Capítulo VI
Vai um pouco adiantada a noite.
A lua dardeja os seus raios de prata nos morros da Tijuca, do Pão de Assucar e Corcovado, e côa a sua luz pallida pelos intresticios da vegetação luxuriante dos arrabaldes do Rio de Janeiro.
Que noite formosa!
Prendem-se as estrellas umas às outras pelas suas palhetas luminosas, e bordam, como brilhantes de subido valor, o manto azul da vasta abóbada do céu.
Dormem as aves ao som do murmurio suave das auras, que perpassam entre a ramaria das arvores alentadas e fórtes. A atmosfera impregnou-se durante o dia, dos perfumes das flores e dos frutos, que o sol fecundante fez amadurecer e desabrochar.
O ananáz e o jasmin, o cajú e as acacias brancas, a pitanga e as rosas de Alexandria, as flores todas, e todos os pômos das arvores fructiferas, casam, umas com as outras, os seus aromas deliciosos, do conjunto dos quaes, se fórma uma essencia, que embriaga, que é doce, e suave, e agradavel.
O Botafogo dorme, velado pelo manto das suas bellezas, no centro de um silencio, apenas quebrado pelo cicio das agoas da sua poetica enseada.
No meio de tudo isto, de todas estas bellezas, há um ente que ainda não repousa, enlevado em sonhos de fascinadora poesia.
É Magdalena, a filha do cabinda.
A formosa virgem encostou-se ao peitoril da sua janella, e, silenciosa, firmou os olhos pensativos, num ponto, onde a imaginação e o espirito, estão fazendo passar, desenrolando-se rapidos, uns variadissimos panoramas, umas paisagens de infinitas bellezas!
Está como que sonhando.
Sonha, juriti mimosa e meiga, que os sonhos das alvoradas do amor são formosos e bellos! Abre o sacrario virgem do teu coração, que começa a fecundar as primeiras flores, aos perfumes que a aragem da noite transporta nas suas azas!
Faz as tuas confidencias à lua; conta os teus segredos às estrellas; porque uma e outras virão, em cada noite, reflectir da altura, onde andam suspensas, a imagem que te povoa a alma, o coração e a soledade! Scisma; prende pelo espirito, por esse élo misterioso, que aniquila as distancias, o pensamento ao pensamento, que vem, de longe fundir-se com o teu, em um só! Deixa que o coração se dilate, que a alma se expanda, e se aqueça ao calor do sentimento que a anima!
Oh! mas cahem-te dos olhos, que reflectem o céu, como se a próprio céu eles fossem, duas perolas mimosas!
Porque choras, criança? Que pêso poderão ter na balança do teu destino essas duas lágrimas, que ninguem vê, mas que alguem beberia soffrego, embora ocultassem a morte? São o baptismo do teu amor? ou o preço da tua felicidade?
E Magdalena com o seu rosto formoso, mas nublado de melancholia, tinha duas lágrimas a marejarem-lhe os olhos fascinadores.
Aquelas duas gotas cristallinas eram as flores das primeiras saudades de amor, saudades pelo primeiro homem, que lhe tocára o coração com a varinha magica do condão do infinito sentimento.
Magdalena pensava em Luiz, estava-o vendo em aquella hora, como o vira em sonhos tantas vezes, nas noites em que o seu coração sentia o mal estar de um vacuo incomprehensivel. Meigo e bondoso, affavel e doce, lá lhe estava sorrindo, lá lhe estava fallando com a sua voz attrahente!
E ela tinha saudades dele, saudades do dia que havia passado, e saudades daquele passeio pelo jardim, ao seu lado!
Quizera-o alli sempre, quizera-o junto a si eternamente!
Oh! que alternativa não estava passando o seu viçosissimo coração!
de um lado as claridades magicas do amor nascente, as promessas de Luiz, o preenchimento do vacuo, dos desejos ardentes que ela não comprehendia!
Do outro, a ausencia, a distancia, o atear daquele fogo sublime, a sêde de aquellas flores, que haviam brotado na sua alma, a noite daquele dia tão repleto de encantos, a soledade, emfim!
