Capítulo IX
O cabinda chegou à rua dos Pescadores, no Rio, alguns minutos depois de terminada a disputa entre Luiz e Americo.
O escritório, como já dissemos, era situado no fundo do armazem, e resguardado por uns tapamentos de madeira, que interceptavam a vista do seu interior às pessoas que entravam.
Americo estacou, e como que teve um estremecimento, vendo surgir o negro. Dissimulou-o, porém, o mais que pôde, e foi encostar-se a uma porta lateral.
— Louvado seja o Senhor! disse o negro, entrando.
— Adeus, cabinda; respondeu Americo docemente.
— O negro quer fallar ao senhor Luiz.
— O teu senhor não vem hoje à cidade? perguntou Americo com intenção.
— O negro não sabe.
— Quem te mandou, então?
— A senhora moça.
E o cabinda lançou a Americo um olhar perscrutador.
— A senhora moça? perguntou o mulato, admirado do pouco segredo que o negro guardava da sua missão.
— Sim.
— Trazes recado ou carta? acudiu Americo rapidamente.
— O negro traz carta.
— Dá cá, que eu vou entregal-a ao senhor Luiz.
— A ordem da senhora moça é só para entregar a ele.
Americo encolerisou-se com a resposta do cabinda, e disse, raivoso:
— Bem se vê que és negro!
— Como o pae de muita gente, respondeu aquele.
— Patife! . . .
— O negro é cabinda, e o cabinda é raça fina. O mulato é filho de branco e de negro. . .
Americo sentiu-se altamente atacado, mas enguliu a affronta, que provocára. Teve vontade de atirar logo dous murros ao negro, mas o receio deteve-o, porque tinha diante de si um homem possante, que, embora escravo, era, comtudo, um escravo estimado e querido. No meio da sua ira, e, digamos, da sua cobardia, limitou-se a ameaçar:
— Deixa estar, que o teu senhor saberá que andas a trazer e a levar recados da senhora moça, patife!
— O negro não tem mêdo.
E o cabinda deu-lhe as costas, e dirigiu-se ao escritório, onde lhe parecêra ouvir a voz de Luiz.
Chegou à porta e metteu a cabeça.
— Licença.
— Ah! és tu, cabinda? Entra; acudiu Luiz, largando a penna.
— O negro, meu branco.
— A que vens?
— Trazer isto. Manda a senhora moça.
E tirando do bolço o bilhete de Magdalena, entregou-o a Luiz, esperando com alegria, sorrindo de contentamento.
Luiz sentiu um desses abalos, grandemente bello; um desses choques, que se sentem sempre que nos chega a mão a primeira e suspirada carta do objecto do nosso amor.
Que papel aquele! que tesouro não estava alli!
Fossem dizer ao simpathico moço que o não lêsse! oferecessem-lhe por ele todas as riquezas do mundo!
Recusava, de certo, e recusava sem a minima hesitação!
Apenas o perfumado papel lhe chegou às mãos, Luiz abriu-o com uma rapidez vertiginosa, e lançou ao contheudo os olhos, mais como quem o devorava, do que como quem o estava lendo.
Era uma soffreguidão nervosa, natural, exigida até pelas circumstancias.
O cabinda que lhe seguia o menor dos movimentos, que parecia mesmo estar lendo o que se passava no seu íntimo, permanecia immovel, suspenso, numa contemplação profunda e silenciosa;
A leitura da pequenina carta foi rapida, mas, nesse pequeno momento da sua duração, Luiz subiu todas as notas da escala harmoniosa dos transportes sublimes da ventura.
O bilhete dizia o seguinte:
«Luiz
«Ainda não há vinte e quatro horas que me deixaste e já não posso com as saudades, que me magoam. Vem-me ver quando poderes e diz-me sempre que nunca hasde esquecer a. . . tua
Magdalena. »
«P. S. Passei a noite a pensar em ti, e até nas três horas, que a fadiga me obrigou a repousar, tive sempre, ao meu lado, em sonhos lindos, a tua imagem, que me sorria e eu acariciava. »
Era curta a missiva mas, em compensação, eloquentissima.
E Luiz olhou para o negro.
— Então? perguntou este.
— Ah! cabinda! cabinda! exclamou o moço com duas grossas lágrimas a brilharem-lhe nas pupillas.
