Capítulo XIX
Sentaram-se os três, e houve, como já dissemos, um momento de silencio completo, em que até pareciam sustidas as respirações.
Depois, Jorge esfregou vagarosamente as mãos nos joelhos, gesto este, que pode talvez traduzir-se por uma certa repugnancia, ou por uma certa difficuldade em abrir a conferencia, para a qual havia chamado os seus recentes socios, e em seguida começou assim, com ar de gravidade:
— Devo principiar por pedir-lhes desculpa de os haver incommodado, mas tenho para mim, em tanta conta, em tanta gravidade, em tanta ponderação, o negocio que me obrigou a chamal-os agora aqui, que o não fazel-o poderia talvez importar-me um desgosto, que deste modo me pouparei, creio-o. Resumirei em poucas palavras o que tenho a dizer, porque quero limitar-me, apenas, a descobrir a verdade. Sou infelizmente viuvo, mas sou pae. Choro, por um lado, as lágrimas da saudade, mas tenho, graças ao céu, por outro, um anjo que m'as dulcifica. Fui rapaz, tive a minha mocidade, com todos os sonhos, com todos os arrebatamentos, com todas as illusões, com todos os euthusiasmos que lhe são próprios, e nos quaes se desata a effervescencia do sangue dos vinte anos. O livro da minha vida de então, escripto, capitulo a capitulo, não tinha, nunca teve, uma unica página maculada por uma nodoa, leve e pequenina que fosse. Mesmo nos delirios da minha juventude timbrei sempre em conservar intacta a pureza do meu nome, e jámais tentei realisar uma aspiração grande ou pequena, boa ou má, por meios que me fizessem soffrer a dignidade, ou ferissem a minha honra. Trabalhei para chegar ao que sou, e o bom nome que creio gosar, agora, não é mais que o nome grangeado então. nesse tempo a ambição era egual à lealdade, se é que a ambição já existia num grau tão elevado como actualmente, mas ainda assim, nunca tão corrompedora, como na época que vamos atravessando. Agora mudaram as cousas, e é disso que me queixo. Visa-se ao alvo e ha-de chegar-se lá, custe o que custar, pouco importam os meios.
E Jorge fez uma pequena pausa, como que para descançar. Via-se que estava sensibilisado, commovido ou nervoso.
Os dous conservavam-se impassiveis, attentos, de fronte humildemente abatida. Agora já não tinham que duvidar; era a eles que se dirigia todo o discurso de Jorge de Macedo, que proseguiu momentos depois:
— Tratei-os sempre bem, sempre, mais como amigos, como parentes, como affeiçoados meus, do que como subordinados ao meu serviço. Para prova do muito que julgava merecerem-me, sentei-os há dias à minha meza, numa festa intima, puramente familiar, no intuito, que realisei, de os fazer partilhar da minha sorte, fazendo-os socios meus.
— Eu, pela minha parte, senhor, serei eternamente agradecido ao muitissimo que devo a V. ^a Ex. ^a, acudiu Luiz.
— E eu. . . ia Americo a ajuntar tambem, quando Jorge o interrompeu continuando:
— Perdão! Será talvez assim, mas nesse caso estou então illudido, porque para mim, um dos senhores, pelo seu comportamento, desdiz completamente do conceito que me. . . devia.
— V. ^a Ex. ^a deve, sem duvida, ter muitissima razão para fallar desse modo, e bom será que nos julgue, para que só o culpado soffra o castigo, atalhou Luiz.
— As justificações depois. Ouçam-me por emquanto e depois terão a palavra. Cheguei hoje do Rio, contente e feliz, esperando, pelo costume, vir encontrar, do mesmo modo, minha filha, que adoro com a loucura de pae que não tem outra, que não tem mais família. Eu, que já me vejo mais perto do tumulo do que do berço, viuvo, e por consequencia, sem os consolos, sem as delicias com que sempre nos embriagam os corações de aquellas que se unem a nós, partilhando da nossa vida, affiz-me aos carinhos e aos consolos da filha unica, que neste ponto valia bem a chorada mãe, e costumei-me a pagar-lh'os sempre, trabalhando constantemente por em todos os sentidos lhe abrir caminhos, onde só desabrochassem flores e onde nunca viçasse um espinho. Consegui-o durante muitos anos, em que nunca uma nuvem, a não ser a da saudade que ambos cultivavamos pela rosa que Deus chamára a si, obscureceu levemente o céu da nossa vida. Prometti, no leito de morte da minha adorada Beatriz, que faria tudo para que Magdalena fosse ditosa. O céu tem-se empenhado em auxiliar-me no cumprimento da minha promessa, porque até hoje ainda Magdalena não derramou uma unica lagrima, ainda não teve um queixume para me lançar no coração. Sorria-me esta ideia da felicidade de minha filha, que era a da minha felicidade tambem, e era por isso que ao entrar e ao sair de casa, em cada dia, eu o fazia contente, ébrio mesmo de uma alegria que não me passou nunca pela mente, que podésse toldar-se ou ennublar-se. Não succedeu, porém, assim; e hoje, quando regressava, ancioso por lhe pagar em beijos os beijos e os affagos com que era costume esperar-me ela, venho encontral-a chorando triste e dolorosamente, proclamando-se desgraçada, a filha querida do meu coração. As suas lágrimas quasi que me fizeram succumbir. Não as esperava, não desejára esperal-as. Era, havia muitos anos, o primeiro momento de turtura que eu soffria. . .
