bordas de rios. A sua
altura, fóra o pescoço, é de 1, m. 2.
[63]
O
tabuyayá
(ciconia maguari) é maior que a garça; tem azas
pretas malhadas de branco: o bico e pernas compridos. Em guarany
chama-se baguary (Martius).
[64]
Na no
Na nossa passagem do Aquidauana, um soldado foi arrebatado
por um jaù.
[65]
Pison diz com razão da carne: "Edulis
non solum caro ejus
albissima, sed quod friabilis et sicca optimi saporis".
[66]
Familia dos Aproterodontes--Gen. boa--Esp. murina
(Principe
de Neuwied e Sellow): boa scytale (Lin.) Estas serpentes
apparecem raras vezes nos affluentes do rio Paraguay, ao passo
que abundão nos do rio Paraná. O grito d'ellas,
ê, dizem, estridente.
Nunca ouvimos esse ronco de que tanto se falla no sertão.
[67]
Entre as absurdas historias, tocantes a essas serpentes,
sobresahe
a referida por Charlevoix, na sua historia do Paraguay, o
qual diz que os sucurys se atirão sobre as mulheres com
outro
fim, que não o de devoral-as e cita o testemunho do padre
Montoya
que confessára, em certa occasião, uma india
in extremis
: "laquelle
étant occupée à laver du linge sur le
bord d'une rivière,
avait été attaquée par un de ces
animaux, qui lui avait fait,
dit elle, violence: le Missionaire la trouva étendue par
terre au
même endroit, etc."
[68]
Relatorio geral da comissão de engenheiros
(pag. 22 e 31).
[69]
Spix chama-o
pacú-argenteus
,
não sabemos se com razão; o pacú
pouca semelhança tem com o corimbatá.
[70]
Contra ella tambem bate o rio Aquidauana, formando uma
curva
apertadissima. Além, no outro lado, eleva-se o
Morro Azul
, seguindo
de novo a serra até Nioac e para os lados do Apa; baixa,
porém, e
com disposição de morretes.
[71]
Citaremos uma lindissima
apocynea
(nerium?), varias
salvia
, a
ardísia
(
Ardisacea
), a curiosa
aristolochea galeata
, que se enrosca
nos
mais flexiveis encostos; a fragrante
saudade
do campo
(scabiosa-dipsacea),
hyptis (labiadas),
malpighiaceas
rasteiras com cambiantes
samaridios, a vistosa
gomphrena
oficinalis
(o para-tudo de Minas)
malvaiscos
, etc.
[72]
Erão os restos da abundantissima colheita
paraguaya; esses
campos, poucos mezes antes, havião contido muitos milhares
de rezes. O distrito de Miranda possuia 150,000
cabeças de gado: d'essas,
segundo o testemunho de vista de João Barbosa Bronzique, o
infeliz
prisioneiro de que já temos fallado, 60,000
passárão para a republica
do Paraguay em varias pontas e ainda no tempo em que viajavamos
pelo Aquidauana continuavão amiudadas as remessas. A carne
do
gado d'essas vargens è
saborosissima.
[73]
Palavra tupi, usada geralmente: significa
casa abandonada
.
[74]
Momordica operculata (Velloso), charantia.
[75]
Quasi todos os habitantes de Miranda
fugírão embarcados,
descendo o rio Miranda, entrando no Aquidauana e subindo por
este até perto do porto do Souza. Ahi se
refugiárão nas fragosidades
da serra de Maracajú (Morros); alguns
tomárão caminho
de Sant' Anna do Paranahyba. A villa ficou deserta a 4 de Janeiro
de 1865: a 12 entrárão os paraguayos que n'ella
estiverão até fins
de Fevereiro d'aquelle ano.
[76]
Das outras tribus que refere Castelnau, não
ouvimos fallar.
Talvez estejão extinctas ou confundidas com estas.
[77]
Tanga, avental.
[78]
Muito aprecião o
tarumá
(Vitex
montevidensis) que em Dezembro
de 1866 constituia a principal alimentação da
gente quiniquináo
dos Morros.
[79]
Bixa orellana.--Genipa americana.
[80]
Léry faz esta justiça ás
indias em geral, quando diz: "qu'á toutes
les fontaines et rivières claires, qu'elles rencontrent,
s'accroupissans
sur le bord ou se mettans dedans, elles jettent, avec les deux
mains de l'eau sur leur teste et se lavent et plongent ainsi tout leur
corps come cannes, tel jour sera plus de douze fois"
(Histoire de
l'Amérique, pag. 128).
[81]
Quasi todos os nomes de lugares e rios do distrito de
Miranda
são de origem
guaycurú.--
Euagaxigo
,
significa bando de
capivaras;
Eponadigo
, bando de
trairas;
Lauiád
, campo
bello;
Nioac
, clavicula quebrada.
[82]
Esses lindissimos lugares forão explorados a
vez primeira pelo
intrepido sertanejo José Francisco Lopes, o qual encontrou,
n'uma
de suas viagens, uma numerosa partida de cadiuéos, que o
acompanhou
até terras do Paraguay.
[83]
Palavra guarany que significa Nosso-Senhor. Os terenas
usão
d'esse vocabulo. Os outros guanás dizem
Echāi-uanuké
(que está
no céo).
[84]
Herpethoteres. Azara chama
Macaguá
: alguns
acauan
ou
oacaoam
.
[85]
O mesmo fazião os medicos entre os guaranys
(Padre Loçano).
[86]
Não sabemos se deve merecer fé o que
diz Castelnau sobre assassinatos
dos padres.
[87]
O mesmo dava-se entre os padres dos guaranys (Padre
Montoya).