— O branco chora? que tem? interrogou o negro rapidamente, passando do extremo da alegria ao extremo do receio.
— Choro, sim, e olha que nunca os meus olhos verteram lágrimas como estas! São de ventura, são de felicidade! Cada uma me vale o céu, cada uma é um himno, cada uma é um poema! Choro, porque nem só a dôr, nem só a tristeza, nem só o infortunio, tem lágrimas. A alegria, quando é tão grande, como a que eu estou sentindo, tambem as tem, tambem se adorna com elas. Aquelas são amargas, são negras, queimam e ferem; estas, que tu vês nos meus olhos, teem o explendor de um sol formoso, são dôces, porque resumem a essencia de um nectar suavissimo, dão vida, porque contéem em si os elementos que a vigorisam! Choro, porque sou feliz, cabinda!
O negro ouviu Luiz numa anciedade indiscriptivel. O peito arfava-lhe com violencia; era um mar tempestuoso. Os olhos, os seus grandes olhos, estavam pregados em Luiz. Susteve-se assim enquanto o amoroso moço ia fallando, enlevado nos transportes do seu grandissimo affecto. Mas apenas ele acabou, o negro acudiu logo immediatamente:
— E o branco gosta da senhora moça?
— Oh! se a amo! . . .
— Muito?
— Até ao delirio!
— Obrigado, meu branco! obrigado, meu branco! exclamou o negro, beijando freneticamente as mãos ao moço.
— Que fazes, cabinda? acudiu Luiz, commovido, porque traduzia em aquelles beijos a affeição do escravo por Magdalena.
— É porque a senhora moça é filha do cabinda, e o negro quer a senhora moça muito feliz.
— És uma grande alma!
— Mas o mulato. . .
— Oh! o mulato, acudiu de prompto Luiz, é preciso cautela com ele!
— O cabinda não dorme! disse o negro em um tom de ameaça.
— Bem. Agora vou escrever duas linhas e não te demores. Vai logo, sim?
— A minha filha espera, bem sei.
Luiz sentou-se e escreveu as seguintes linhas:
«Magdalena
«Poderei esquecer tudo, mas esquecer-te a ti, nunca. Fizeram-me bem as tuas palavras, E se estás soffrendo a melancholia das saudades que sentes por mim, eu estou entre as nuvens da tristeza, desta ausencia, em que nos tem uma distancia tão curta. Passaste a noite scismando em mim; eu não repousei, pensando em ti. Lá havias de sentir no teu seio os echos do meu pensamento. Irei vêr-te quando podér, e crê que te amo, que te adoro muito, muitissimo.
«Luiz. »
O negro partiu.
Quando chegou ao Botafogo ainda Magdalena estava sentada ao piano, para onde a vimos encaminhar-se depois de ter affagado Jorge, seu pae, com dous affectuosissimos beijos.
O piano não estava agora gemendo deliciosas harmonias; estava sendo a victima da anciedade, em que Magdalena esperava o cabinda.
As mãos ora corriam rapidas, ora vagarosas, traduzindo claramente os sentimentos e as ideias que se iam succedendo na sua juvenil imaginação.
De quando em quando, corria à janella a ver se divisava o negro, mas voltava com a melancholia no rosto, sempre formoso.
O cabinda entrou num dos intervallos em que ela tocava.
Apenas ele surgiu à porta da sala, Magdalena deu um grito.
Inundou-lhe o rosto todo o explendor do sol das alegrias. Os olhos faiscaram centelhas de felicidade.
— Então? que trazes? perguntou ela, correndo para o negro.
— Carta do branco.
— Dá cá, depressa, anda.
O negro entregou a carta de Luiz e Magdalena começou a lêl-a do mesmo modo que aquele havia lido a dela.
Eram eguaes as impressões, eguaes as circumstancias, eguaes os sentimentos da ocasião.
Ao findar a leitura, Magdalena deitou os braços aos hombros do escravo, e exclamou, ébria de contentamento, douda de alegria:
— Ah! cabinda! cabinda!
— Está contente a senhora moça?
— Oh! muito! muito! nem tu sabes como eu sou feliz!
— É isso o que o negro quer, porque a senhora moça é filha do cabinda!