Capítulo XI A Filha do Cabinda · Capítulo 12 de 21
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Capítulo XI

Americo, apenas Jorge saiu, foi ao escritório, sentou-se, tomou uma folha de papel e escreveu a seguinte carta:

«Ex. ^ma Snr. ^a

«O meu amigo e socio, Luiz de Mello, saiu hoje, inesperadamente, para Macahé, no vapor das 8 horas, a negocios do seu ex. ^mo pae. Deixou-me uma carta para V. Ex. ^a, recommendando-me que das minhas mãos só sahisse para as suas. Pediu-me tambem todo o segredo, e para que ninguem me veja, peço a v. ex. ^a o obsequio de aparecer esta noute, às 10 horas, no caramanchão da chacara, junto ao lago, onde me encontrará para entregar a V. Ex. ^a a referida carta.

De V. Ex. ^a, etc. ,

Americo de Abreu. »

Fechou, e subscriptou a Magdalena, saiu, chamou um negro de fretes e enviou-o ao Botafogo, à chacara de Jorge.

Voltou ao armazem, mas em sobresaltos, com o receio de que, uma recusa de Magdalena lhe poderia frustrar tão magnifico ensejo.

A formosa filha do cabinda ficou duplamente surprehendida com a carta do mulato.

de um lado a ausencia de Luiz, do outro o convite nocturno que Americo lhe fazia.

Teve o presentimento de uma traição, de um ardil, de um estratagema, e quiz responder immediatamente que não concedia a entrevista pedida.

Mas Americo fallava-lhe de uma carta de Luiz, e ela hesitou.

Ficou na alternativa de uma duvida, espinhosa, inquietadora, turturante mesmo. Acceder era collocar-se numa posição altamente compromettedora; não acceder, se Luiz havia effectivamente escripto a carta, era um desgosto grandissimo.

Magdalena via-se pela primeira vez entre as vicissitudes de um amor, que nasce espontaneo, caudaloso e vehemente.

Estava na dolorosa espectativa de uma grandissima hesitação, quando entrou o cabinda.

O negro era naquele momento o anjo bom de Magdalena. Só ele a podia tirar dos embaraços que a prendiam.

Magdalena exultou de alegria, vendo-o entrar.

— Ah! ainda bem que vens! exclamou ela, correndo para o negro. Não podias chegar em melhor ocasião.

— Quer alguma cousa ao negro a senhora moça?

— O senhor Luiz foi para Macahé.

— O branco? perguntou o cabinda admirado.

— Sim.

— Quem o disse à minha filha?

— O senhor Americo.

— O mulato? interrogou o negro, mais admirado ainda.

— Sim. Escreveu-me esta carta a dar-me a noticia, e a pedir-me para esta noute às 10 horas aparecer no caramanchão do lago, para me entregar uma carta de Luiz.

— E porque a não mandou o mulato?

— Porque só a mim a quer entregar.

O cabinda sorriu-se numa expressão de ironia e de ameaça.

— E a senhora moça o que responde?

— Não sei. Tenho mêdo. Tu que dizes?

— Que a minha filha diga ao mulato que venha.

— Mas. . .

— Não tem duvida. O cabinda cá está! A onça não tem mêdo ao tigre que assalta o seu covil. O negro tem visto muita jiboia!

Magdalena, para não demorar mais o portador, tomou uma meia folha de papel e escreveu o seguinte:

«Espero-o à hora marcada.

Magdalena. »

Dobrou e deu ao cabinda, dizendo-lhe:

— Toma; dá ao negro que está esperando.

— Não, senhora moça. O negro não quer que o seu parceiro o veja.

— Porque?

— A minha filha o saberá. O mulato não é bom.

Magdalena chamou então o portador e mandou-o com a resposta.

Quando voltou já não encontrou o cabinda.

Sentou-se ao piano, mas agitada, convulsa, nervosa e inquieta.

Não lhe sahia da imaginação o encontro que ia ter, e apesar de toda a sua ingenuidade, Magdalena tinha quasi a certeza de que ia commetter uma imprudencia.

