Capítulo XII
É noute, formosa como as da America, resplendente de luar, bordada de estrellas, impregnada de perfumes e suave de harmonias. Despenham-se murmuradoras, por entre as sinuosidades graniticas, as águas das cascatas e das cachoeiras, formando lindissimos rolos de espuma, até cahirem no vasto leito, onde a fada palpitante, a rainha voluptuosa, mira languida o seu rosto prateado. Agitam-se levemente, ao sopro suave da aragem nocturna, os calices das flores aromaticas, e os ramos, as folhas viçosas das arvores gigantes das florestas.
Este meio silencio da natureza, este conjuncto de vozes indistinctas, sahido do seio das vastas mattas; a luz, que jorra brilhante das perolas engastadas na immensidão azul de um céu tropical; as ondas inebriantes, embriagadoras, dos perfumes, que de toda a parte se levantam invisiveis; os cantos magicos, doces, harmoniosos, de algumas das aves nocturnas dos climas do novo mundo; e, finalmente, este quê ignoto, indefinivel, que distingue as noutes da America das noutes da Europa, parece que dão à alma mais desejos, aos desejos mais fogo, e ao fogo mais labaredas.
É calido o ambiente. O corpo ressente-se deste estado da athmosfera, e verga ao pêso de uma languidez, semilhante à somnolencia voluptuosa produzida pelo opio.
Reclina-se o corpo; os braços pendem como cançados; a cabeça cede naturalmente e cahe meio adormecida; cerram-se os olhos, e neste estado, que não é somno, nem delirio, nem sonho, nem embriaguez, mas que é um composto suave de tudo isto, o espirito vôa, como as aguias das montanhas, às regiões formosas do puro idealismo, onde o leva a fantasia ardente, que vegeta dabaixo do sol dos tropicos; a alma anceia em ondas infinitas; o coração palpita fremente de desejos, e há em tudo, nesses momentos, um desabrochar opulento, luxuriante, e vigoroso dessa poesia que se sente, que se gosa, que extasia, que brota, invisivel, das harpas, sempre afinadissimas, do immenso vate chamado — natureza.
Ó noutes do Brasil! ó noutes de poesia e de encanto! desenrolae o vosso manto de misterios, e deixae que as juritis arrulem amores nos ninhos aveludados, e os sabiás desfiem as perolas dos seus cantos amorosos!
Deixae que cada sêr palpite, que cada amor se expanda, que cada alma se banhe na luz vaporósa do ideal da ventura!
É noute, pois, e noute deslumbrante. O Botafogo repousa depois de um dia de vida mais. Soaram três quartos depois das nove horas na torre distante da egreja da Gloria, que, do seu morro, domina a vasta bahia do Rio de Janeiro. As águas, da enseada do Botafogo estão dormentes, quietas e serenas. São um espelho onde a lua e as estrellas reflectem os seus raios resplandecentes. Vaga mansamente ao longe um barquinho solitario, de onde, nas pandas azas da viração perfumada, se eleva uma voz sonora, suave e simpathica, soltando no meio do silencio umas estrofes de amor.
É a voz de algum vate enamorado? ou de algum sêr que geme saudades?
Não sei.
O silencio da noute estende-se ainda aos jardins e à chacara de Jorge de Macedo.
O negro cabinda e Magdalena seguem, fallando baixinho, uma das compridas ruas, que vão desembocar ao lago.
Magdalena vae trémula e receiosa. O cabinda animado e faiscando centelhas de fogo dos seus grandes olhos.
— Já lá estará, cabinda? perguntava Magdalena.
— É cêdo ainda, senhora moça.
— Vou com tanto mêdo.
— O negro lá há de estar, minha filha.
— Corre logo, se fôr preciso, ouviste?
— De traz dos maracujás, o negro há de ver tudo.
Chegaram ao lago. Era completo o silencio. Magdalena entrou para o caramanchão. O negro foi cauteloso collocar-se atraz de uma das paredes de cipós, que o formavam.
— O negro fica aqui, senhora moça.
— Bem, não falles nem bulas que podes trahir-te.
— Descance a senhora moça.
E Magdalena começou a pensar na imprudencia que estava commettendo.
