Capítulo V A Filha do Cabinda · Capítulo 6 de 21
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Capítulo V

Pouco depois era servido o café.

Jorge e Americo, tomavam-o, conversando sentados em duas pittorescas cadeiras de bambús, à entrada de um formoso caramanchel de trepadeiras floridas.

Os caixeiros mais novos passeiavam pelo jardim e pela chacara, gosando a liberdade, que lhes era concedida, desforrando-se da prisão quotidiana, e do serviço quasi aturado do armazem.

Magdalena, a formosa filha do cabinda, andava de canteiro em canteiro, mostrando a Luiz de Mello as suas flores; apontando, deslumbrante de candidez, as particularidades de cada uma, a idade e a procedencia, com a convicção de quem conhecia alguma coisa de botanica, e um tanto orgulhosa dos cuidados, que empregava com as predilectas suas irmãs.

Luiz segui-a e ouvia-a como fascinado, parecendo-lhe mais que estava passando por um destes magicos sonhos de delicioso encanto, que tantas vezes embalam a imaginação juvenil, do que assistindo à realidade de ver e ouvir ao seu lado um anjo, esplendoroso de encantos, e suavissimo de harmonia nas fallas.

— Olhe, dizia Magdalena alegre, radiante e sempre formosa; olhe este pé de suspiros. Não é tão, bonito?

— Formoso, minha senhora.

— E estas saudades, não são tão lindas?

— Muitissimo. Saudades. . . as flores simbolicas dos que soffrem; dos que, como eu, longe da patria, aonde deixaram a família, vivem na esperança de lá voltar, sem terem, comtudo, em ausencia dela, um affago, que lhes adoce a aridez do trabalho; um carinho, que lhes lisongeie o sentimento, um consolo neste correr da existencia, isolado, monotono e, por muitas vezes, triste.

— O senhor Luiz tem muitas saudades da sua terra, tem?

— Se tenho! . . .

— Tambem eu as sinto! disse Magdalena com ar melancholico.

— Saudades, minha senhora? ! perguntou Luiz admiradissimo.

— Sim, admira-se?

— E com razão. Pois V. Ex. ^a, cercada de todas as commodidades da vida, dos extremos e affagos de um pae, que é mais que muito carinhoso; nova, formosa, permitta-me V. Ex. ^a esta verdade; vendo realisados todos os desejos, satisfeitas todas as vontades; V. Ex. ^a, que é, que deve realmente ser muito e muito ditosa aos olhos de toda a gente, e aos olhos próprios, confessa que sente saudades, e não há de querer que eu, exilado, sem família, sem estes nadas da vida, que a dulcificam e embellezam, me admire e espante dessa confissão?

— Que quer? Tenho-as, sim, mas tambem não sei de que, para lhe fallar a verdade.

— Comprehendo. nesse caso melhor será que V. Ex. ^a diga antes que tem desejos. . . E emfim, quem sabe? Na idade de V. Ex. ^a, na idade florida dos amores, dos enthusiasmos, das alegrias, das expansões e dos sonhos formosissimos, há sempre, pode pelo menos haver, muita vez, algumas dessas melancholicas florinhas, que são, então, como pequeninas nuvens no azul de um céu estrellado e deslumbrante.

— Não é isso, disse Magdalena levemente contrariada. Não é isso, porque eu nunca amei.

— Ah! V. Ex. ^a nunca amou?

— Nunca, pelo menos que eu saiba, respondeu ela ingenuamente.

— Mais um motivo para eu crêr que o que V. Ex. ^a tem, são desejos de amar e ser tambem amada.

— Talvez, accudiu Magdalena córando, e pregando em Luiz os seus negros, grandes e formosos olhos.

— E acreditaria V. Ex. ^a no amor do primeiro homem, que ousasse render-lhe um culto, confessando-lhe esse sentimento?

— Conforme. O coração é que havia de decidir.

— E o coração de V. Ex. ^a não lhe diz nada? não lhe lembrou ainda um nome? um homem, a quem tenha de dar as perolas valiosissimas do seu affecto?

— Já.

Luiz estava pallido e tremulo de commoção.

— Oh! se fosse eu! . . . murmurou ele.

— Que tinha! era muito feliz, era?

— Se era, minha senhora! muito! muito!

— E amava-me? perguntou Magdalena anciosa, e um tanto agitada.

— Oh! com delirio até!

— Pois então não dê a mais ninguem o seu amor, porque. . . eu tambem o amo muito!

E a formosa filha do cabinda olhou para todos os lados como receiando que alguem a ouvisse.

Creança!

Que commoções a não abalaram naquele momento! que agitação naquele seio tão estreito, agora, para as ondulações do coração, que tantas flores estava desabrochando!

Era a primeira vez que lhe fallavam de amor! era a primeira vez que um homem a impressionava.