Ó mocidade! como és formosa com as tuas esperanças, com os teus receios, com as tuas alegrias, com as tuas lágrimas, com todos esses contrastes, que te agitam o seio, onde tudo é vida, onde tudo é enthusiasmo e delirio! Sonhas de dia acordada, e velas de noite repousando! Nas páginas do teu livro, se há cantos melancholicos, há tambem poemas de infinita ventura, porque o amor, que te doura as flores e os dias, é a fonte, onde, com uma lagrima, brotam muitos gosos.
E Magdalena continuava a scismar.
Era a primeira noite de amor; o somno cedeu o logar aos receios e às esperanças. Dentro de sua alma e do seu coração havia um murmurio de harmonias, constante, como o murmurio das cachoeiras da floresta.
Ela tinha diante de si uma imagem e nos labios um nome — a imagem e o nome de Luiz.
Este velava tambem.
Scismava em Magdalena, e estava-a vendo com os olhos do seu amor, perpassando diante dos olhos do corpo, airosa, gentil e meiga, como a vira naquele jantar, que nunca mais poderá esquecer, e como a ouvira naquele jardim, de que ela era a flor mais candida e mais formosa.
Luiz habitava na rua dos Pescadores, no Rio de Janeiro, o terceiro andar da casa do armazem de Jorge de Macedo.
Era confortavel o seu aposento, que ele andava percorrendo, visivelmente preoccupado, de um a outro extremo.
É pequeno agora o ambito do seu coração para conter tudo quanto está sentindo. Um mundo, vastissimo de esperanças, se está desenvolvendo diante dos seus olhos, no meio do qual avulta, radiante, o anjo de Magdalena.
Encheu-lhe o amor o seio.
Ele, que vivia tão descuidado, entregue às saudades da patria e da família, e ao desempenho das suas obrigações, esquece-se de tudo isso, agora, esquece mesmo a imagem, duplamente santa, de sua mãe, para só se lembrar de Magdalena, que lhe era uma pessoa estranha, uma pessoa indifferente.
Oh! o primeiro amor! . . .
Eram fortissimas as inspirações que o dominavam e tanto mais quanto menos as esperava.
Magdalena deslumbrara-o, não só com a sua belleza, mas muito mais ainda com a sua ingenuidade, com os seus modos despertenciosos, e com a sua franqueza.
Foi um anjo que lhe surgiu do céu, a ele, que andava na terra com a aridez no coração.
Todavia um vago pressentimento de uma fatalidade o vinha acabrunhar por vezes.
Aquelas palavras de Americo, quando, depois do jantar, desciam ambos para o jardim, soavam-lhe ainda aos ouvidos e eram-lhe desagradaveis.
Deram-lhe a conhecer que o mulato pertendia tambem Magdalena, e o mulato era capaz até de uma infamia para a conseguir.
Luiz conhecia-o bem, estava há muito tempo em contacto com ele, e tinha-o mesmo estudado.
Americo tinha os maus instinctos e a indole dos da sua raça, embora aparentemente adoçados por uma educação rasoavel, e pela convivencia de aquelles com quem as suas obrigações o levavam a tratar.
O jantar tinha sido naquele dia, e desde que ele findara, ou antes, desde que em casa de Jorge, os dois se separaram, ainda não tinham trocado uma palavra, porque ainda se não tinham encontrado.
Luiz tinha, porém, a certeza de que o mulato não guardaria silencio, e dispunha-se a combater a todo o transe, se tanto fosse preciso. . .
Que importavam a Luiz as pretenções de Americo, se Magdalena jurára amal-o, invocando a sacratissima memoria de sua mãe?
Que lhe importava que o mulato, ferido no seu amor próprio, no seu orgulho e nas suas ambições, pelo despreso ou pela indifferença de Magdalena, o tentasse desthronar por meios ardilosos, por infamias até?
Não tinha Luiz a sua consciência limpa?
Não lhe dizia ela que ele havia de vencer?
Dizia.
No entanto, é certo que o drama ia começar, que a lucta ia travar-se, mas não face a face, e a peito descoberto.
E enquanto Luiz pensava em isto e na sua Magdalena, lá ia a lua caminhando pelos páramos do azul sem fim, namorando a formosa filha do cabinda, que a olhava melancholica nas saudades do primeiro amor, e reflectindo as suas mil agulhas de prata reluzentes nas águas murmuradoras das cachoeiras da floresta, e no espelho do vasto Guanabára.
Ó noite! que de pensamentos não desabrocham, no meio do teu silencio, nos corações que viçam amores à luz do teu astro argenteo!