[88]
Léry diz dos
tupinambás:--"Ils lamentent de telle
façon, que si
nous nous trouvions en quelque village où il eust un mort,
ou il ne
fallait pas faire éstat d'y coucher, ou ne se pas attendre
de dormir la
nuit. Mais c'éstait merveille d'ouyr les femmes, lesquelles
braïllent
si fort et si haut que vous diriez, que ce sont hurlemens de chiens et
de loups" (Histoire de l'Amérique, pag. 392).
[89]
Léry refere: "Si elles se
ressouviennent de leurs feus parents,
ce sera, faisant les regrets accoutumez, á hurler de telle
façon,
qu'elles se font ouyr d'une demi-lieue (H. de l'Amérique,
pag. 400).
[90]
A que chamão na provincia
lavrados
.
[91]
Principalmente o
timbó
(paullinia pinnata)
que tem violentas
propriedades toxicas.
[92]
Batem-se a punho secco, ainda mais geitosamente que os
albiões
(M. Ayres de Casal C. B. pag. 234).
[93]
Todo o homem branco, pardo ou preto, é
portuguez; os indios
nunca usão da denominação de
brasileiros: os paraguayos são
ainda para elles castelhanos.
[94]
Temos por vezes usado d'essa
denominação de uma das tribus
da nação chané, como que abrangendo a
todas as outras, porque no distrito de Miranda conhecem-se todos os
indios
chanés por
guanás. Entretanto perguntando eu, certo dia, a um terena se
elle era guaná:
Acó
chooronó, chané cuané
téreno enómone
;
guaná
não, chané ou terena na verdade (litt.).
[95]
Esta tribu habitou primitivamente quasi toda junta
á serra
chamada do Chané, no lado direito do rio Paraguay, acima da
do
Albuquerque, dando a cordilheirasinha o nome da
nação a que
pertence? Ou lá esteve toda a nação?
Nas minhas notas encontro
ainda uma confirmação de que a
denominação de chané, é
valiosissima.
Disse-me um quiniquináo:
Humnāi quechatí cequexivó
nhumzó
chané?
O senhor quer aprender a minha
lingua chané? e acrescentou:
Encre nhumzó acó
ocohocorí iaquexovói
chané
. Pois minha
lingua não custa aprender o chané
(litteralmente). Ao ilustrado
viajante Henrique de Beaurepaire Rohan não escapou esta
particularidade
importante.
[96]
O ultimo accento é o tonico: os outros
modificão o som das vogaes.
[97]
Os dois
l
soão claramente.
[98]
Os laianas dizem
moreví
, como em guarany.
[99]
Na lingua tupi
paraguá
, papagaio; d'onde
paraguá hy
, rio dos
papagaios.
[100]
Castelnau no seu inexactissimo vocabulario
guaná
exprime esta
palavra
por
annāiti
que significa
grande
, ignorando a sua qualidade de
adjectivo, o
qual vai modificar
piritáo
, faca.
Não merece confiança a
traducção dos
outros vocabulos.
[101]
Os indios chamavão-me
ungê-maracaiá
,
olho de gato. Os guaranys
dizem
mbaracaiá
; na
lingua tupi
maracayá
ou
maracajá
.
[102]
Talvez se devesse escrever
ingâchá-á
:
em todo o caso não se pronuncia
claramente o
in
, fazendo
só soar o
g
,
arrastando-o.
[103]
A palavra é esdruxula: não sabemos
porque se a pronuncia grave.
[104]
Mámá
em lingua
caiuá, muito approximada ao guarany, senão o
proprio.
[105]
Os
h
são
todos aspirados com energia.
[106]
Noné
capací
, cara de nuvem, era a antonomasia
de um de nossos soldados,
por causa da guedelha desgrenhada.
[107]
Este
j
sôa,
como em hespanhol, gutturalmente.
[108]
Significa
peixe de rabo de
sangue
(vermelho).
[109]
Quer dizer
piolho de
cão
.
[110]
Vê-se claramente que quiniquináo
é alteração da palavra india.
[111]
Os nomes de peixes são, como este e muitos
outros, guaycurús.
[112]
Esdruxulo, quando em portuguez é grave.
[113]
Os quiniquináos dizem
pahapáti
.
[114]
Observa-se a irregularidade de
formação. São novas palavras.
[115]
Esta palavra é de mui difficil pronuncia. Nunca
a podêmos escrever
conforme a ouvimos.
[116]
Além de tres dizem
tápuia
muito, ou
opôicoati
. Para marcarem
épocas,
serve-lhes a florescencia do
para-tudo
. Um indio disse-nos:
"Já o para-tudo
deu flôres duas vezes e os castelhanos ainda estão
em Miranda".
[117]
Os imperativos, que elles empregão muito,
terminão quasi todos em
ca
, exemplo:
iticá
faze,
tetucá
corta,
nicá
come,
angicá
lava; dos verbos
ittuketi fazer
,
tetocoti cortar
,
ningá comer
,
angicóati
lavar.
[118]
Litteralmente
unati
bom,
niké
comida.
Cuati
deveras,
echoti
sabe,
itucoati
fazer,
nica
comida,
ienó
sua mulher.
[119]
Tambem diz-se
emó
? quem sabe?
[120]
Tomámos para estimativa da distancia vencida a
média, em
diversas observações, do tempo gasto por um
animal carregado em
percorrer uma certa extensão medida; sendo a unidade o
minuto
que achámos correspondente a 30 braças, 355.
[121]
O rio pareceu-nos profundo e suppomos nunca poder dar
váo
bom á artilharia e cargueiros.
[122]
Comandada pelo capitão José Pedro
de Souza, o qual sempre
se prestou a coadjuvar-nos eficazmente em todos os nossos
trabalhos.