Capítulo III A Filha do Cabinda · Capítulo 4 de 21
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Capítulo III

O cabinda permanecia alli, como o verdadeiro crente, em face do altar do Christo crucificado.

Magdalena prendia-lhe os sentidos, absorvia-o completamente.

A cada respiração, a cada ondulação do seio da virgem, extremecia ele e abria mais os seus grandes olhos, numa expressão alternativamente de receio e de esperança, que ela acordasse.

Por fim, Magdalena estremeceu e levantou de subito o rosto formosissimo. O seu olhar meigo e deslumbrante foi encontrar o negro ajoelhado, com os olhos pregados nela.

— Ah! és tu cabinda?

— O negro, senhora moça!

— E que fazias ahi de joelhos?

— Olhava para a minha filha, que dormia. . .

— E que sonhava tambem, cabinda. Tu nunca sonhas, quando dormes?

— Sonhar? repetiu o cabinda. À noite, quando o negro se deita, e faz escuro em volta dele, o cabinda vê a sua senhora, que foi para a terra do Pai dos brancos; vê a senhora moça muito contente, com a cabeça cheia de rosas lindas, e o senhor a dar muitos beijos nela. E o cabinda lembra-se, tambem, dos seus filhos e da sua companheira, e chora de noite lágrimas no escuro.

— Coitado!

— Oh! mas o cabinda é alegre, como o jacaiol da floresta, quando a sua filha ri e falla ao negro!

— Pois olha, meu amigo, estou agora muito triste. . . muito! . . .

E Magdalena ficou como que embebida numa ideia que a dominava, com o rosto em visivel expressão de melancholia.

— E que tem a senhora moça? perguntou o negro com anciedade e receio. O cabinda não a quer triste; as arapongas que chorem, quando o caçador as ferir.

— Nem eu sei o que tenho. Vamos andando que eu conto-t'o.

E tornando a prender as flores entre as folhas do livro, seguiu, acompanhada pelo negro, uma das aleas oppostas áquella por onde tinha chegado ao lago.

Magdalena ia vagarosa e pensativa; o negro, ao lado dela, caminhava abstracto de tudo, sem ver mais nada.

Que magestoso quadro aquele!

Magdalena era o anjo meigo e deslumbrante, da mocidade cheia de explendores, a que sorriem todas as esperanças, e para o qual todos os horisontes são vastos, largos e floridos!

O cabinda era o velho escravo, fiel e dedicado, capaz de tudo para salvar a vida dos seus senhores, saltando de contente com dois affagos e humilhando-se submisso à menor reprehensão.

Os dois caminhavam a par.

Era nessa hora misteriosa dos esponsaes do dia com a noite.

Por sobre as suas cabeças arqueava-se, verdejante, o docel das jaqueiras, de um lado, e dos ramos frondosos das mangueiras, do outro. As aves já se haviam retirado aos gratos asilos.

— Tu sabes o que são saudades, cabinda? perguntou Magdalena ao negro.

— Saudades? repetiu ele, scismando na resposta.

— Sim.

— Sei, senhora moça. É ter o negro a alma a doer muito, como à pomba rola, quando lhe tiram os filhos, ou o parceiro do ninho do matto.

— É isso. Pois olha, eu tenho saudades, e não sei de quê. Sinto a alma a pedir-me uma coisa, que eu não comprehendo, e arde-me o coração em desejos loucos, mas desconhecidos. Quero, e não sei o que quero; desejo, e pergunto o que desejo. Não me falta nada, porque, graças a Deus, sou rica; não há vontade nem capricho que o papae me não satisfaça, e, olha, apesar de tudo, não vivo contente. De tarde, sempre que chega esta hora, sinto um peso na alma, que eu não sei de onde vem, nem para quê. De noite, então de noite, sonho muito e tenho saudades desses sonhos quando acordo. Vejo ao meu lado um rosto que me sorri, uns labios que me dizem coisas que ninguem ainda me disse, coisas bonitas, doces e encantadoras; umas mãos que me fazem festas, que me alisam os cabellos e m'os enfeitam de flores, e uns olhos que me olham muito, e que penetram até dentro do meu coração. Mas depois acordo, desapparece o sonho, vejo-me só, e tenho saudades, cabinda. . .

O negro, se bem que nada comprehendera de tudo quanto lhe dissera Magdalena, é certo que o havia adivinhado, porque acudiu rapidamente, apenas ela acabou:

— É a alma do branco que vem fallar à alma da senhora moça.

— Do branco? perguntou Magdalena, com ar de quem não comprehendia.

— Do branco, sim. A onça do cannavial e o jabirú das lagôas teem o seu parceiro, como tinha o cabinda, quando veio da sua terra. E a senhora moça, vê o branco nos sonhos, como o cabinda vê a sua parceira e os filhos, mas o branco não aparece.

— Não te entendo, cabinda, acudiu Magdalena, scismando no que o negro lhe dizia.

— O mal da senhora moça é aqui, disse o cabinda, indicando no peito o logar do coração. O branco que a minha filha vê à noite, quando dorme, é que há de vir cural-a.

— Como?

— Não sei.

— Quando?