O cabinda não era, porém, um homem capaz de consentir que alguem offendesse a sua filha. Ele que lhe disse que mandasse aparecer o mulato, é porque lá tinha os seus planos.

No entanto, Magdalena estava collocada entre as saudades que a pungiam, lembrando-se da ausencia de Luiz, entre os receios da entrevista concedida ao mulato a horas tão pouco apropriadas, e os grandissimos desejos de receber a carta, que o seu eleito lhe havia deixado.

Só em isto a formosa menina pensava, só isto a absorvia completamente. Os seus livros predilectos, as suas florinhas queridas, os seus passeios pela chacara, foram esquecidos, foram olvidados.

Era dolorosa a posição de Magdalena. Nem uma irmã, nem uma amiga a quem podésse abrir o seio, com quem desabafasse, com quem repartisse o enorme peso, que a estava opprimindo!

Ainda hontem a embalavam as harmonias dulcissimas das palavras de Luiz, os perfumes magicos das flores mimosas do amor, que ele lhe protestava, os sonhos deliciosos da ventura tão suspirada!

Pobre creança!

Americo recebeu a resposta de Magdalena nuns alvoroços de louca alegria. O mulato esperava agora, no meio de uma grande anciedade, que a noute descesse, com o seu manto de sombras e de escuridão, para realisar os seus planos.

A carta de Luiz a Magdalena estava em seu poder. O mulato commettera a infamia de a abrir, de devassar o seu contheúdo.

Para ele, aquela folha de papel, era uma preciosidade que valia muito.

Não podia ela servir para comprometter o seu socio, o seu rival? Não bastaria que ele a apresentasse a Jorge, para que este o despedisse logo, sem o minimo processo investigatorio? Não revelava ela um abuso da parte de Luiz?

O mulato ia fazendo todas estas considerações, no meio da alegria que o dominava.

O bilhete que Magdalena mandára a Americo não seria tambem sufficiente para mostrar a Luiz que ela aproveitára a sua ausencia, para conceder a outro uma entrevista, a horas, de mais a mais, tão pouco proprias?

No entanto, a formosa virgem, estava oppressa debaixo dos sobresaltos e dos receios, das esperanças e das saudades.

Valia-lhe o seu piano. Unico amigo, unico confidente, unico sacrario, permittam-me a comparação, onde espraiava os sentimentos, que a agitavam, o harmonioso instrumento devia de futuro ter uma grandissima página no seu livro de recordações.

Se ele chorava com as lágrimas dela! se ele enchia-se de enthusiasmos com as suas alegrias, gemia com as suas saudades, e todo se deliciava e desatava em celestes harmonias, quando lhe encrespavam o seio as ondas bellas dos effluvios do amor, douradas pelas mil palhetas resplandecentes do sol da ventura!

Era com ele que ela sonhava os mundos vaporosos, as visões seductoras de uma existencia recamada de sorrisos, alastrada de flores, embriagada de perfumes e cega por excessos de luz divina!

Era ele quem tinha sempre um echo para as vozes do seu coração, um suspiro para cada anceio de sua alma, um gemido para cada ai, exhalado de seus labios, formosos, como rosa mal aberta!

Conhecia-a de creança, suavisára-lhe as primeiras saudades, as saudades de sua mãe, e em todos os tempos a acolhera caricioso, cheio de affectos, magico de harmonias.

Quem sabe ainda para o que ele estaria reservado?

Agora, era ele ainda quem, paciente, estava soffrendo as impetuosidades da anciedade que lhe opprimia o peito debil!

O cabinda, o negro fiel, o escravo dedicado, o amigo sincero, esse andava no lago, em volta do caramanchão, a sondar todos os cantos, a espionar todos os nichos, como quem estivesse encarregado de estudar a topografia do local.

O negro lá tinha a sua ideia.

Não era inutil, não devia sel-o, aquele trabalho, porque quasi se lhe liam nos grandes olhos os pensamentos que lh'o impunham.

E Luiz?

O amoroso moço, longe do Rio de Janeiro, lá tinha no seio a imagem de Magdalena, o sentimento no coração, as saudades na alma e o receio a agitar-lhe todo o ser.

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