Todavia, o que não faria ela para receber uma carta de Luiz, de Luiz que amava tanto, e que se ausentára sem tempo, ao menos, para se despedir?
Esteve assim alguns minutos. Ouviam-se apenas o bulir das folhas das mangueiras, a respiração alterada de Magdalena, e o murmurio das águas, caindo no lago pela boca do tritão de marmore.
O muro, a que se encostava o caramanchão, tinha a altura de metro e meio. Os ramos folhudos de uma grande tamarindeira furtavam-o, naquele logar, aos raios prateados da lua, deixando-o envolvido numa escuridade vaga e indecisa.
De subito a cabeça de um homem surgiu do lado de fóra; conservou-se attento alguns segundos, como sondando o local, elevou-se depois e saltou para dentro cauteloso.
Era Americo. O negro estava de espreita e já o tinha sentido.
O mulato rodeou pé ante pé a grande tamarindeira e dirigiu-se ao caramanchão. Vinha receioso em extremo, e Magdalena, que lhe ouvira os passos, não o esperava mais animosa.
Chegou à entrada do caramanchão.
— Magdalena! murmurou ele baixo.
— Senhor Americo! respondeu ela timidamente.
— Esperou muito, não?
— Não; mas agora não posso demorar-me.
— Estamos sós.
— Estamos.
— Ainda bem.
E chegou-se mais a Magdalena e ia a tomar-lhe as maõs, quando ela retirando-as accudiu:
— Perdão, senhor. Creio que foi para satisfazer ao pedido do seu amigo que aqui veio, e já lhe confessei que não posso demorar-me.
— Para satisfazer ao pedido do meu amigo! Não, não foi para isso, minha senhora.
— Para que foi então? acudiu Magdalena de subito.
— Foi para lhe dizer que a amo, que a adoro, que sou louco, muito louco por V. Ex. ^a!
— Senhor Americo!
— Oh! não se afflija V. Ex. ^a Usei deste estratagema, porque sei que não conseguiria de outro modo estar junto de V. Ex. ^a Sei que o seu coração se inclina para Luiz, mas V. Ex. ^a é que não sabe os sentimentos que o dominam a ele. Julga, no meio da sua ingenuidade que ele a ama tambem, mas creia, que só a ambição o domina. O amor, o fogo, o delirio é nosso, é dos brazileiros, que nascem debaixo deste sol que queima, e não dos que nascem entre os gelos que petreficam.
— Perdão ainda uma vez, senhor. Ou vem para me dar a carta de Luiz, ou nada tenho que fazer aqui e retiro-me.
— Não; V. Ex. ^a não se retira assim. Já que consentiu em me receber a esta hora, há de fazer o sacrificio de ouvir-me.
— Não tenho que ouvir-lhe, senhor.
— Mas tenho eu que dizer-lhe. Diga-me V. Ex. ^a: porque há de acceitar os galanteios calculados de Luiz e desprezar o sentimento verdadeiro que lhe offereço?
— E quem lhe dá o direito de m'interrogar?
— A minha superioridade neste momento. Esquece-se de que estamos sós?
— Oh! mas isso é. . .
— Para estranhar talvez, é. Mas V. Ex. ^a não sabe, não comprehende os desejos que me devoram. E a indifferença de V. Ex. ^a excita-me em vez de esmagar-me. Oh! por piedade Magdalena!
E segurou-lhe uma das mãos, tremulo, nervoso, febricitante.
— Deixe-me, senhor!
E quiz fugir-lhe. Americo, porém, num momento de exaltação deitou-lhe as mãos às tranças dos cabellos para a deter. Magdalena exforçou-se e poude desembaraçar-se dele, deixando-lhe nas mãos uma das fitas que lhe ornavam a cabeça.
— Oh o senhor é um infame! . . .
— Mas não há de fugir-me assim!
E seguiu-a continuando:
— Ao menos hei de levar um beijo. . .
E tinha prendido Magdalena, e ia commetter a infamia, quando sentiu o pescoço apertado vigorosamente por uma mão de ferro. Era do cabinda.
Americo soltou um rugido.
Magdalena exclamou vendo-se livre do mulato:
— Que fazes, cabinda!
— Mato a serpente, senhora moça!