Capítulo VIII
Eram três horas da madrugada, quando Magdalena se retirou da janella, onde a vimos tão scismadora, tão embebecida na contemplação silenciosa da rainha da noite, que, apesar de bem alta, ainda ia vaidosa a mirar-se nos cristallinos espelhos dos lagos adormecidos, e gosando as suaves emanações das flores dos jardins.
Nunca a formosa virgem tivera uma noite de sensações tão violentas, esmaltada de tantos receios e de tantas esperanças, de tantas rosas e de tantos espinhos.
A imagem de Luiz, ora lhe sorria cariciosa, meiga, e cheia de bondade, ora lhe aparecia gelada, fria, e grave, com todos os traços de uma indifferença verdadeira.
Eram as alternativas do amor; era esta serie de contrastes e antitheses que o constituem, e de que ele próprio se alimenta, inflamma e vive!
Todavia, nesta opposição de ideias, de fantasias, de aspirações, que a dominavam e agitavam, o predominio era inquestionavelmente para o pensamento da felicidade, que tão magicamente lhe sorria no amor de Luiz.
O amor de Luiz! . . .
Aquele sentimento era o céu com todas as suas bellezas; com as harmonias dulcissimas das harpas afinadas dos seus anjos; com todos os cambiantes das luzes formosas dos seus astros scintilladores!
E foi neste diliciosissimo vago de uma esperança de ventura que Magdalena adormeceu.
Os olhos, aqueles olhos sempre formosos, cederam por fim ao pêso da somnolencia, e deixaram-se velar docemente pelas palpebras, quasi transparentes.
Não cessaram porém as ondulações do seio, que estava sendo o leito de um vasto oceano de amor.
Não cessaram, não, porque ainda se prolongava o sonho, em que, inteiramente embebida, se havia demorado na janella, de onde saíra momentos antes.
A formosa filha do cabinda estava vendo diante de si vastissimas campinas de flores perfumadas; estava ouvindo umas harmonias alegres, como nunca ouvira; tinha por cima o céu azul, limpido e sereno dos dias tropicaes, e em baixo, na terra, a esteira matizada de flores, que a mão de uma fada branca, aeria e vaporosa, andava espargindo prodigamente.
Ó mocidade! como são magicos os teus sonhos, quando te perfumam o seio largo, as emanações balsamicas dos roseiraes floridos do amor! Como é deslumbrante e querida a imagem, que te faz palpitar o coração, gravada nos raios prateados de cada estrella, reflectida na superficie serena de cada lago, envolta nas harmonias suaves e doces do cahir da agua de cada cachoeira, presa nas mil palhetas douradas do sol de cada esperança, e engastada na muldura valiosa das perolas de cada crença!
Sonha, Magdalena, sonha! Na tua idade, os sonhos são vida, a vida é ventura e a ventura parece não ter fim! . . .
Sonha, enquanto te doura a fronte, e se reflecte no negro assetinado dos teus formosos cabellos, o sol vivificante dos teus vinte anos tão perfumados.
E Deus queira que um dia não tenhas de beber a sicuta das desillusões, o calix amargo e mortal do fel da desventura!
Desponta propicia a estrella do teu amor; profetisam-te alegrias os canticos suaves, que te embalam o somno leve. . . Dorme, virgem; dorme, sonha, vive, e gosa!
E Magdalena sonhava.
naquele momento, havia, porém, dois homens que a estavam vendo com olhos de affecto formosamente sincero, mas inteiramente distincto.
Eram Luiz, que não podera conciliar o somno, e o negro, o cabinda, que havia accordado a pensar na felicidade da sua filha.
As seis horas da manhã já o sol dourava, com todo o seu deslumbrante explendor, a vegetação opulenta das mattas virgens, e as florinhas mimosas dos jardins vicejantes. As aves mandavam ao céu, nas azas invisiveis da viração do sul, o seu cantico matinal de graças e louvor. Sorria-se inteira a natureza, num sorriso que era como um himno abençoando o Creador!
