Capítulo X
Jorge de Macedo chegou ao armazem pouco depois do negro ter sahido.
Luiz e Americo cumprimentaram-o com a delicadeza devida. O capitalista recebeu-os como socios seus, affavel, risonho, bondoso, mesmo com um tanto da meiguice que o caracterisava.
Jorge de Macedo era um homem simpathico, moral e fisicamente. A sua fisionomia era destas que attrahem à primeira vista, os seus actos modelados em harmonia com a virtude, com a honra, com a probidade, com todo o cavalheirismo, emfim.
Ficára viuvo muito cedo. A necessidade obrigou-o a ser carinhoso com a filhinha, que ficava orfã das dulcissimas meiguices de mãe. A sua alma identificou-se com aquela necessidade e Jorge tornou-se homem sensivel, bondoso e em extremo meigo.
Os seus subordinados eram tratados, não como taes, mas como amigos. Os pobres tinham sempre aberta a sua bolça. Para as grandes emprezas, para qualquer melhoramento do progresso era sempre o primeiro a dar o seu nome e a concorrer com os seus fundos.
Tudo isto o fazia estimado e querido, tudo isto lhe valia um nome honrosissimo, apesar da sua vida retirada, porque Jorge, não por sistema, mas por indole, apenas tinha e alimentava a convivencia com as pessoas, a quem o ligavam os seus negocios.
Desde que fallecera Beatriz, a sua esposa querida, ninguem mais o viu em um baile, em um club, em uma associação recreativa.
Magdalena resumia-lhe todos os encantos, todas as distracções, todos os prazeres.
Com ela, com a sua adorada filha, passeiava ele muitas vezes, em aquella alegria de um doce bem estar, de um gosar inalteravel de venturas suavissimas.
Magdalena fora educada esmeradamente, com todos os vivos cuidados de um pae amantismo, mas sem o desenvolvimento, que mais tarde se desata em grandes exigencias, em superfluidades, em loucas ostentações. Jorge cercara-a sempre de todas as commidades, mas não a affastára nunca de uma simplicidade abundante.
As amigas de Magdalena fallavam-lhe de bailes, das alegrias, dos ehthusiasmos de qualquer reunião deste genero, ela respondia, fallando do seu piano, das musicas novas, das bellezas de algum livro, das alegrias de um passeio ao lado do seu pae.
E Magdalena vivia assim, contente, satisfeita, risonha e feliz, graças ao sistema de educação empregado por Jorge.
A affabilidade, porém, do nosso capitalista, não se limitava à sua filha, não se resumia só nela; estendia-se, como já dissemos, a todos os que tinham o prazer de o tratar, fossem grandes ou pequenos, pobres ou ricos.
Os próprios escravos eram os primeiros a estimal-o, porque não deixando de se fazer tratar por eles com o respeito devido, tambem os não olhava, como em geral, com olhos de despreso, nem os carregava de asperidades, maus tratos e indifferença.
Jorge acolheu, pois, affavelmente os seus novos socios e dirigiu-se ao escritório, para resolver os trabalhos e negociações do dia com eles.
Leu-se a correspondencia, fizeram-se deliberações, disposeram-se algumas transacções de comum accordo.
Jorge tinha no negocio uma longa pratica de muitos anos. O seu modo de ver as cousas era de um alcance vasto.
Luiz e Americo ouviam-o attentos e tomavam as suas palavras como conselhos e lição.
Depois de uma hora de conferencia o capitalista saiu.
Luiz ficou entregue à escripturação e Americo passou ao armazem a dirigir o trabalho dos negros e caixeiros.
Os dois associados não mostraram o menor vislumbre do resentimento, nem das más disposições em que se achavam um com outro, na presença de Jorge.
Bem pelo contrario, fallavam, consultavam-se, e olhavam-se, como duas pessoas ligadas por estreitissimos laços de amisade e de simpathia.
A presença de Jorge continha-os dentro dos limites do respeito. Além de que, qualquer de eles se julgava culpado perante a propria consciência. Luiz ainda podia alliviar a culpa com a ideia do sentimento que o dominava, do amor que lhe estava enchendo o coração. Americo, esse, não tinha uma unica apellação.