E Jorge tinha as lágrimas nos olhos. Fez uma pequena pausa para desatar a voz que se lhe ia prendendo na garganta, e proseguiu:
— Interroguei-a com a brandura de quem é prudente, com a dôr de quem como eu a idolatrava tanto e com a curiosidade de quem tudo desejava saber, para tudo remediar se fosse possivel. Oh! o que eu soffria então! Porque angustias não passei durante os curtos momentos, que me valeram muitos seculos, antes de me revelar a verdade!
— E descobriu-a, não? interrogou Luiz subitamente.
— Não sei. Contou-me Magdalena uma história, em que figuram, como principaes personagens, os dous homens que há poucos dias sentei à minha meza para os associar, no negocio, ao meu nome. Soffri ainda mais!
— E. . . ia Luiz a interromper, quando Jorge continuou:
— Conclui que ambos a pretendiam, mas que nem ambos empregavam, para isso, meios muito honrosos.
O mulato estava tremendo de receio. Luiz sentia-se cada vez maior senhor de si.
— Perdão, senhor, da minha parte todos o eram. E se algum de nós procedia menos dignamente não era de certo eu, juro-o, disse Luiz com convicção.
— Eu tambem. . . acudiu Americo sem poder concluir.
— Qual dos dous convidou minha filha a uma entrevista junto ao lago a horas adiantadas da noute?
— Eu não, senhor, afirmou Luiz.
— Fui eu. . . disse o mulato a custo.
— E com que fim?
— Fallar-lhe. . . apenas, respondeu o mulato.
— Então não foi para lhe entregar uma carta do senhor Luiz?
— Minha? Não podia ser, disse este, levantando-se. Saiba V. Ex. ^a que este senhor mentiu ou abusou, se disse ou pretextou semelhante cousa. E peço licença para dizer duas palavras. Vivo há perto de doze anos com V. Ex. ^a e nunca, creio eu, lhe dei motivos para uma censura, para uma queixa, para uma reprehensão. A minha vida modelou-se, no tocante a honra, a dignidade, a caracter, a tudo, emfim, pela de V. Ex. ^a que bem digna foi sempre, e é, de ser imitada. Fui sempre respeitoso e submisso, sempre, e não seria no momento em que V. Ex. ^a me deu uma grandissima prova da sua estima, que eu por um acto menos digno lançaria em terra, desfeito, desmoronado, um edificio que tanto tempo levou a construir. Com relação à filha de V. Ex. ^a o meu procedimento não me será lisongeiro talvez, mas tambem não é infame. Na tarde do dia em que tive a honra de sentar-me à sua meza, passeiava ao lado da bondosa filha de V. Ex. ^a pelas alamêdas do jardim, emquanto V. Ex. ^a e este senhor conversavam tomando café. A nossa conversação tomou o caminho que sempre segue entre pessoas de vinte anos. Achei-a então formosa de corpo e formosissima de alma. Não resisti aos impulsos do coração que se abria com as suas palavras, que desabrochava subitamente com o sol dos seus olhares, e disse-lhe que a amava. Confessou-me tambem que nunca um homem a impressionára e que. . . tambem se inclinavam para mim as flores do seu affecto. Eu fallei então tão verdadeiramente, como o estou fazendo agora a V. Ex. ^a Parti. No dia seguinte, creio eu, recebi um bilhete de D. Magdalena, com duas frases, filhas do seu sentimento, a que respondi com dignidade e affecto tambem. Impellia-me o coração e era valente de mais para que eu lhe resistisse. Quando V. Ex. ^a me encarregou de ir a Macahé tornei a escrever-lhe e dei a carta a um dos negros do armazem. Não sei se D. Magdalena a recebeu. O que sei é que este homem, com o qual nunca mais poderei viver, desde o momento em que conheceu que a filha de V. Ex. ^a me levantava até ela com o seu amor, começou a fazer-me uma guerra de morte, uma guerra declarada, protestando