O cabinda andava já, contente do seu trabalho, entregue à limpeza das folhas seccas, cahidas, durante a noite, em volta do lago, onde Magdalena costumava ir sentar-se, pensativa, no fim de cada tarde.
E tão embebido andava o negro, que nem viu a sua filha aproximar-se dele, surgindo de uma das aleas da chacara, orlada de mangueiras, cajueiros e pitangueiras.
— Tão entretido, cabinda! disse Magdalena aproximando-se.
— A minha filha! exclamou o negro, depois de se volver admiradissimo, com um sorriso de intima alegria a pairar-lhe no semblante.
— Então? volveu ela. Julgas que só tu te levantas com o sabiá das laranjeiras?
— O negro não esperava a senhora moça, não. A sua benção.
— Quero que vás à cidade.
— Ao branco? perguntou ele com rapidez.
— Sim. Vais levar este bilhete ao senhor Luiz, mas has de entregal-o só a ele, ouviste?
— Descance a minha filha, o negro vai já.
E depois, como recordando-se de alguma coisa passada, o negro continuou:
— Oh! o cabinda bem dizia, que o branco dos sonhos da senhora moça havia de chegar. É ele; o branco veiu e a minha filha gosta do branco.
— Ah! suspirou Magdalena, enlevando-se nos sonhos do seu affecto. Ah! se tu soubesses como eu o amo!
— É como o cabinda à sua parceira e aos seus filhos que lhe tiraram.
— Mais, mais ainda! Tu não imaginas como eu sou doida por ele! Pertence-lhe a minha vida, o meu coração, a alma, o pensamento! Sou toda dele, e não poderia viver sem ele. Tu, oh! tu não sabes o que eu sinto, não! Penso nele de dia, de noite, a toda a hora, e sempre! Tu contentas-te em ter saudades da parceira, que te tiraram, dos filhos de que te separaram; e eu morria se ele me faltasse, morria, sim!
— E o branco tambem quer muito à minha filha, muito; acudiu o cabinda, a quem o enthusiasmo de Magdalena, havia enthusiasmado tambem.
— Quem sabe? murmurou ela, numa expressão de alguma duvida.
— O negro vê. Hontem, no jantar, os olhos do branco buscavam os olhos da senhora moça. Eram como a juriti do matto, a chamar a companheira entre as folhas do capim. . .
— Isso era hontem, mas agora? . . . respondeu Magdalena com melancholia.
— Agora, senhora moça, o negro vai e há de trazer alegrias à sua filha.
— Vem depressa, ouviste?
— O negro não tardará.
E o cabinda guardou o bilhete que Magdalena lhe déra, e partiu apressado, volvendo-se, de quando em quando, para traz.
No seio da formosa virgem havia uns alvoroços immensos. Era a esperança que os originava, a dourada esperança, em que Magdalena ficava, de que depois das suas noticias, que mandava a Luiz, este lh'as mandaria tambem, num repetido protesto de grandissimo affecto.
Subiu.
Ao chegar ao topo da escada, encontrou-se com Jorge.
— Tão cêdo cá por fóra, filha! exclamou ele, um tanto admirado ao vêl-a.
— Estava uma manhã tão bonita! vim ver as minhas flores.
E beijou-lhe a mão e abraçou-o, cariciosa e meiga.
— E tão cêdo as deixas, doidinha!
— Já as vi, já lhes fallei, papae.
— E agora que vaes fazer?
— Uma visita a outro amigo. . . disse ela, sorrindo.
— Pois ainda tens mais affeiçoados, Magdalena?
— Se tenho, papae! disse ela, suspirando. Então o meu piano?
— daqui a pouco esqueces-me de certo. Se vaes assim a repartir o teu affecto, não deixas no teu coração um cantinho para teu pae!
— Oh! o logar do papae ninguem o tira, ninguem!
— Nunca?
— Nunca!
E Magdalena prendeu-o pelo pescoço, sorrindo com meiguice, e imprimiu-lhe na face dous osculos purissimos.
Jorge acolheu-os como os paes acolhem os beijos dos filhos, quando os paes são paes, e os filhos não degeneram.