Capítulo II A Filha do Cabinda · Capítulo 3 de 21
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Capítulo II

O Botafogo é, sem duvida, o mais formoso dos formosos arrabaldes do Rio de Janeiro.

As águas do vasto Guanabára, que, levemente onduladas, beijam constantemente a fimbria da purpura real da grande cidade, formam, naquele retiro, um como lago de sufficiente superficie, que é orlado, em grande parte da circumferencia, de chacaras magestosas, com vistosos e immensos jardins, vegetação opulenta e luxuriante, e explendidos e poeticos panoramas.

Em 1859, Jorge de Macedo, negociante de café em grande escala, e, ao mesmo tempo, abastado capitalista, vivia no Botafogo, em um formoso palacete, circumdado de lindissimos jardins.

Magdalena, a filha do cabinda, nesta epocha, em que principia a nossa narrativa, tinha desenove anos, e era a fada daquele arrabalde do Rio de Janeiro.

O cabinda estava já entrado em edade, mas vigoroso ainda, e sempre dedicado.

Ocupava-se o negro da limpeza das parasitas, que tentavam envadir as aleas dos jardins, e em algum serviço de Magdalena, sendo, de resto, tractado com toda a estima e amisade.

Magdalena exercia a profissão da caridade, não cuidando senão de dispensar a seu pae os carinhos e os affagos, que havia perdido na sua adorada Beatriz, e em dispensar, dos meios, que lhe abundavam, esmolas aos desgraçados e pobres.

Jorge dedicava-se aos seus negocios e à felicidade de sua filha, que ele adorava muito, fanaticamente até.

A chacara de Jorge de Macedo era um ninho de delicioso conforto, de uma belleza invejavel, aonde não entrava nunca a sombra de um desgosto, nem uma nuvem de desharmonia, pequenina que fosse.

Alli, senhores e escravos, brancos e negros, todos viviam em perfeita alegria.

Dos ultimos, porém, o mais querido, o mais estimado, o mais predilecto, sobre tudo de Magdalena, era inquestionavelmente o cabinda.

O negro tambem não abusava, e, diga-se a verdade, bem merecia ele de todos, mas de ninguem tanto, como da que ele chamava, e queria, e estimava como filha.

Era por uma tarde de maio, formosa e explendida. O sol doura, ainda, com os seus raios ardentes, os cumes do Pão de Assucar, da Tijuca, do Corcovado, e a cupula de folhagem variada das arvores gigantes, que vestem os montes em volta do Rio de Janeiro.

Uma brisa, suave, mas tepida, empregnada de perfumes de flores e de frutos, perpassa, branda, para o norte, agitando as palmas dos coqueiros e as largas, compridas e pendidas folhas das bananeiras e das palmeiras.

O sabiá trina ainda os seus modilhos deliciosissimos entre a ramagem mimosa de uma jaboticábeira carregada de frutos, e o beija-flôr pequenino anda na sua peregrinação, voluvel sempre, e sempre rapido, deixando beijos nas flores brancas do jasmineiro odorifero, ou nas flores simbolicas do maracujá, que veste as paredes e os caramancheis dos jardins.

O céu está sereno e limpido.

Ao fundo da chacara de Jorge de Macedo há um pequeno, mas formoso lago, coberto de agua, que cáe, em monotono murmurio, da bocca de um tritão de marmore fino.

Por traz, encostado ao muro, e voltado ao lago, há um vasto caramanchel formado de tranças de cipós e de maracujás, carregadas de flores e frutos.

Tem no meio uma meza de granito branco, e em volta assentos inglezes de madeira e ferro, talhados de modo que dêem ao corpo toda a possivel commodidade.

A atmosfera tem a cor avermelhada dos raios do sol, que desce a esconder-se no mar, e faz brilhar, com cores fantasticas, as azas, meio diafanas, das borboletas iriadas, que volitam dos cafezeiros para as goiabeiras, e destas para os ramos dos pés de araçás.

Magdalena, a formosa filha do cabinda, jantou e desceu aos jardins; andou só, pensativa, ora alegre, ora rapida, ora vagarosa, de canteiro em canteiro, colhendo pequeninas flores, que ia juntando entre as páginas de um livro, mimosamente encadernado.

Depois, lançou, atravez da gradaria de ferro, um olhar ao vapor da carreira, que passava em frente, atravessando o mar para o Rio, volveu-se passado um instante, e seguiu por uma alea, orlada de grandes jambeiros e pés de grumixama, em direcção ao lago, que jazia no fundo da chacara.

Magdalena era formosa, desta formosura, que desperta um culto sincero, uma adoração em que não entra um atomo de sentimentos menos dignos, desta formosura, em que se espelha e revela a elevação do espirito, a bondade de alma e a magnanimidade do coração.

