Capítulo I A Filha do Cabinda · Capítulo 2 de 21
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Capítulo I

A filha do cabinda é formosa como a visão de um sonho celeste; meiga como o canto do sabiá, poisado nos galhos do cajueiro, e ingenua como a virgem da innocencia.

O cabinda é negro, e negro de raça fina, mas é branca a sua filha, e filha, porque o velho escravo quer muito à senhora moça, que ele beijava e embalava no seu collo, quando era pequenina.

Revê-se nela, e nela se mira doido de affeição o pobre negro, e tanto a gravou na ideia, tanto a traz no coração, que chega até a esquecer-se do trabalho, sujeitando-se às reprehensões do seu senhor, para, insensivelmente, se entregar a scismar nela, que é tão bondosa, tão meiga e tão carinhosa para ele; nela, que, por uma destas illusões, destas miragens, destas doidices, de um grande affecto e de uma viva simpathia, chega a julgar realmente sua filha.

E filha do cabinda lhe chama ele.

O negro vivia na sua terra, alegre e feliz; lá tinha seus paes, a sua companheira, os filhos e a sua família.

Um dia, não sabe como, achou-se com todos eles dentro de um navio, que começou a affastal-o, cada vez mais, da sua patria. Passou assim algum tempo, entre as duas immensidões, o mar e o céu, sem sentir saudades da sua terra, porque levava ainda ao seu lado aqueles que lhe davam alegria. Depois, pozeram-o de novo em terra, levaram-o a ele e aos seus companheiros para uma grande casa, onde os brancos começaram a disputar o preço porque haviam de compral-os.

O cabinda foi vendido e quizeram leval-o.

Leval-o? E a sua companheira? e os filhos? e seus paes?

Esses, foram vendidos tambem, e cada um a seu senhor.

Tristissimo era o negocio da escravidão!

Reagiu o negro, quando o quizeram separar dos seus, e quando tambem os separavam dele.

Teve, então, saudades da sua patria, terriveis, sem duvida, porque eram, ao mesmo tempo, saudades da sua liberdade.

Fizeram-lhe, porém, estancar as lágrimas angustiosas as ameaças de um açoite, e o Cabinda lá partiu, sem esperanças de tornar a ver os filhos queridos, que nem sequer beijara na despedida, a esposa, que ele adorava com um culto rude, mas sincero, e os paes, que ele respeitava com a sua veneração selvagem.

Partiu, mas ainda assim, boa estrella o guiava, porque, cortando-lhe as affeições mais caras da sua vida, ao menos o levaram para onde tinha de ser estimado, quasi como pessoa de família, e não como escravo e negro que era.

Em casa do seu senhor foi ele encontrar uma creancinha de dois anos, que tinha uns olhos lindos, os cabellos como os olhos, negros da cor do abismo, e um rosto como o dos anjos de um sonho de poeta, como o das fadas boas das visões nocturnas das mattas virgens.

A convivencia foi-o affeiçoando áquella creancinha, que lhe sorria tão innocentemente; que lhe estendia, alegre, os bracinhos mimosos, e, brincando, o abraçava carinhosamente pelas pernas.

O negro, quando via a pequenina Magdalena, sentia não sei que doçuras em alma, não sei que effluvios no coração, mas que deviam ser gratissimos, porque os olhos desannuviavam-se-lhe logo das sombras de tristeza, que os velavam sempre, e os labios desatavam-se-lhe num sorriso de sincero e íntimo jubilo.

E tomava-a no collo, sentava-se com ela à sombra das copadas tamarindeiras ou das laranjeiras em flor, cobria-a de beijos e affagos, entretecia-lhe coroas de jasmins e martirios, e olhava-a, assim numa especie de adoração sublime e concentrada, talvez com a recordação nos filhinhos, que perdera, e que eram tambem pequeninos como a mimosa Magdalena.

Tinha dez anos a filha do cabinda, quando perdeu sua mãe.

Ficavam-lhe os affagos de um pae estremoso e os carinhos do negro affeiçoado; mas que valia tudo isso? que valia a gotta de agua para tão grande sêde? o atomo em face da immensidade desfeita?

O negro, que era dedicado à sua senhora, tanto como à pequenina Magdalena, esqueceu-se da sua condição de escravo, e arrojou-se, em um impeto de dôr e de affecto, a entrar no quarto da moribunda, poucos momentos antes dela despedir o derradeiro alento.

Estava junto ao leito Jorge de Macedo, que era o seu senhor, embebendo em beijos lacrimosos o rosto da innocente, que ia em breve ser o seu unico encanto neste mundo.

Os dois, pae e filha, assistiam angustiados ao desabamento daquele edificio da sua ventura.

O cabinda entrou como perdido, olhou para Jorge com receio, com amor para Magdalena e foi ajoelhar-se, de mãos postas, junto ao leito da enferma, chorando como creança.

— Anda cá, cabinda, disse a moribunda, com voz amortecida, ao vê-lo de joelhos, alli, ao pé dela. Anda cá; vem ver como se vai para o céu! . . .

— Que fazes, atrevido! exclamou Jorge a meia voz.

— Ah! meu senhor! a mãe do escravo é um anjo, e o negro quer despedir-se da sua senhora!

— Sahe, cabinda!

— Oh! não! não! suplicou este. O negro é escravo, mas o negro tem coração!

E abraçava a roupa do leito para abraçar a moribunda, chorava como doido, soluçando em desespero e suplicando com ardor:

— A mãe do cabinda ha-de deixar a sua filhinha e o seu parceiro, a chorarem saudades como o bemtevi do matto? Não, não nos deixes, mãe senhora!

— Papae, atalhou Magdalena, affagando as faces de Jorge, humedecidas pelas lágrimas; o cabinda chora, não trates mal o cabinda, que é nosso amigo.

— Oh! sim, sim! acudiu o preto. O cabinda quer muito à sua filhinha, quer muito à sua senhora e muito ao seu senhor! O negro tem alma e não tem família a quem a dar. É, como a palmeira do morro, que não tem coqueiro ao lado.

— O negro é bom, meu Jorge, disse a doente a custo. E se te peço muito que fiques sendo a mãe da nossa Magdalena, não te esqueças tambem de que o cabinda a trouxe ao collo muitas vezes, quando era mais pequenina.

— Não esqueço, minha Beatriz! soluçou Jorge.

— E ele não ha-de ser mais nosso escravo, não, papae?

— Não, minha filha.

— Mas o cabinda, atalhou o negro, não quer deixar a casa do seu senhor, não quer viver longe da sua filha.

— Não, não nos has-de deixar, que nós somos todos teus amigos, acudiu a creança, affagando o escravo, emquanto Jorge dizia comsigo, no íntimo da consciência:

— O negro tem a cor do urubú, mas tem alma de pomba rola!

Horas depois, Beatriz, a esposa de Jorge, tinha entregado a alma ao Creador.

Jorge chorava, para um lado, profundamente ferido no coração, as dôres da sua viuvez. O negro e Magdalena soluçavam, abraçados, a perda da bondade da que tanto era mãe de uma como anjo do outro.

Jorge conheceu, então, até onde ia a dedicação do seu escravo, a grandeza da alma do negro, e começou a olhal-o, a tratal-o e a querer-lhe, muito mais como a um membro da sua família, do que como a um ente, geralmente visto com desdem, com indifferença e até com desprezo.

O cabinda perdera a sua família, de que tão barbaramente o separaram, mas havia ganho muito pela sua dedicação.

Bastavam as festas e os sorrisos de Magdalena, de quem ele dizia sempre:

— Agora não tem mãe, é filha do cabinda!

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