O que ela viu, o que ela sentiu, era o Paraiso com as bellezas deslumbrantissimas dos seus vastos e perfumados jardins! era o céu com todas as harmonias das suas orchestras, afinadas pelos dedos dos anjos!

Luiz esqueceu-se da patria, da família, das saudades, que tinha por uma e outra, e começou, numa como visão fantastica, a ver diante de si um horisonte illimitado de felicidades sem fim!

Que dia aquele! que dia tão venturoso! de um lado os beijos carinhosos da fortuna, do outro, as flores magicas do amor de um seio de virgem!

Eram tão violentas as commoções que o abalavam que apegas poude murmurar:

— Juro-lhe que a hei de amar eternamente! mas suplico-lhe que não me engane nunca!

— Nunca! prometto-lh'o pela memoria sagrada de minha mãe! . .

E embebidos nas doçuras, nos enthusiasmos deste colloquio, que jámais devia ser esquecido Luis e Magdalena tinham-se affastado um pouco para um dos angulos do jardim.

Sentaram-se como que machinalmente.

Magdalena voltava e revoltava entre as suas mãos mimosas e pequeninas um viçoso suspiro; Luiz aspirava o fumo de um delicioso charuto bahiano, e arrojava depois ao espaço as ondas azuladas, as nuvens pequeninas do fumo aspirado.

Os pés dos jasmineiros floridos impregnavam a atmosfera de perfumes que inebriavam.

E o pôr do sol, o cahir das primeiras sombras do crepusculo da tarde, começavam a pesar na alma de aquelles dois namorados, estremosos como duas juritis.

— Parto daqui a pouco, minha senhora, disse Luis olhando com saudade para Magdalena.

— Mas há de vir ver-me sempre que poder; sim?

— Sempre que não haja quebra de conveniencias.

— Conveniencias? interrogou Magdalena.

— Sim, minha senhora. Bem vê V. Ex. ^a que a minha presença muito frequente nesta casa, pode despertar suspeitas, e eu não desejo, nem devo desgostar o senhor Jorge de Macedo, que apesar de estimar-me muito, talvez não aprove esta affeição, que começa a prender-nos hoje.

— Há de aproval-a, basta que eu lhe diga que o amo.

— Em todo o caso não a descubra V. Ex. ^a por ora, não?

— Não.

— -E se um outro homem, um homem qualquer se dirigir a V. Ex. ^a, ou se mesmo seu pae lhe apontar algum, como digno de partilhar do nome da sua família?

— Despedil-o-ei.

— Agradecido, minha senhora.

— E olhe, quando não possa vir vêr-me, dê-me ao menos noticias suas, sim? Fico com tantas saudades e com tantas lembranças deste dia!

— Tambem eu as levo. Mas por quem lhe heide dar as minhas noticias?

— Pelo cabinda. O negro quer-me muito; bem sabe que sou a filha dele.

— Muito bem. Agora retiro-me que são horas. Levo-a a V. Ex. ^a gravada nos olhos, e no coração.

— Faça-me ainda uma coisa, faz?

— Tudo, minha senhora.

— Deixe as excellencias com que me trata e mostre-me mais confiança.

— Seja. Era essa a minha vontade. Adeus. . . Magdalena.

— Até breve. . . Luiz!

E apertaram-se as mãos numa effusão de grandissimo sentimento, e separaram-se depois, saudosos ambos, ambos melancholicos e impressionados.

Americo e os outros empregados do armazem partiram tambem.

Jorge deixou depois a filha e saiu.

Magdalena ficou só.

Nas salas havia aquela meia escuridão da hora melancholica da transição do dia para a noite. No céu já brilhavam, formosas, algumas estrellas.

Magdalena foi sentar-se ao piano. Não ia tocar, ia fazer mais, porque ia gemer saudades com aquele amigo.

As harmonias que encheram a sala eram suaves e melancholicas; casavam-se em tudo com o que ela estava sentindo, e transportavam-a a mundos onde nunca tinha subido.

As mãos formosas e delicadas premiam suavemente as teclas de marfim, mas o seu espirito só via uma imagem, aquela musica só lhe repetia um nome:

— Luiz.

E tão embebida estava, tão embrenhada jazia naquele sonho que a dominava, que nem sequer deu pelo cabinda, que surgiu cautelloso a uma das portas.

O negro parou numa contemplação, que era a maior prova do seu culto por Magdalena. Mas ao vel-a assim tão preoccupada, ao parecer-lhe triste, aproximou-se carinhoso e disse, com toda a sua affeição a transparecer-lhe na voz:

— Ainda está triste a minha filha?

Magdalena como que accordando de um sonho respondeu:

— Não, cabinda. Agora penso na felicidade.

— E o branco?

— Tenho-o aqui, respondeu, indicando o coração.

— Mas a senhora moça é ainda a filha do cabinda!

— Sou, sim; tu és meu amigo, e ele. . . ele amo-o muito!

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