Aqueles olhos negros, scintillantes, orlados de uma tenue sombra, e aquele rosto, tão expressivamente angélico, estavam mostrando as flores de ventura, em que se desataria o seu coração e a sua alma, para aquele que um dia tivesse o supremo goso de a possuir.

Era magestosa no andar, elegante de fórmas, e simples no vestir, mas desta simplicidade, que dá realce, que encanta, attráe e enleva.

Como lhe fica bem aquele vestido alvissimo, de fina cambraia, liso, desguarnecido, apertado apenas na cintura delicada por um grande laço de sêda azul clara!

Que belleza no modesto penteado dos seus negros cabellos, fartos e setinosos, formando apenas duas compridas tranças, que, cahindo-lhe pelas costas, se prendem, pela extremidade, uma à outra, ainda por um laço azul pequenino!

As pombas rolas, que andam aos pares, fallando amores na sua linguagem misteriosa, levantam vôo com a aproximação de Magdalena, que as segue depois com a vista, até as perder de todo; mas as borboletas de cores variadissimas, seguem-a contentes, como se já a conhecessem de há muito, e andam inquietas, em volta dela, ora subindo, ora descendo, como que desejando beijal-a, mas temendo fazel-o, receiando maculal-a.

E ela lá vae vagarosa e muda, lançando, de quando em quando, um olhar às flores, que leva prêsas nas folhas do livro, talvez bem querido!

Chegou assim ao lago, debruçou-se nele como procurando ver os peixinhos dourados, que o habitavam, e foi sentar-se encostada à meza de pedra, num dos bancos do caramanchel.

Era expressivo o seu rosto, porque estava desenhando os desejos que sentia dentro de si, e que ela mesma não podia comprehender.

Desejos vagos, misteriosos, indefiniveis.

Conservou-se absorta durante dois minutos, mas como que acordando, depois, de um sonho que a prendia, tirou as flores de entre as folhas do livro, collocou-as a um lado e pôz-se a lêr alto, com a sua voz meiga, seductora e angelical.

Era um livro de versos, era um livro de amor, o que ela lia!

E tão prêsa estava com as frases, que ia repetindo, tão scismadoramente como se em verdade as sentisse; tão distrahida estava de tudo, de todos e de quanto a cercava, que nem ouvia os gorgeios compassados de um bemtevi, que a sua voz harmoniosa havia desafiado, oculto entre as folhas do ramo de uma grande mangueira, que quasi se debruçava sobre o lago.

Chegou a um ponto da leitura e deteve-se suspirando. Depois repetiu ainda a quadra que acabára de recitar, e que dizia assim:

Suspiras, alma, num anceio languido? Ninguem te affaga, perfumada flôr? Ao sol as rosas da manhã desdobram-se, E a brisa affaga-as com carinho e amor!

E fechou o livro e ficou a scismar, com os olhos negros e formosos, cravados, vagamente, num ponto do horisonte.

Passados instantes, encostou a face à mão, como que cedendo ao pêso de um somno voluptuoso, e por fim deixou cahir o braço sobre a meza e o rosto sobre o braço, numa especie de somnolencia, sonhando, talvez, com as frases do livro, que havia acabado de lêr, e que, sem duvida, a impressionaram ou lhe fallarám à alma.

As borboletas de azas douradas, lá andavam em volta dela, como que embalando-a nos sonhos, que deviam esmaltar-lhe a somnolencia.

O sol havia-se já escondido o bastante para deixar a terra envolta nas sombras do crepusculo.

E a não serem os murmurios da brisa e os queixumes da agua, cahindo no lago pela bocca do tritão, nada mais se ouvia em aquella hora da tarde, no retiro aonde repousava Magdalena.

De subito começou a fazer-se sentir um leve ruido. Eram as folhas seccas do chão, gemendo debaixo dos pés de alguem, que se aproximava.

Quem seria?

As aves receiosas deixavam os seus asilos, architectados nos ramos das arvores frondosas, ante a passagem do ser que se aproximava.

Um minuto depois, um negro surgia junto ao lago.

Era o cabinda.

O preto deu com os olhos em Magdalena, parou e susteve a respiração, com mêdo de a acordar, mas nos olhos e nos labios brilhou-lhe logo um sorriso de verdadeira alegria.

— Oh! exclamou ele baixinho, é ela, a filha do cabinda!

E foi, pé ante pé, collocar-se de joelhos, junto à meza de pedra, em posição de onde melhor podia contemplar a sua filha, e assim ficou sem despregar os olhos dela.

Era uma loucura aquela affeição do negro!

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