— Ele virá. O negro tambem tinha isso, lá, na sua terra. No matto, no cannavial, quando o negro andava à caça, e no rio, quando dormia dentro da sua canôa, o cabinda não tinha a sua parceira, mas o negro via-a sempre. E um dia a parceira do cabinda apareceu, e o negro não soffreu mais, nem tornou a chorar.

Magdalena continuou vagarosa ao lado do negro, mas visivelmente melancholica e pensativa, talvez com o que ele acabava de dizer-lhe.

Estava ela na idade em que o coração começa a desabrochar as primeiras flores e a sentir os primeiros desejos. Tinha algumas vezes ouvido fallar de amor às suas amigas; vira umas alegres, tristes outras, umas cheias de enthusiasmo e ventura, outras soffredoras e melancholicas, e ela sempre indifferente a tudo, sempre sem lhes ligar outra importancia mais do que a que nascia da sua amisade. Nunca um homem lhe rendera uma fineza, nunca um homem lhe dardejára um olhar expressivo; e se algum o fizera, Magdalena ou não o viu ou não o comprehendeu.

Agora, sim. Agora, as saudades de que falava; os sonhos que lhe floriam às noites, ou lhe esmaltavam o repouso, eram os traços claros dos desejos, que tinha na alma e no coração, de amar e ser tambem amada, de gozar os dulcissimos effluvios do sentimento, que lhe irrompia no peito.

Tinham chegado assim ao terreiro, que havia na rectaguarda do palacete, para o qual se descia por uma escadaria de pedra, no extremo de uma vasta varanda.

Jorge de Macedo estava de pé, no topo das escadas, fumando um charuto, e numa attitude de quem esperava alguem.

Magdalena, apenas o viu, desatou a correr e exclamou:

— Ah! o papae!

O negro ficou só, e Jorge sorriu-se, dizendo:

— Olha que te canças, doidinha!

A filha do cabinda transpoz rapida o espaço que a separava de Jorge, e apenas se achou junto dele, fez dos braços um collar, com que lhe prendeu o pescoço, e começou a cobril-o de beijos carinhosissimos, a que ele correspondia em visivel expressão de jubilo e de ventura.

Eram os beijos da flor ao tronco onde nascera! eram os affectos gerados pelos laços misteriosos do sangue!

Que beijos aqueles! que affecto se não desdobrava alli!

— Mausinho, que me deixou hoje jantar só, queixou-se ela com fingido agastamento.

— Tive muito que fazer, filha. Mas déste o teu passeio até ao lago, não?

— Dei, papae, acompanhou-me o cabinda.

O negro chegava neste momento, diringindo-se a Jorge:

— A sua benção, meu senhor!

— Adeus, cabinda.

— E amanhã? . . . perguntou Magdalena, sorrindo com intenção.

— Amanhã. . .

— É dia de festa; faz o papae anos e havemos de jantar muito alegres! atalhou ela.

— Muito. E vais ter hospedes.

— Hospedes? interrogou com curiosidade.

— Sim. Convidei o guarda livros, e os caixeiros; vem toda a gente do armazem.

— Oh! que alegria vai ser a nossa, não é verdade, papae.

— Grande, minha filha, porque é de ti que ela vem.

E deu-lhe um beijo, onde ia impressa a sua alma e o seu amor de pae extremosissimo.

Magdalena foi, porém, a pouco e pouco, perdendo aquela alegria com que havia acariciado Jorge, e tornando-se pensativa, absorta, e como que esquecida de onde estava e com quem estava.

O negro, do extremo opposto da varanda, tinha os olhos fitos nela com a avidez de quem parecia estar estudando-a.

Que nuvens, embora tenues, eram as que assombravam melancholicamente aquele rosto tão formoso daquela mulher anjo?

Que pensamentos lhe agitavam a mente, para que soffresse aquela passagem suave do alegre para o triste?

O cabinda havia-lhe dito que o branco a curaria, e ela pensava em isso, lembrando-se dos hospedes que ia ter ao jantar, no dia seguinte.

Eram as alvoradas do coração; eram os pressentimentos do que há de vir!

E scismando em isso, ia esquecendo-se de tudo, quando Jorge a accordou:

— Esqueces o piano, Magdalena?

— Não, papae; esperava por si.

— Vamos, então.

— Vamos.

E tomou a mão a Jorge, e recolheram-se ambos alegres e contentes.

Pouco depois, o piano gemia, debaixo dos formosos dedos da filha do cabinda, uma reverie de deliciosissimas harmonias, destas que levam presas, nas suas azas, o espirito até ao céu.

Jorge ouvia-a num extase.

Sentado nas commodas almofadas de uma cadeira estofada, tinha os olhos pregados no rosto da filha mimosa, da filha, que era o seu anjo, o seu encanto, a sua vida, a sua felicidade mais completa, mas alava o espirito às regiões celestes, nas ondas daquela musica, onde, numa especie de mistificação, estava vendo a sua adorada Beatriz, a esposa queridissima, que a morte desapiedada lhe arrebatára tão cedo dos braços!

O cabinda, no entanto, jazia no extremo da varanda, que deitava sobre o terreiro, dizendo comsigo a meia voz:

— Os brancos veem amanhã; o mulato virá tambem. Cabinda, a senhora moça é tua filha!

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