Jorge voltou de novo às duas horas e foi encerrar-se com Luiz no escritório. Conversaram por largo tempo, e quando às três da tarde saiu para regressar à chacara, chamou Americo e disse-lhe:
— O senhor Luiz sahe amanhã no vapor das 8 horas para Macahé. Vai a negocios meus. Quando vier a correspondencia abra e dê as suas ordens como entender conveniente.
— Sim, senhor.
— Se até eu chegar, fôr preciso alguma coisa queira mandar-me aviso ao Botafogo.
— Não há de ter duvida.
— Adeus.
Apertaram as mãos e Jorge saiu.
Americo exultou de contentamento com a inexperada saída de Luiz. Eram, pelo menos, quatro dias de demora, e em quatro dias podia, pensava ele, conseguir derrubar o seu rival do trono aonde começava a sentar-se.
Luiz ficou triste com a noticia, pelo lado do coração. Assaltaram-o logo as saudades por Magdalena, e, sobre tudo, a ideia de que o mulato poderia aproveitar a sua ausencia para commetter alguma infamia.
Exultou, porém, pelo lado da consciência, porque ia desempenhar uma missão, em nome daquele, a quem devia amisade, estima, confiança, e fortuna até.
Estava de um lado o amor, do outro o dever.
A ausencia ia ser por poucos dias e uma voz intima lhe segredava ao coração, que havia de voltar a encontrar Magdalena, firme ainda no seu juramento, constante no seu affecto.
Luiz confiava na pureza dos seus sentimentos, e tanto bastava para crêr que um anjo bom havia de proteger a sua causa.
Demais, bem sabia ele que o cabinda olharia pela sua filha.
Todavia Luiz não queria partir sem annunciar a Magdalena a sua ausencia. Ainda tinha tempo.
No dia seguinte, às sete horas, já ele andava de pé.
O mulato passára a noite a fazer e a desfazer planos. A ausencia do seu associado sorria-lhe fagueiramente. No entanto nada poude decidir positivamente, porque tinha a certeza de que Luiz tomaria todas as precauções.
Além disto, um dos maiores obstaculos que se levantavam, em face de qualquer resolução tomada, era o negro, era o cabinda de quem tinha, sem duvida, muito e muito a receiar.
A ultima resolução foi a de esperar o curso das cousas.
O mais provavel era que Luiz mandasse alguem a Magdalena, e nesse caso ele faria todas as diligencias para o evitar.
Luiz tambem não tinha outro recurso. Sair sem avisar Magdalena não o fazia de certo, não podia fazel-o. Ainda se a demora fosse de um dia! mas quatro pelo menos! Quatro dias era muito, sobretudo, para quem sente as primeiras saudades que são sempre mais dolorosas, mais profundas.
Tomou a resolução de escrever a Magdalena, mandando-lhe a missiva por um dos negros do armazem. Nunca o cabinda foi tão desejado, nunca!
Escreveu, pois, e incumbiu um dos escravos de chegar ao Botafogo, logo que Jorge viesse da chacara.
Às horas convenientes despediu-se friamente do mulato, que já andava de vigia, e partiu para o local de onde sahiam os vapores da carreira para Macahé.
Luiz levava a dôr das suas saudades e os receios de alguma infamia do mulato. . .
Às nove horas entrava Jorge no armazem.
Americo, depois dos cumprimentos do estilo, e de alguns cavacos sobre a correspondencia e negociações do dia, deixou-o no escritório e veio ao armazem.
Chamou os negros, interrogou-os a todos, perguntando se algum fora incumbido pelo senhor Luiz de ir ao Botafogo levar algum recado.
Um de eles respondeu que sim.
— A que? perguntou Americo.
— Levar isto à senhora moça.
— Deixa ver.
E tomou das mãos do negro a carta fechada, que este lhe apresentou.
— Não é preciso ires, eu mandarei lá.
E guardou a carta, contente, numa alegria visivel, em que se traduzia o sentimento de uma vingança quasi realisada.
O mulato era um infame, e esquecia-se de que a Providencia vela sempre pelos justos e pelos bons!
A grande questão de Americo era, quando não conseguisse para si Magdalena, empregar todos os meios para que Luiz a não conseguisse tambem.
neste desejo é que ele ia trabalhar, e, sobretudo, aproveitar os poucos dias de ausencia do seu socio, que, a bordo do vapor da carreira, ia curtindo saudades, sempre com a imagem seductora e deslumbrante de Magdalena a povoar-lhe a visão, e a aparecer-lhe em tudo!