que a filha de V. Ex. ^a seria para ele e nunca para mim. Tivemos algumas altercações violentas. Quando regressei de Macahé, ancioso de ver D. Magdalena, e contentissimo de bem ter desempenhado a minha missão, surge-me este senhor, apresenta-me um bilhete dela, em que lhe concede uma entrevista para horas adiantadas da noute, e uma fita dos cabellos dela que realmente reconheci. Não sei mais nada. Julguei a filha de V. Ex. ^a uma creança caprichosa, e hoje, talvez excessivamente desesperado, porque devéras me doía o coração, vim a esta casa e. . . disse à filha de V. Ex. ^a que estimava que fosse feliz, mas que me esquecesse. Ainda assim Deus sabe o sacrificio que fiz neste ultimo acto. O meu resentimento era, porém, tão grande, que não pude ser-lhe superior. E para tudo dizer a V. Ex. ^a confesso que me arrependi logo, porque creio agora que a filha de V. Ex. ^a é uma bondosa e sincera menina e que aqui, em tudo isto, só andou uma infamia, uma indignidade da parte deste homem, com que já hoje tive uma séria altercação. Amo ainda, e muito, a filha de V. Ex. ^a É destino meu e não posso fugir-lhe. Agora veja V. Ex. ^a o que há de censuravel e indigno em tudo isto e condemne-me se o julgar conveniente. Esta é a verdade e não fujo a confessal-a, por todos os motivos, mas sobretudo, sendo V. Ex. ^a a pessoa a quem devo tanto e tanto.
— Eu sei tudo. É um cavalheiro o senhor Luiz. Dê-me a sua mão, quero apertal-a como a de um grande amigo.
Jorge e Luiz estavam commovidos. O mulato olhava atterrado para a porta, com horriveis tentações de fugir. O seu castigo começava alli.
— Eu sei tudo, continuou Jorge, porque nada me ocultou Magdalena. E como a felicidade de minha filha é tambem a minha, ela é que há de vir terminar esta nossa conferencia.
Magdalena, que tudo ouvira, oculta atraz da porta aonde a deixamos, não se fez chamar; correu logo, ébria de alegria, e lançou-se nos braços de Jorge, gritando:
— Obrigada, papae! Obrigada, papae!
— Diz-me, interrogou-a ele, gostas muito do senhor Luiz, não é assim?
— Muito! . . . murmurou, ruborisada de pejo.
— Crês que has-de ser, com ele, tão feliz como desejo que tu o sejas, não?
— Muito, e só com ele.
— Bem. O senhor Americo, como recompensa do seu procedimento pouco digno, queira retirar-se e esperar ámanhã as minhas ordens no armazem. Limito-me a isto, porque não quero fazer mais no dia em que o céu me abre na terra a felicidade de minha filha.
O mulato tinha os olhos cravados no chão. Tomou o chapéu, volveu-se e saiu vagarosamente, como que arrastado por uma força que tentasse tiral-o do logar onde o chumbava não sei que sentimento.
Quando transpôz a porta, pendiam-lhe dos olhos duas grossas lágrimas.
Seriam de vergonha?
Seriam de remorsos?
Seriam de odio?
Não sei.
Talvez de tudo isto juntamente, quem sabe?
Instantes depois, entrava o cabinda como doudo na sala e ia ajoelhar-se aos pés de Jorge, beijando-lhe freneticamente as mãos e exclamando em extrema commoção:
— Bem haja, meu senhor, bem haja, que fez feliz o branco e a filha do cabinda!
Quando as primeiras sombras da noute desciam suavemente sobre a terra, andavam Luiz e Magdalena passeiando no jardim entre as flores, irmãs dela, entre os perfumes suaves, como os que então se evaporavam das rosas brancas de suas almas enamoradas.
Fez-se alli o primeiro idílio do seu noivado.
Já dormiam as juritis nos ninhos avelludados, e os beija-flores, cançados de oscularem as rosas, mas substituiam-os, alli, duas almas prezas nos laços dulcissimos de uma embriagadora felicidade.